7/26/2007

O TRIBUNO

Alegre tem direito às opiniões contrárias, a divergir, etc., etc. Tem direito a tudo, mesmo a trair a sua própria memória quando insinua comparações descabidas.

A história política de Manuel Alegre é a história de muitos portugueses. Ou pelo menos segue o mesmo padrão.

A seguir ao 25 de Abril e abortada a tentativa de bolchevização do país, sonhou com um país ideal, retalhos de um lado e de outro a que se juntava muita imaginação e diletantismo. Nada no passado recente ou no futuro minimamente previsível faria supor que tal país fosse possível.

E mesmo que fosse possível, as opções das pessoas desmentiram que fosse desejável.

É nesse país impossível, feito de homens bons e fraternos, de políticos que com uma palavra apenas poriam o mais recalcitrado indolente a trabalhar que nem um louco, que do alto de uma tribuna transformariam as relações sociais velhas de séculos, essa ideia que a democracia, pela sua natureza intrínseca triunfaria, que vive Manuel Alegre.

Muitos socialistas consideram-no uma espécie de reserva moral do Partido. Ora, Alegre não é nenhuma reserva moral simplesmente porque a moral não se prega, pratica-se.

No caso, pratica quando lhe convém. Porque nunca recusou as benesses da classe política (o argumento de que nunca aceitou um cargo no Governo é lamentável num homem que pretende ser intelectualmente sério), sempre conviveu razoavelmente bem com o aparelhismo, com a troca de favores e mais grave, com o populismo, a demagogia e o caciquismo (como no caso da co-incineração).

Manuel Alegre vive hoje no Pais que sonhou em 1976, em conjunto com um punhado de gente bem intencionada e levemente paternalista.

Lamento que cada vez mais seja visto como uma criatura anacrónica, olhada do lado de cá do espelho, com uma certa curiosidade que rapidamente se transforma em enfado.

Como diz o boneco do contra, a Manuel Alegre ninguém o cala. O problema é que eu já não tenho grande paciência para o ouvir.

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