7/21/2006

UM NOVO PARADIGMA DE GESTÃO PÚBLICA LOCAL

Sem pôr em causa que as grandes e mais importantes decisões para o País são tomadas a nível central (Pelo Governo e pela Assembleia da República), não deixo de considerar que as decisões e as formas da gestão pública local são determinantes para a melhoria da qualidade de vida concreta das pessoas.

O actual modelo de gestão de serviços locais há muito que está esgotado. Já toda a gente percebeu, diariamente todos sentem isso, mas ninguém faz efectivamente nada para o alterar.

Tomando como exemplo a Póvoa de Santa Iria, que é uma das maiores freguesias urbanas do País, temos um conjunto de serviços públicos que funcionam separadamente, sem qualquer interligação entre si, para além do mínimo necessário. As Escolas, o Centro de Saúde, a Força de Segurança e a Junta de Freguesia têm, cada um, o seu quadro de pessoal, os seus meios técnicos e instrumentais, o seu orçamento e as suas competências.

Se quisermos ser sérios neste debate, chegaremos à conclusão que existe um núcleo de competências próprias de cada uma destas entidades. Ensinar no caso das Escolas, prestar cuidados de saúde no caso do Centro de Saúde, zelar pela segurança no caso da GNR e representar politicamente a freguesia, no caso da Junta de Freguesia. Para desempenharem estas competências, precisam, respectivamente de Professores, de Médicos e Enfermeiros, de Soldados e de Políticos. Todas as outras funções (burocráticas, administrativas, de higiene e limpeza dos seus próprios espaços e equipamentos, etc.) são instrumentais e idênticas (com pequenas diferenças) nas quatro instituições. Não tem pois qualquer justificação em termos de gestão que cada uma destas instituições tenha o seu próprio quadro de pessoal, gastando cada uma parte dos seus recursos na gestão deste “aparelho”. Para quem está de fora, mas que paga impostos e quer ver esse dinheiro bem empregue, é absurdo que por exemplo faltem auxiliares de acção educativa numa escola quando noutra instituição pública do mesmo espaço geográfico podem existir recursos humanos afectos à função pública e capazes de prestar esse serviço e que só não o fazem porque o facto de estarem vinculados ao organismo x é mais relevante que o seu vínculo ao serviço público. Assim o dizem as leis do funcionalismo público, assim defendem os sindicatos e assim continuamos a gastar alegremente os dinheiros públicos. Manter a higiene e efectuar a limpeza é basicamente igual no posto da GNR, na Escola, no Centro de Saúde ou na Junta, como é o trabalho administrativo e auxiliar.

É necessário um novo paradigma de gestão pública local que passa essencialmente por identificar o núcleo central das competências de cada órgão, afectar em exclusivo os recursos indispensáveis ao exercício dessas competências e por partilhar os recursos humanos, técnicos e financeiros que instrumentalmente todos precisam.



7/10/2006

CANTIGAS DO RUAS

Depois de um período de ausência, por causa dos exames, estou de volta.

E para começar, gostaria de fazer um breve comentário à entrevista do Dr. Fernando Ruas, Presidente da Câmara Municipal de Viseu há 16 anos e Presidente da Associação Nacional de Municípios.

Desde logo, a falta de preparação dos dois entrevistadores (sobretudo da jornalista da Rádio Renascença) chegou ao ridículo.

De tudo o que o Dr. Fernando Ruas disse (referiu alguns factos e lugares comuns) gostaria de destacar a visão oitocentista (para ser simpático com o homem) que revelou ter relativamente ao território.

Acha o Dr. Fernando Ruas que em nome da “coesão nacional” a Administração Central não pode alterar a fórmula de cálculo das verbas que cabem a cada município e assim canalizar mais verbas para os grandes municípios urbanos.

O que não disse foi que a maioria das pessoas vive nos grandes municípios e que na prática a coesão que defende significa que a maioria tem menos qualidade de vida para que a minoria disponha de pavilhões onde ninguém joga, escolas onde ninguém aprende, magníficas estradas municipais sem uma marca de travagem brusca.

O que não deixa de ser curioso, num social-democrata.

No país do Dr. Ruas, continuaremos a ter subúrbios pejados de gente sem escolas para os filhos, de caos rodoviário, de piscinas atulhadas de putos, de autarcas cedendo à especulação pura e dura. Enquanto que em cidades como Viseu, ou Covilhã, ou Vila Real uma minoria continua a viver com mais qualidade de vida, como o demonstram as estatísticas.

E pelo que se viu, é com base nesse mapa administrativo do século XIX que vamos continuar a viver.