10/12/2007

CACETEIROS

Não vou fazer grandes comentários sobre o que se terá passado na Covilhã. Tenho uma posição clara sobre a relação da democracia com grupos que não respeitando os seus princípios, sobrevivem exactamente por causa dos princípios democráticos. Devem ter o máximo espaço de liberdade por duas razões óbvias. Primeiro pela estrita aplicação do princípio da liberdade individual. Segundo porque não é com repressão que se alteram ideias e convicções, por muito que a maioria discorde delas ou que não tenham qualquer sustentação fáctica.
Perdoem-me a comparação, mas a actuação dos sindicatos é idêntica à daqueles jogadores de futebol caceteiros e manhosos, que passam a vida a fazer pequenas faltas, apreciações sobre a vida sexual das mães dos adversários, que normalmente são tratados com a indulgência que concedemos aos ineptos.
Responder com cacetadas aos caceteiros não é solução. Até porque, no fundo, ninguém leva o jogo muito a sério, não se marcam golos e no fim do dia vamos todos para casa ver a Sr.ª Clara de Sousa entrevistar o Dr. Portas ou humilhar barítonos de karalhoke.
It’s all entertainment.

10/08/2007

TRATADO DE CARRAPICHANA

A Europa tornou-se numa ruela cheia de burocratas, que produzem coisas tão importantes e decisivas, verdadeiros monumentos jurídicos, capazes de fazer corar Jean Monnet ou Schuman, como por exemplo, o Regulamento CE n.º 1111/2007, que fixa as restituições à exportação do açúcar branco e do açúcar bruto no estado inalterado. Ou esse compêndio de 200 anos da melhor ciência jurídica europeia que é o Regulamento n.º 1019/2007 que proíbe a pesca da bolota nas águas norueguesas da zona CIEM IV pelos navios que arvoram pavilhão da Alemanha. Isto porque os alemães são, como toda a gente sabe, açambarcadores. Mandam-se ao mar e pescam tudo o que lhes aparece. Bolotas, melancias, nozes, eu sei lá.
Por tudo isto devíamos ponderar se vale a pena associar o nome de Lisboa a um tratado que não vai ficar na história nem servir para nada.
Para lhe dar alguma utilidade e visto que Lisboa não precisa de mais publicidade, proponho que seja assinado na Carrapichana, magnífica freguesia do Concelho de Celorico da Beira, com uma história tão portuguesa. Pelo menos teria a visita de alguns milhares de estudantes europeus de direito. E de alguns eurocratas, encantados com a discrição dos autóctones.
A Carrapichana agradece.
E eu também.

9/28/2007

LOS LOCOS




Alguém que não esteja anestesiado pela linguagem do mainstream político, que não encolha os ombros e que não justifique o injustificável com argumentos como "o peso do passado", olha para a indemnização da RTP e pode concluir com toda a legitimidade que somos todos inimputáveis.


Leia-se loucos.

9/27/2007

Uma perguntinha idiota…

Pedro Santana Lopes fez o que devia ter feito. Parabéns. Ponto final parágrafo.
Mas será que ninguém tinha reparado até hoje no constante atropelo pelas mais elementares regras de convivência e respeito pelas pessoas que, diariamente, os MEDIA FAZEM?

9/25/2007

POLITIQUINHA

Para ser sério e rigoroso, não basta a proclamação. É preciso agir e manifestar-se de forma séria.

É por isso que este texto, da autoria de Pinho Cardão não serve. Fica pela rama, sem se atrever a explicar os dados.

Se o seu autor quisesse de facto ser sério e rigoroso teria de referir que para além da inépcia dos governantes, da incompetência dos quadros superiores da administração pública e da ineficiência estrutural do Estado, a significativa fatia do orçamento de estado que não serve para nada mais além de sustentar, por acção ou omissão, uma parte importante da classe média, no seu fausto provinciano. E que esse parasitismo não começou hoje, nem sequer ontem.

Não se trata pois de um artigo de política, nem sequer de politiquice.

É mais de politiquinha.

SUICIDE IS PAINLESS

O texto de José Pacheco Pereira escrito no jornal Público de 22 de Setembro é pungente.

O seu autor há muito que procura aquilo que é logica e estruturalmente impossível, que é a sobrevivência do PSD com a dignidade e a credibilidade que Pacheco Pereira exige.

Como estamos a falar de alguém informado e conhecedor dos meandros, daquela substância viscosa conhecida por "As bases", que compõem 90% do corpo partidário, não se pode falar em "eutanásia negligente".

A extracção do bicho implica a morte do hospedeiro. A permanência leva ao definhar lento e patético.

Para quem, como eu, não é do PSD, mas considera que o mesmo representa uma parte importante da sociedade, o processo não é propriamente doloroso. Mas começa a ser incomodativo.

'Suicide is Painless'
Through early morning fog I see
visions of the things to be
the pains that are withheld for me
I realize and I can see...
[REFRAIN]:
that suicide is painless
It brings on many changes
and I can take or leave it if I please.
I try to find a way to make
all our little joys relate
without that ever-present hate
but now I know that it's too late, and...
[REFRAIN]
The game of life is hard to play
I'm gonna lose it anyway
The losing card I'll someday lay
so this is all I have to say.
[REFRAIN]
The only way to win is cheat
And lay it down before I'm beat
and to another give my seat
for that's the only painless feat.
[REFRAIN]
The sword of time will pierce our skins
It doesn't hurt when it begins
But as it works its way on in
The pain grows stronger...watch it grin, but...
[REFRAIN]
A brave man once requested me
to answer questions that are key
is it to be or not to be
and I replied 'oh why ask me?'
[REFRAIN]
'Cause suicide is painless
it brings on many changes
and I can take or leave it if I please.
...and you can do the same thing if you please.

GENTE CRESCIDA COM A MESADA DO PAPÁ


A Lusoponte, que tem entre os seus accionistas algumas empresas de construção civil, conseguiu um pacto leonino quando construiu a Ponte Vasco da Gama.
Tal deve-se ao facto de o Estado ter uma posição negocial fraca, absolutamente incompatível com os seus “accionistas”, que somos todos nós.
Numa sociedade onde muitos dos accionistas não contribuem com os suprimentos acordados e fogem de todas as obrigações acessórios o resultado é este.
Acresce a isto que a nossa sociedade ainda não percebeu que não pode continuar a ter um objecto tão amplo e tão difuso.
Trocando por miúdos.

O Estado apresenta-se nestas situações numa posição vulnerável porque gere mal as contribuições que alguns de nós fazem o favor de lhe entregar. Financia sobretudo arrivismos sociais de classe média, legítimos aliás, mas injustificáveis.
Ao tentar fazer tudo, nada faz.
Depois, naquilo em que devia ser forte, como neste caso, é uma espécie de insolvente desesperado perante o agiota manhoso.
Do lado de lá está um conjunto de gente grande que nunca deu um passo sem recorrer à mesada do papá.
Era assim quando o papá se chamava Oliveira Salazar e a mesada se apresentava como condicionamento industrial e continua assim, hoje, que o papá responde por outros nomes e usa outras estratégias.

9/20/2007

MANGAS DE ALPACA

Sobre a "revolta" e a "indignação" dos notários, remeto para aqui, via Causa Nossa.

Estou farto de Chicos Espertos.

Ainda por cima despudorados.

9/19/2007

O VASCO

A nossa vida está cheia de Vascos. Provavelmente para compensar o vácuo. Deus, na sua infinita sabedoria (capaz de ganhar aquele concurso televisivo que se chama "A Herança"), brindou-nos com Vascos. Assim, de rajada, lembro-me de vários. O Vasco Granja que me punha a ver aqueles desenhos animados em que um desperdício de oficina auto salvava um bocado de cordel de ser morto por três tampas de sumo assassinas; o companheiro Vasco, protegido por uma muralha de aço (forrada com linóleo e com um "avançado" em plástico por causa da chuva) que tantas coisas boas nos queria deixar; e o Vasco Graça Moura, poeta e glosador-mor da épica obra "Porque somos muito melhores que eles, sendo na essência muito parecidos", que no seu maniqueísmo rasteiro tenta manter de pé a moral das tropas.

Vasco não pára e qual asceta de cordel, não se exime de deificar o mau só para impedir o triunfo do péssimo. Este texto é um belo exemplo. O rigor e a precisão embaraçam as melhores máquinas de tortura que, ao longo da história, fomos conhecendo (algumas demasiado perto).

Agora imaginem que o homem ganha bom senso e volta a utilizar os dons para algo verdadeiramente útil.

CADEIA ALIMENTAR

Uns planam. Bem acima.

Outros planeiam. E vão subindo.

Nós somos planos. Rasos.

Bem juntos ao pó, onde nos divertimos a chafurdar.

No fim, o que de nós fica ligeiramente acima, arrota.

Batemos palmas, porque embora toscos e agrestes, somos educados e reconhecemos a autoridade naquele cujos caninos são mais afiados.