8/08/2007

A ESQUERDA IRRITANTE

Há uma espécie de esquerda que me irrita. Com quem não me entendo.

É aquela esquerda, que julga poder converter o PC num partido democrático, que aceite as regras da democracia parlamentar como nós a conhecemos, apesar dos sucessivos episódios que demonstram o contrário, como
este.

Ora o partido comunista nunca foi, não é nem nunca será um partido democrático. É um partido marxista-leninista. No dia em que decidir mudar de rumo extingue-se ou torna-se irrisório como aconteceu aos partidos comunistas de França, Itália ou de Espanha e ao eurocomunismo.



Será uma ideia assim tão difícil de entender?

8/07/2007

SAIR DO ARMÁRIO


Não é preciso ser especialmente culto para se perceber que nós temos uma profunda e enraizada tradição de vocações sacerdotais.

Com a democratização e a laicização, a Igreja católica deixou de ter o monopólio, o que tornou a coisa bem mais divertida.

Tenho uma especial estima e até algum carinho pelos sacerdotes que aqui e acolá, vão surgindo. O meu preferido continua a ser o Dr. Francisco Louçã, imbatível naquele seu ar meio gazeado de quem já viu a Luz, malgré a má fase que atravessa.

A blogosfera trouxe ao espaço público um conjunto alargado de pessoas que até aqui se limitavam a pregar no café, na associação lá do bairro, nas salas de aulas.

Por exemplo, o Dr. João Miranda, que costuma proferir as suas homilias aqui.

Tem um estilo entediante, tão entediante e previsível que nos provoca o sorriso, de tão burlesco.
Continuarei a acompanhá-lo, já que não posso ver a Tertúlia Cor-de-Rosa.
Ou enquanto a revista Maria não tiver uma edição on line.


Ámen

8/06/2007

THE SILLY SEASON CHRONICLES ARE BACK


Entre as preferências gastronómicas da Kiduxa Horta ou o carro novo do tipo que parece que namoriscou a Pituxa Pirosetti, que recupera de uma injecção de botox dada por um cocainómano que lhe deixou a carinha laroca numa imitação bem conseguida de goraz morto e congelado, a silly season apresenta outros motivos igualmente interessantes.

Falo por exemplo, do retrato do País que nos é fornecido pelas inúmeras festas que, nesta altura decorrem em milhares de aldeias.

Não me refiro às imitações daquela moça-da-margem-sul-que-se-zangou-com-a- mãe-e-que-canta-aquela-coisa-do-pisca-pisca ou daquele rapaz de Setúbal cujo nome artístico me faz lembrar um brinquedo de noites solitárias.

Refiro-me ao raro encontro das várias realidades sociais que compõem o País. Dos avós, dos pais, dos filhos e dos netos.

Da ruralidade desenhada a escopro na cara dos avós, do traço rural suavizado por anos de subúrbio nos pais, do made in Amadora ou Seixal que caracteriza os filhos e dos netos zara.

É este Portugal, dos avós que ficaram, dos pais que com maior ou menor esforço e em maior ou menor grau triunfaram na cidade, dos filhos encartados mas aflitos, lentamente devorados pelo mundo global que lhes caiu em cima e dos netos que só vêem os avós no habitual almoço de domingo uma vez por mês, do qual saem a correr, entre beijinhos de naftalina e uma nota de 20 euros que se anicha furtiva no bolsinho timberland.

É este Portugal desequilibrado, dos milhões desperdiçados diariamente nas viagens subúrbio/subúrbio, de terra com ar de resignação que se avista da auto-estrada, que se encontra no Verão.

Reequilibrar tudo isto não passa pelo triste e miserável discurso dos comensais instalados.

O mundo rural, as aldeias não precisam das repartições de finanças ou dos hospitais que nunca tiveram nem nunca vão ter.

Precisam de gente e gente precisa de rendimento. É tão simples como isto. Precisa de uma agricultura moderna, de terrenos disponíveis, de uma outra política florestal.

Não me importo de pagar impostos para que o Estado assegure o investimento inicial necessário para que as pessoas vão ou regressem ao campo. Porque uma árvore não é uma pizzaria de subúrbio, demora mais tempo a produzir rendimento. E porque quem tem a lucidez de pegar nas malinhas, deixar o T2 em São Domingos de Rana e ir para uma aldeia a 50 km de qualquer outra coisa, explorar a terra, merece muito mais ser subsidiado que o empresário manhoso da empresa de vão de escada.

Infelizmente, como nas aldeias as pessoas escasseiam e por isso, escasseiam os votos, ninguém demonstra estar efectivamente preocupado com o seu fim.

O problema é que o fim das aldeias é também o prenúncio da deterioração ainda maior da qualidade de vida nos gigantescos subúrbios que se vão (de)formar, emaranhado sem gestão possível.

O fim das aldeias é o princípio do fim da cidade, “as we know it”.

Valha-nos a semaninha em benidorm uma vez por ano.

7/31/2007

O QUE FAZER COM ESTE PARTIDO? (RASCUNHO)


(Este texto é uma versão ainda não revista)


O PSD é um partido peculiar. Por um lado é um partido à moda antiga, federador de diversas tendências, de um conjunto de pessoas que não se reviam no socialismo trop gauche do PS pós-PREC. No seu seio militam social democratas, conservadores, democratas-cristãos e liberais. Por outro lado é um partido contemporâneo por isso mesmo, pela sua elasticidade ideológica.

A história do PSD deve ser contada lado a lado com a história do PS.

Para que se perceba exactamente a encruzilha em que o partido se encontra hoje e que não se resume a um problema com o seu líder.

Nos primeiros anos de democracia, enquanto o PS se encostou à esquerda democrática, estancando o eventual avanço do PCP, o PSD defendia uma maior iniciativa privada e uma menor intervenção do Estado. No entanto, se hoje analisarmos os factos, rapidamente se conclui que não existia, já naqueles momentos, uma diferença ideológica profunda, antes e só uma diferença de grau.

Mesmo que se defenda que dentro do PSD sempre existiram outras correntes para além da social democracia, a praxis política sempre demonstrou uma social democracia pura e dura.

Deve-se em parte ao PSD (e uma boa parte, diga-se) a actualização das estruturas sociais do País à realidade contemporânea. Em resumo, as bases de uma sociedade social democrata de tipo ocidental foram construídas (também) pelo PSD.

Só que ao mesmo tempo o PS fazia um lento aggiornamento da posição inicial, ou melhor, da sua praxis inicial, enquadrando-a no socialismo democrático (ou na social democracia, o que vai dar praticamente ao mesmo). A terceira via foi só o último sinal desse update.

Curiosamente foi Cavaco Silva que “percebeu”, na forma muito peculiar de perceber as coisas que o caracteriza, ou anteviu o futuro, ao anunciar o “fim” da esquerda e da direita. Descontando a imprecisão, a actualidade prova que Cavaco tinha razão.

A esquerda e a direita não acabaram, mas PS e PSD ocupam o mesmo espaço político e sensivelmente o mesmo espaço ideológico. O PSD, entretido com mais de uma década de poder, não só não se apercebeu do reposicionamento do PS, como pura e simplesmente fez cessar o debate indispensável dentro de um partido em que convive a estrita necessidade do poder para manter a coesão interna, com óbvias diferenças (e incompatibilidades) ideológicas dos militantes.

Como o PSD é um partido de poder e em Portugal poder significa Estado, torna-se inviável e até contraproducente que a ala liberal (passe a ironia) do PSD consiga tomar conta (pelo menos ideologicamente) ou sequer contar para alguma coisa dentro do partido.

O PS canibalizou o PSD. De uma forma cruel. Como a política é hoje personalizada, ou melhor, “pessoalizada”, isto é, é uma política centrada em protagonistas, basta ao PS apresentar um líder mais credível para ganhar. Ou vice-versa.
Claro que ficam de fora as ditas franjas de ambos os partidos. No PS essa “tendência” é actualmente representada por Alegre, agarrado ao PS de 76. No entanto e bem vistas as coisas, as alegadas diferenças, com excepção do esquerdismo retrógado de Alegre, dentro do PS resumem-se a questões de pormenor e de protagonismos pessoais, raramente ideológicos. Confundir isto com pensamento único é tão só errado. As “franjas do PSD têm, por assim dizer, aptidão para criar um verdadeiro partido de direita em Portugal, ou em alternativa, um verdadeiro partido liberal. Em última análise, para criar os dois. Só que isto reduziria o PSD a um Partido minoritário e obsoleto. Ninguém está disponível, pelas boas e pelas más razões, para o fazer. A fusão de ambos os partidos é pura e simplesmente impensável.

Além de que não se chega ao pé de um militante e se diz: o meu amigo desculpe, mas chegamos à conclusão que não existimos e vamos fechar a loja.

O PSD hoje só existe por tradição, por hábito e não por qualquer diferenciação ideológica relevante do PS. Apesar deste absurdo, o PSD não vai acabar, porque os partidos não se resumem a esta “lógica formal”.

Marques Mendes é apenas uma ressaca. Vamos ver se a abstinência não deixa marcas bem profundas e irreversíveis.


Um guarda florestal espanhol, descontente com o fim do seu contrato de trabalho, incendiou as Ilhas Canárias.

Espero que ninguém se lembre de despedir nenhum guarda das centrais nucleares espanholas.

7/27/2007

HÁ UM FASCISTA DENTRO DE TODOS NÓS, MAS DENTRO DE ALGUNS NÃO HÁ MAIS NADA




A propósito disto

Será que nenhuma das cabecinhas bem pensantes que hibernam no ministério da educação percebeu que a memória é um bem essencial?

Será que ainda não se percebeu que o país pós-integração europeia é uma coisa frágil, com pés de barro enfiados em sapatinhos chineses?

Que há 40 anos, Portugal era um país a sair da ruralização, atrasado, ignorante e obscurantista?

Seria pedir muito que passassem profusamente nas escolas o programa do António Barreto (para lá da discussão sobre a sua qualidade) ou pelo menos fizessem um programa que mostrasse aos filhos do cavaquismo (para lá da responsabilidade pessoal de Cavaco) como viveram os seus pais e os seus avós?

O NOVO DIRECTOR-GERAL DO UMBIGO




Gente das Direitas e alguns das Esquerdas estremeceram de contentamento quando o Sr. Sarkozy foi escolhido como novo presidente da França.

Até porque o homem, passadas as necessidades estratégicas de flirt com a direita mais recalcitrante, mergulhou na 3ª via.

Alguns espíritos menos atentos rejubilaram com a nova aquisição, convencidos que Sarkozy seria um novo Blair.

O seu programa é mais uma tentativa de ter o melhor de dois mundos, seguindo também nisso Blair.

Sarkozy até pode ser melhor que Blair, digamos um upgrade de Blair.

Nada altera o problema de fundo.

Sarkozy é o presidente de um país que há muito só existe na cabeça dos franceses. Que há muito deixou de ter qualquer relevância cultural, social e civilizacional na Europa.

A história da França na Europa é esclarecedora. Sendo impossível pô-los fora por causa da sua localização geográfica, os franceses têm mantido o seu status quo à conta disso, com e sem cadeiras vazias. Perderam o império, mas continuam a comportar-se como um Império. Perderam a liderança intelectual da Europa e ressentidos com aquilo que consideram ser a falta de reconhecimento da sua superioridade, olham todos os outros com desprezo.

Naquilo que constitui a vida quotidiana dos europeus, não há um único símbolo francês da cultura pop. Um livro, um cantor, uma ideia. Nada.

A selecção francesa de futebol tinha nomes tão franceses como Zinedine Zidane ou Djorkaeff.
O Tintin, ou Jacques Brel são belgas.

A última encarnação de Marianne, Laetitia Casta, é um bocado de plástico deslavado, comparada com as antecessoras Deneuve e Bardot.

Não é um país. É um umbigo gigante.

Ora não me parece que Sarkozy seja o homem que do Eliseu diga, alto e bom som diga aquilo que os franceses precisam de ouvir.

Que o império acabou, que a França não é referência para ninguém em nenhuma parte do mundo a não ser em França e que o nível de vida dos franceses só se tem mantido com recursos a meios que a ética apregoada pelos próprios condena.

Sarkozy não o vai fazer, simplesmente porque se o tentasse era rapidamente engavetado no Hospice de Bicetre.

7/26/2007

O TRIBUNO

Alegre tem direito às opiniões contrárias, a divergir, etc., etc. Tem direito a tudo, mesmo a trair a sua própria memória quando insinua comparações descabidas.

A história política de Manuel Alegre é a história de muitos portugueses. Ou pelo menos segue o mesmo padrão.

A seguir ao 25 de Abril e abortada a tentativa de bolchevização do país, sonhou com um país ideal, retalhos de um lado e de outro a que se juntava muita imaginação e diletantismo. Nada no passado recente ou no futuro minimamente previsível faria supor que tal país fosse possível.

E mesmo que fosse possível, as opções das pessoas desmentiram que fosse desejável.

É nesse país impossível, feito de homens bons e fraternos, de políticos que com uma palavra apenas poriam o mais recalcitrado indolente a trabalhar que nem um louco, que do alto de uma tribuna transformariam as relações sociais velhas de séculos, essa ideia que a democracia, pela sua natureza intrínseca triunfaria, que vive Manuel Alegre.

Muitos socialistas consideram-no uma espécie de reserva moral do Partido. Ora, Alegre não é nenhuma reserva moral simplesmente porque a moral não se prega, pratica-se.

No caso, pratica quando lhe convém. Porque nunca recusou as benesses da classe política (o argumento de que nunca aceitou um cargo no Governo é lamentável num homem que pretende ser intelectualmente sério), sempre conviveu razoavelmente bem com o aparelhismo, com a troca de favores e mais grave, com o populismo, a demagogia e o caciquismo (como no caso da co-incineração).

Manuel Alegre vive hoje no Pais que sonhou em 1976, em conjunto com um punhado de gente bem intencionada e levemente paternalista.

Lamento que cada vez mais seja visto como uma criatura anacrónica, olhada do lado de cá do espelho, com uma certa curiosidade que rapidamente se transforma em enfado.

Como diz o boneco do contra, a Manuel Alegre ninguém o cala. O problema é que eu já não tenho grande paciência para o ouvir.


O caso charrua é apenas um caso tornado público porque na guerrilha “milenar” que os aparelhos (sobretudo do PS e do PSD) uma das partes resolveu lançar mão de um mecanismo pouco utilizado.

Nesta guerra de bolso que nos últimos trinta anos caracterizou a administração pública e lhe minou por completo (entre outras razões) a possibilidade de servir para o objectivo constitucionalmente determinado, o cenário é simples.

De um lado estão os aparelhos locais e distritais do partido dominante. Enchem tudo quando é repartição e departamento dos seus, que fazem a vida negra às tropas do partido da oposição.

O medo dos funcionários públicos que se fala é de dois tipos. Por um lado o medo dos incompetentes que os partidos foram despejando na administração pública. Têm medo que, passando a ser avaliados, sejam politicamente saneados e não apenas prejudicados nos seus cargos e benesses. Por outro lado há o medo de quem, nunca tendo estado sujeito a qualquer avaliação minimamente rigorosa, teme que seja avaliado por um quadro político que o lixe.

Mas o medo é sobretudo desta gente que há anos pulula na administração, com base em nomeações políticas.

Até agora a guerrilha consistia em tabefes nos adversários quando se estava na mó de cima. Da parte passiva, o papel era suportado com galhardia, pois como o sistema é rotativo, o agredido de hoje é o agressor de amanhã. Mas tirando umas escoriações, uns telemóveis retirados e uma ou outra benesse cortada, tudo corria na perfeição.

Não conheço o sr. charrua ou a sr.ª moreira e por isso não posso afirmar que podem ser tipificados como boys.

Claro que o Prof. Charrua (que não dá aulas há 2 décadas) e a Dr.ª Moreira (com aquelas poses da tipa esperta e bem falante que espremida deita duas gotinhas) são óptimos candidatos ao que se chama boys.

É por isso que acho graça a muitos dos que tem comentado esta situação como algo de novo. Como uma claustrofobia. Primeiro porque muitos deles conhecem bem melhor que eu a partidarite e o aparelhismo. Aliás, muitos nomeiam ou nomearam boys.

Porque a única diferença entre esta situação e as milhares que se passam na administração pública é que em vez de uma chapada ou de um carolo, tentou dar-se um pontapé no rabo do visado.

E isso vai contra as regras cénicas em vigor. Podem puxar os cabelos, fazer uma rasteira ou vá lá, puxar uma orelha. Mas não deixar marca.

Esta gente, estes quadros dos partidos que há anos invadem a administração pública, passam por diversos cargos sempre sem qualquer escrutínio sério são um dos cancros do país.

Fazer de um arrufo local entre dois membros dessa confraria assunto nacional, só porque um deles abusou da dose habitual, sem se discutir e relevar que o importante seria limpar de vez a Administração Pública é apenas uma forma retorcida de manter tudo como está.