5/30/2007


Chico amigo!

O que se passa contigo?

Andas ausente, rapaz
Sem essa verve loquaz
E o espírito arguto
Que de ti fazia
O mais velho puto
Na nossa freguesia

Bateste à porta
Do sindicato
Veio resposta torta
E algum desacato

Aprendiz de feiticeiro
Deve ter prudência
Que do lado esquerdo mais rasteiro
Não quer o PC co-gerência

Isso de engatar suburbanos
Está cada vez mais difícil…
Longe vão os anos
Em que de cada lado havia o míssil

Se de facto queres ser moderno
Faz-me Chico um grande favor
Deixa de usar esse bolorento caderno
Que de velho com cara de novo tenho pavor.


Deste teu amigo que escuta as tuas encíclicas com um sorriso nos lábios

A AGITAÇÃO SOCIAL E A SUA CONFUSÃO COM UMA ESPÉCIE DE DELIRIUM TREMENS

No fim do ano passado, os comentadores habituais vaticinaram um 2007 de muita agitação social. Chegados quase a meio de 2007, a agitação social resume-se a uma greve dita geral. Depressa entraremos na época de Verão (a silly season já começou, acompanhando as alterações climáticas) e restam 3 meses (que por força do Natal se resumem a 2) para o fim do ano.

Para agitação social convenhamos que é muito pouco. Se quisermos ser objectivos, aquilo que agitou a sociedade, que a fez debater, apresentar soluções alternativas para um problema não foi certamente o objecto desta greve (as políticas do Governo), mas coisas bem mais triviais, como a continuação do treinador do Benfica ou o desaparecimento de uma menor numa estância de férias (que sendo pungente do ponto de vista humano, está longe de afectar a vida de milhões de pessoas).

Isto não é necessariamente bom, mesmo para quem, como eu, entende que de uma forma geral as mudanças que o Governo tenta introduzir são necessárias, razoavelmente adequadas e relativamente proporcionais.

Só que carecem de escrutínio, de debate, de sindicância até. E isso não é feito. Nem será nunca feito enquanto se mantiverem à frente dos sindicatos as pessoas que lá estão, com as ideias que sustentam.

Um cidadão com um mínimo de bom senso que queira ser informado, está, em bom português, lixado. De um lado tem sindicatos que pura e simplesmente não aceitam o sistema, que ao contrário do que tentam passar, não se integram no movimento sindical europeu. Do outro a oposição (não esta oposição em concreto, mas todas as oposições) que de forma demagógica defende hoje o que ontem criticou violentamente e vice-versa.

Veja-se o caso exemplar de Carvalho da Silva, líder da CGTP há 21 anos. Exactamente. 21 anos. Toda a gente fala dos dinossauros autárquicos, do reinado do Dr. Jardim, do Sr. Pinto da Costa, mas ninguém questiona se é ou não um sintoma de vitalidade que há mais de duas décadas Carvalho da Silva se mantenha na liderança. Carvalho da Silva é particularmente esperto, tem a tarimba do combate corpo a corpo, feito de golpes baixos e primários. De uma forma hábil induz regras gerais de casos particulares. É um centralista democrático que defende a democracia de tipo burguês para os outros.

Do outro lado da barricada, o Governo (e todos os governos) não reconhecendo implicitamente a legitimidade substancial destes sindicatos, mas sendo obrigado formalmente a ouvi-los, trata-os com sobranceria na exacta medida da sua legitimidade eleitoral. Simplificando: os governos sabem que muito mais que os partidos, os sindicatos perderam representatividade aos longo dos anos, sabem que se entrincheiraram na função pública, numa atitude cobarde e fácil e que os seus membros são tão carreiristas como os boys dos partidos, mas comem da mesma malga e que o seu discurso radical e anti-sistema acaba por ser uma carta branca para que cada governo actue sem um verdadeiro escrutínio.

Assim, repito, o cidadão com um mínimo de bom senso está lixado.

Veja-se o exemplo da função pública. O governo quer abrir a redoma e pergunta aos sindicatos sobre a melhor forma de o fazer. A resposta dos sindicatos é esclarecedora: não querem simplesmente abrir a redoma. Não põem sequer a hipótese de abrir a redoma.

Como é que se pode negociar com alguém que pura e simplesmente não quer negociar?

Resultado: o governo faz o que bem entende e em resposta (nem sempre racional) abre a redoma sem aviso.

Aliás, Carvalho da Silva reconhece a esquizofrenia da sua (?) posição quando afirma que a greve não é contra o governo, mas “contra as políticas do governo”.

Eu gostaria de ter um sindicato que verdadeiramente sindicasse o governo, que apresentasse alternativas sérias, viáveis e fundamentadas. Que no fundo, desse algum trabalho e obrigasse o governo a ser mais rigoroso.

Com estes homens e mulheres e com as suas ideias, tal não vai ser possível. Com gente como Mário Nogueira (como é que é possível que os professores se vejam representados naquela personagem anacrónica?!!!), ou Ana Avoila não me parece.

A tão falada agitação social afinal é apenas o delirium tremens
http://pt.wikipedia.org/wiki/Delirium_tremens de uma minoria há muito doente, que não deu pela queda do muro, pelas transformações sociais, políticas e económicas das últimas décadas e que ciclicamente entra em confusão mental.

Só isso.

Infelizmente.




5/24/2007

Tenho a noção que ser ministro da saúde dá cabo da dita.

Que temos uma história de ministros da saúde cilindrados pelos abutres que pululam à sua volta.

Que muitas pessoas exercem as suas funções nas respectivas classes (médicos, enfermeiros, farmacêuticos) em plena liberdade, mas sem a mínima responsabilidade social.

Posto isto não posso deixar de considerar que Correia de Campos tem exercido a sua função sem o bom senso que lhe é exigível.

Não se trata tanto das medidas em si, mas da forma como ele as apresenta ou faz que apresenta, sugere, alvitra, como se estivesse no café do seu bairro a falar com os amigos.

Aquilo que eu exijo de um ministro da saúde é que me explique, de uma forma clara, quais são as suas grandes opções e não que ciclicamente venha para a comunicação social apresentar hipóteses de forma avulsa.

Repito que provavelmente concordo com muitas das medidas que Correia de Campos toma (fecho das maternidades, por exemplo). Mas não concordo com a forma desarticulada como as aborda e tenta implementar.

Posto isto e sublinhando que Correia de Campos é o principal responsável por aquilo que diz e faz, não posso deixar de referir a atitude da oposição.

Em vez de pedirem, de forma histérica e inconsequente, a presença na Assembleia da República, da Ministra da Educação por causa de um alegado fundamentalismo de um funcionário político ou do Ministro Mário Lino por ter concluído uma evidência, deviam exigir que Correia de Campos definisse e apresentasse de uma vez por todas, as suas opções para a Saúde. Só que isso, para ser sério e rigoroso, dá muito trabalho, porque é necessário ter soluções alternativas que sejam fundamentadas e credíveis. Implica estudo, ponderação, trabalho.

Enquanto a oposição se resumir ao vácuo do “A meio caminho de lado nenhum”…

Estamos quilhados.

Duplamente quilhados.

5/16/2007

PEQUENAS DIFERENÇAS

Só hoje de manhã li os artigos de Baptista Bastos e de Adriano Moreira no Dn on line. Fiquei sobretudo com a ideia que duas pessoas aparentemente com características comuns podem ser absolutamente diferentes. Adriano Moreira é idoso. Sábio, prudente e prospectivo. Baptista Bastos é velho. Rezingão, desiludido e retrospectivo.
Aliás, deve ser velho há mais de 30 anos.

5/11/2007

FREIRA TOMASINA

Somos de facto, um país peculiar, que consegue subverter todas as regras, mesmo aquelas que à partida são difíceis de subverter. Em Portugal o todo é inferior à soma das partes.

Existe uma presunção de competência que ultrapassa todos os ditames da boa fé. O nosso borda d’água dos tempos modernos, Prof. Marcelo, sempre que alguém é nomeado para um cargo superior na administração pública diz quase sempre o mesmo “Conheço. É uma pessoa muito competente.”

Confesso que ainda não percebi porque é que um país com tanta gente competente é um exemplo de incompetência. Nas obras públicas, nas opções pouco ou nada fundamentadas.

Reconheço que a explicação não é assim tão simples, mas isso não invalida a incongruência da ideia: um país incompetente recheado de pessoas competentes.

Tudo isto vem a propósito da Dr. Manuela Ferreira Leite. Nunca percebi a aura de extrema competência que a rodeia. Que obras, que acções, que resultados é que Manuela Ferreira Leite obteve, para usufruir de tal estatuto?

Parece-me que se confunde o seu tom áspero com a sua capacidade para agir de forma competente.

Ontem, a Dr.ª Manuela Ferreira Leite referiu, provavelmente com razão, que: “Eu estou absolutamente convicta de que não vai haver dinheiro para pagar uma coisa destas. Por exemplo, o TGV vai ser um monumental SCUT e já se percebeu que não há dinheiro para pagar isto», mas estragou a pintura toda quando considerou como “inadmissível o investimento feito pelo estado no Metro Sul do Tejo, que, numa primeira fase, tem tido uma fraca procura.”, acrescentando “Não é possível que o Estado tenha feito um investimento desta natureza para um transporte que não tem absolutamente ninguém”.

Eu subscrevo a preocupação da Dr.ª Manuela. Acho mesmo que devemos responsabilizar os governantes que decidiram aqueles investimentos. Por exemplo, quem é que assinou o contrato de concessão do Metro do Sul do Tejo?

Pina Moura?

Não.

Manuela Ferreira Leite. A própria.

Tal qual Frei Tomás…

5/09/2007

GENTE CIVILIZADA



Ontem não pude deixar de ter como som de fundo, enquanto estudava, o programa de António Barreto.

Subscrevo, apesar de tudo a conclusão (segundo a minha interpretação) do mesmo.

Nós temos acesso à melhor e mais recente tecnologia, gastamos proporcionalmente o mesmo ou mais dinheiro que os países que nos servem de padrão nas actividades de interesse público, mas falta-nos o essencial: gente civilizada.

Por gente civilizada, entenda-se, não quero significar obviamente gente que saiba comer correctamente à mesa, de faca e garfo, ou que se vista de acordo com os cânones de Milão ou Nova Iorque.

Quero dizer civilizada mesmo.

Em Portugal, as corporações profissionais e afins estão ainda no fim da Idade Média, organizadas e vocacionadas apenas e só para defenderem os seus interesses imediatistas, mesquinhos e desligados da realidade. Médicos e enfermeiros, advogados e juízes, professores, polícias, funcionários públicos em geral, empresários, farmacêuticos, a lista é extensa.

Com o argumento de que o seu padrão de vida é o desejável e que são os outros que têm que o alcançar e não eles que tem de recuar, lutam desesperadamente pela pequena benesse, pelo privilégio escondido com o rabo de fora e quando este argumento falha ou é insustentável, alegam sempre que há alguém mais privilegiado (os enfermeiros em relação aos médicos, por exemplo).

Isto não significa que todos os médicos, todos os enfermeiros, todos os juízes tenham esta conduta. Muitos deles são verdadeiros exemplos de cidadania. Só que não são a regra, mas a excepção.

Como dizia o António Barreto (descontando algum populismo), os médicos julgam-se donos dos hospitais, os professores da escola, etc.), numa atitude verdadeiramente corporativa e medieval.

Por isso, reitero o que disse.

Temos tudo para ser civilizados (a localização, a proximidade geográfica, a paz social, o exemplo mesmo aqui ao lado).

Só nos falta o essencial: pessoas disponíveis para se tornarem civilizadas.


5/08/2007

Uma rapidinha, só para manter o ritmo.

Segunda-feira, 19.50. Faço um intervalo no estudo e ligo a televisão.

Aparece um responsável da Polícia Judiciária, numa intervenção por causa do desaparecimento de uma menina no Algarve.

Entre as perguntas ouve-se uma voz, da jornalista Maria João Ruela, da SIC, questionando se o Acordo de Schengen não facilitara o crime.

Vamos aos factos. À hora daquela intervenção, o único facto era o desaparecimento da menina. Mais nada. Como é habitual, surgiram todas as teorias possíveis e mais algumas. Uma das quais referia que tinha sido um rapto e que o raptor era inglês. Logo, no brilhante raciocínio da ilustre jornalista, não tinha existido controle sobre a entrada do raptor.

Acontece que o Reino Unido nem sequer faz parte do Acordo Schengen. Um pequeno pormenor, claro. Ou seja, pelo menos em teoria o hipotético raptor ficou registado quando entrou no espaço Schengen.

O que a jornalista queria insinuar é que Schengen aumenta o perigo de entrarem em Portugal delinquentes, para gáudio do securitarismo vigente. O que a Maria João não se lembrou, ou pura e simplesmente não sabe é, que muito antes de Schengen já os criminosos entravam, sem qualquer registo em Portugal. E que Schengen permite que eu sente o rabinho no fiat punto da minha santa mãe e vá até ao Tribunal Europeu de Justiça, no Luxemburgo, sem que tenha um polícia espanhol ou francês a olhar para mim com ar grave, a tentar perceber se sou portuga ou marroquino, se pertenço à Alqaeda ou só à grande alface.

Já nem vou falar na questão de se presumir que foi um rapto, feito por um inglês, nem nos mais de 20 minutos que a SIC dedicou hoje ao assunto.

Até pode vir a ser provado que foi um rapto, que quem o praticou é inglês, etc.

Mas daí a considerar que isso se deve a Schengen é inexacto, improvável e retorcido.

Maria João pode ser ruela, mas tem uma cabecinha de auto-estrada, onde o bom senso passa a grande velocidade e não deixa marcas.

5/07/2007

SUGESTÕES PARA AS ACTIVIDADES EXTRA-CURRICULARES

Receita Culinária

Compra-se um terreno rústico, por meia dúzia de vinténs.

Põe-se a marinar e com a ajuda de alguns compinchas, amanha-se a vitualha, retirando-se as RAN, REN ou outra protecção qualquer que ainda tenha.

Está agora pronto para a próxima operação, de importância crucial para o sucesso do prato. Divide-se a peça em 10, 20 ou mais bocados (depende do tamanho) naquilo a que pomposamente se chama loteamento.

Bate-se então uma mistura de água e cimento, até ficar em castelo. Acrescentam-se algumas ervas ou mesmo arbustos para dar um sabor moderno e um aspecto apelativo.

Divida cada lote em várias fatias ou fracções e serve-se assim mesmo, sem necessidade de ir ao forno.

O CACIQUE

Ao longo dos anos tenho apreciado o chorrilho de disparates que os comentadores encartados têm proferido a propósito das mais diversas eleições.

O último grande disparate deu-se nas eleições autárquicas. Pressionados pelo tempo e espaço, que são curtos nos media, a esmagadora maioria dos comentadores considerou que os resultados das autárquicas de 2005 eram um castigo para o PS. Como tive ocasião de explicar (perdoem-me a falta de humildade), não se pode extrapolar para o âmbito nacional resultados locais, que são determinados pela prestação dos eleitos e dos candidatos, sendo apenas marginalmente influenciados pelo ambiente nacional.

O disparate destas eleições é aquele que rotula a vitória de Alberto João Jardim como a vitória do populismo.

O homem terá muitos defeitos, mas não é pelo discurso populista que ganha eleições. Se assim fosse, se os madeirenses considerassem que estavam a ser ilegitimamente lesados, ofendidos, tinha-se levantado uma verdadeira onda de protesto, essa sim de consequências bem mais graves, porque com um fundamento que os próprios entenderiam como verdadeiramente justo.

Assim decorre do nível de abstenção, que pasme-se, é afinal mais elevado que no continente. Quase quatro em casa dez madeirenses não votaram. Afinal onde é que está a onda de indignação?

Aquilo que os madeirenses sabem é que Alberto João é o melhor a sacar dinheiro a Lisboa, que lhes dá directa ou indirectamente empregos e que mantém a ilha num status quo sui generis, adequado ao clima ameno. No seu íntimo, sabem que a Madeira tem um melhor nível de vida que muitas áreas do continente, mas como é óbvio, não querem prescindir do seu bem-estar.

O discurso populista de Alberto João é apenas um fait-divers, um número de circo boçal apreciado como mais uma diversão, porque o portuga (das ilhas ou do continente) sempre teve uma atracção quase infantil pelo bizarro e pelo primário.

Alberto João é uma curiosa mistura de Padrinho mãos largas e de Badaró.

Simplesmente não chega a ser populista, nem tem espaço para o acicatar, para desenvolver um verdadeiro sentimento de injustiça nos madeirenses face a Lisboa.

É apenas um cacique, alguém que distribui benesses e lugares, ao mesmo tempo que apresenta espectáculos de vaudeville para gáudio dos madeirenses. Perdão, para pouco mais de metade dos madeirenses. Sendo rigoroso: apenas um terço dos madeirenses lhe bate palmas.

E essa abstenção sempre crescente é a grande inimiga de Alberto João, mais do que qualquer partido da oposição.

Como o outro senhor que por cá esteve décadas e que nem sequer tinha espessura para ser fascista, sendo apenas um ditador medíocre (e ficam por aqui as comparações), Alberto João não tem espessura para ser um populista.

É apenas um cacique. Anafado, truculento, boçal, mas sempre e só cacique.

5/04/2007

OS PECULIARES EFEITOS DA PONCHA




A poncha é uma bebida muito especial, como aliás quase tudo na Madeira. É que em vez de turvar a visão ou provocar que os objectos sejam vistos a dobrar, causa uma curiosa distorção visual. Claro que para que o efeito resulte em pleno deve acrescentar-se à receita tradicional uma elevada quantia de euros.

Cubanos, como é óbvio.