Mário Nogueira venceu as eleições para a FENPROF. A escolha de Mário Nogueira revela só por si uma verdade óbvia mas que nós não queremos assumir.
O Professor, enquanto símbolo, enquanto referência social, desapareceu há muito. Em todos nós subsiste, apesar de tudo, a ideia de que o professor é uma criatura dotada de especial bom senso, dotada daquela serenidade que advém de uma permanente e elevada reflexão. Afinal não é. Brota do mesmo rio de todos nós e entretem-se a devorar a piranha do lado até que algum bovino entre no seu território. Logo as piranhas abandonam a mutilação recíproca para morderem o calcanhar do bicho incauto.
Assim, para liderar uma classe que perdeu por completo a auto-estima, que junta armadas de trafalgar por ninharias e dispersa perante aquilo que conta, Mário Nogueira é um operacional do melhor calibre.
Decorre tudo da liberdade de escolha, que é uma coisa tão maravilhosa que permite mesmo escolher quem, objectivamente, não a defende nem acredita num sistema baseado na livre decisão pessoal.
Parabéns.
4/27/2007
4/26/2007
3/13/2007
SIMPLEX? E QUE TAL TNT?
Acabei de passar quase uma hora ao telefone com a Direcção Geral de Viação. Para tratar de um problema simples: a apreensão de uma máquina industrial. De secção em secção. Conduzido, com a habitual simpatia de carcereiro, por uma telefonista que me passou a identificar como “o senhor da máquina”.
Nas contra-ordenações “que não era com eles, era com a secção de veículos”. Falam connosco como se fosse natural o conhecimento da orgânica da DGV, que por acaso até muda ao sabor do capricho dos sucessivos quadros dirigentes. A Secção de Veículos, perante a minha exposição, sussurrou, quase aterrada “Houston, we’ve got a problem”. Expliquei que não se tratava de uma nave espacial, vinda sei lá de onde, cheia de homenzinhos verdes, impecavelmente depilados, mas de uma máquina industrial. Responderam que não era com eles, era com a Direcção Distrital, em Entrecampos. Que por sua vez não sabia exactamente quem era competente para me ajudar. O mesmo serviço que minutos atrás se mostrou surpreendido por eu não conhecer com exactidão a orgânica da casa, como se a orgânica da DGV estivesse no top tem, a seguir ao Paulo Coelho e aquela moça, margarida pinto, ou pato, ou qualquer coisa levemente zoológica. De novo nos serviços centrais, onde finalmente encontrei uma pessoa de bom senso, essa qualidade raríssima na administração pública portuguesa, que perante o facto de não conseguir resolver o problema, fez aquilo que parecia lógico e sensato. Ficou com o meu contacto, averiguou a situação e minutos depois telefonou-me, indicando-me com precisão o procedimento necessário. Desejo-lhe uma vida feliz. Sinceramente. Que tenha um marido ou uma mulher que a faça feliz. Ou um cão. Ou se não tiver ninguém, pelo menos um pacote de bolachas e um sofá confortável.
Prometo que quando for colocar a carga de TNT a aviso, com a antecedência necessária para limpar pausadamente a sua secretária.
Nas contra-ordenações “que não era com eles, era com a secção de veículos”. Falam connosco como se fosse natural o conhecimento da orgânica da DGV, que por acaso até muda ao sabor do capricho dos sucessivos quadros dirigentes. A Secção de Veículos, perante a minha exposição, sussurrou, quase aterrada “Houston, we’ve got a problem”. Expliquei que não se tratava de uma nave espacial, vinda sei lá de onde, cheia de homenzinhos verdes, impecavelmente depilados, mas de uma máquina industrial. Responderam que não era com eles, era com a Direcção Distrital, em Entrecampos. Que por sua vez não sabia exactamente quem era competente para me ajudar. O mesmo serviço que minutos atrás se mostrou surpreendido por eu não conhecer com exactidão a orgânica da casa, como se a orgânica da DGV estivesse no top tem, a seguir ao Paulo Coelho e aquela moça, margarida pinto, ou pato, ou qualquer coisa levemente zoológica. De novo nos serviços centrais, onde finalmente encontrei uma pessoa de bom senso, essa qualidade raríssima na administração pública portuguesa, que perante o facto de não conseguir resolver o problema, fez aquilo que parecia lógico e sensato. Ficou com o meu contacto, averiguou a situação e minutos depois telefonou-me, indicando-me com precisão o procedimento necessário. Desejo-lhe uma vida feliz. Sinceramente. Que tenha um marido ou uma mulher que a faça feliz. Ou um cão. Ou se não tiver ninguém, pelo menos um pacote de bolachas e um sofá confortável.
Prometo que quando for colocar a carga de TNT a aviso, com a antecedência necessária para limpar pausadamente a sua secretária.
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DGV Administração Pública
2/07/2007
ABORTO
Devo começar por dizer que não tenho qualquer apreço pelo instituto do referendo. Preferiria uma sociedade onde as pessoas debatessem os seus problemas de forma sistemática e assim tomassem as suas opções.
Se não vejo o referendo como um instrumento razoável para qualquer decisão, muito menos o vejo como tal para resolver uma questão que é sobretudo subjectiva, de consciência íntima de cada um. O resultado prático da nossa consciência, isto é, a maneira como vemos e interagimos com o mundo não pode ser influenciada pela aritmética nem por ditaduras da maioria, até porque o conhecimento humano é, por natureza, falível, parcial, fragmentado.
O que quero dizer é que não se pode, em democracia, referendar a consciência e a ética de cada um, pelo que o referendo de dia 11 de Fevereiro não pode ter por objecto aferir o que é que cada um de nós pensa sobre o aborto.
Para a análise racional de qualquer problema, entendo que se deve sempre partir da realidade, do exame cru e objectivo dos dados, tanto quando é humanamente possível fazê-lo. Só depois de estabelecida a realidade factual é possível construir a nossa “concepção ideal do mundo” e projectar um caminho que da realidade chegue ao ideal.
Este “método de bolso” aplica-se também à questão do aborto. Os humanos criam regras que têm como pressuposto desenvolver condições para se percorrer este caminho de aproximação entre a realidade e aquilo que nos desejamos que ela se torne, pelo que uma lei só é operativa (se é justa ou não é outra questão) se tiver por base a realidade factual.
Por outro lado, temos uma matriz de pensamento atávica, continuamos a pensar como se Portugal estivesse “orgulhosamente só” para citar o provinciano que nos apascentou durante quase meio século.
Como apesar de não sermos integralmente europeus, estamos inseridos na Europa, é possível a um cidadão ir de Lisboa a Varsóvia sem anuência ou prévio conhecimento de quaisquer autoridades.
Portanto, uma lei que vise tutelar o feto de forma diferente da que lhe é dada por outros ordenamentos jurídicos nos quais podemos agir, não só não é eficaz como gera grandes injustiças. Porque qualquer um pode ir a Espanha praticar o acto que não pode praticar em Portugal. Ou seja, o dano (o aborto) não é menos grave por ser praticado em Espanha, porque aquilo que se visava tutelar (o feto) não fica mais protegido. Para quem defende que os outros não têm direito a abortar é tão grave que isso ocorra aqui ou em Espanha, porque de qualquer das formas o feto deixa de existir. A diferença é que em Portugal se pune.
É precisamente este o problema.
A Tânia, que tem 18 anos e frequenta o 10º ano, ficou grávida do Marco, numa tarde em casa de uma colega, entre o barulho das luzes. A Tânia sabe que se disser ao pai, corre o risco de ganhar uma maquilhagem gótica instantânea até porque o Benfica já não mantém a constância de resultados de outrora, que garantia a harmonia de milhões de famílias portuguesas e o pai pode estar particularmente mal disposto. Só para começar. Seguir-se-ia um monólogo de kickboxing, as coisinhas à porta e um “não voltes que para putas cá em casa já me bastou a cabra da tua irmã.”. O Marco, depois do choque inicial, conseguiu falar com a sua mãe, que encaminhou a Tânia para uma “clínica” na Amadora, onde, apesar dos esgares de mecânico auto da abortadeira, a coisa foi feita. Claro que dificilmente a Tânia terá algum dia um filho, porque a fisiologia humana é bem mais complexa que um motor da fiat.
A Marta, executiva na casa dos 30, viu-se grávida quando menos esperava. Provavelmente confundiu as pílulas de emagrecimento com a pílula contraceptiva, o que é natural, porque acorda tão cedo que para não incomodar ninguém, faz tudo às escuras. O que é uma chatice, logo agora que as 14 horas de trabalho diário estão prestes a dar frutos, no caso uma bela cadeira em forma de meia melancia a que os directores da empresa têm direito. Uma gravidez neste momento seria a destruição do trabalho dos últimos 5 anos. Por isso, falou com o marido e num fim-de-semana foram a Badajoz, trataram do assunto e voltaram a tempo de ver a crónica semanal do Prof. Marcelo.
A Tânia corre o risco de ir parar a um hospital, porque o mecânico, mais habituado a camiões TIR que a mecanismos delicados, deixou-lhe as entranhas exangues. Corre ainda o risco de algum grilo falante de bata branca a denunciar.
A Marta não corre riscos. Na segunda-feira está na sua secretária, com a proficiência de sempre e a atitude de cão-de-fila que a administração da empresa tanto aprecia.
Com a lei e a prática que temos, sedimentamos o traço que nos distingue dos países verdadeiramente civilizados. Ao proibir-se em Portugal uma prática que é permitida aqui ao lado, eterniza-se a diferença entre ricos e pobres, ou para ser mais exacto, entre os informados e os que não estão informados. Até porque não é exactamente uma questão financeira. Provavelmente um aborto é mais caro na Amadora do que em Badajoz. É uma questão de acesso a informação, de possibilidade factual de recorrer a esses meios. Quem está desesperado, numa situação frágil e de emergência, recorre a tudo o que puder. O carácter secreto, clandestino, obscuro do aborto torna os frágeis em mais frágeis ainda.
Por tudo isto, a atitude mais inteligente é a que permita trazer o aborto à superfície, que o retire da obscuridade. Não há divisão entre os adeptos do sim e os adeptos do não, porque estes não conseguem garantir com a mínima seriedade que as mulheres portuguesas vão deixar de abortar. Se querem, como eu e a esmagadora maioria da população, que o aborto deixe de ser uma prática comum, se reduza e eventualmente se extinga, devem começar por aceitar que existe e que a melhor maneira de o evitar é promover a informação, serem melhores cidadãos, mais solidários, voluntariamente prestarem serviços de aconselhamento às grávidas e não fazer um julgamento ético sem qualquer contraditório.
Não está em causa no referendo, repito, uma contabilização de quantas pessoas votam sim ou votam não, porque a ética não se vota.
As opções são simples. De um lado estão aqueles que querem resolver o problema começando por reconhecer a sua existência. Do outro estão aqueles que sabendo que ele existe, não o reconhecem, na estúpida esperança que desapareça.
Este referendo é um confronto entre a inteligência, a capacidade de compreender o Mundo e o obscurantismo. Puro e duro.
No dia 11, espero que não optem pela indiferença que nos doma e que não tenham medo de ser inteligentes.
Se não vejo o referendo como um instrumento razoável para qualquer decisão, muito menos o vejo como tal para resolver uma questão que é sobretudo subjectiva, de consciência íntima de cada um. O resultado prático da nossa consciência, isto é, a maneira como vemos e interagimos com o mundo não pode ser influenciada pela aritmética nem por ditaduras da maioria, até porque o conhecimento humano é, por natureza, falível, parcial, fragmentado.
O que quero dizer é que não se pode, em democracia, referendar a consciência e a ética de cada um, pelo que o referendo de dia 11 de Fevereiro não pode ter por objecto aferir o que é que cada um de nós pensa sobre o aborto.
Para a análise racional de qualquer problema, entendo que se deve sempre partir da realidade, do exame cru e objectivo dos dados, tanto quando é humanamente possível fazê-lo. Só depois de estabelecida a realidade factual é possível construir a nossa “concepção ideal do mundo” e projectar um caminho que da realidade chegue ao ideal.
Este “método de bolso” aplica-se também à questão do aborto. Os humanos criam regras que têm como pressuposto desenvolver condições para se percorrer este caminho de aproximação entre a realidade e aquilo que nos desejamos que ela se torne, pelo que uma lei só é operativa (se é justa ou não é outra questão) se tiver por base a realidade factual.
Por outro lado, temos uma matriz de pensamento atávica, continuamos a pensar como se Portugal estivesse “orgulhosamente só” para citar o provinciano que nos apascentou durante quase meio século.
Como apesar de não sermos integralmente europeus, estamos inseridos na Europa, é possível a um cidadão ir de Lisboa a Varsóvia sem anuência ou prévio conhecimento de quaisquer autoridades.
Portanto, uma lei que vise tutelar o feto de forma diferente da que lhe é dada por outros ordenamentos jurídicos nos quais podemos agir, não só não é eficaz como gera grandes injustiças. Porque qualquer um pode ir a Espanha praticar o acto que não pode praticar em Portugal. Ou seja, o dano (o aborto) não é menos grave por ser praticado em Espanha, porque aquilo que se visava tutelar (o feto) não fica mais protegido. Para quem defende que os outros não têm direito a abortar é tão grave que isso ocorra aqui ou em Espanha, porque de qualquer das formas o feto deixa de existir. A diferença é que em Portugal se pune.
É precisamente este o problema.
A Tânia, que tem 18 anos e frequenta o 10º ano, ficou grávida do Marco, numa tarde em casa de uma colega, entre o barulho das luzes. A Tânia sabe que se disser ao pai, corre o risco de ganhar uma maquilhagem gótica instantânea até porque o Benfica já não mantém a constância de resultados de outrora, que garantia a harmonia de milhões de famílias portuguesas e o pai pode estar particularmente mal disposto. Só para começar. Seguir-se-ia um monólogo de kickboxing, as coisinhas à porta e um “não voltes que para putas cá em casa já me bastou a cabra da tua irmã.”. O Marco, depois do choque inicial, conseguiu falar com a sua mãe, que encaminhou a Tânia para uma “clínica” na Amadora, onde, apesar dos esgares de mecânico auto da abortadeira, a coisa foi feita. Claro que dificilmente a Tânia terá algum dia um filho, porque a fisiologia humana é bem mais complexa que um motor da fiat.
A Marta, executiva na casa dos 30, viu-se grávida quando menos esperava. Provavelmente confundiu as pílulas de emagrecimento com a pílula contraceptiva, o que é natural, porque acorda tão cedo que para não incomodar ninguém, faz tudo às escuras. O que é uma chatice, logo agora que as 14 horas de trabalho diário estão prestes a dar frutos, no caso uma bela cadeira em forma de meia melancia a que os directores da empresa têm direito. Uma gravidez neste momento seria a destruição do trabalho dos últimos 5 anos. Por isso, falou com o marido e num fim-de-semana foram a Badajoz, trataram do assunto e voltaram a tempo de ver a crónica semanal do Prof. Marcelo.
A Tânia corre o risco de ir parar a um hospital, porque o mecânico, mais habituado a camiões TIR que a mecanismos delicados, deixou-lhe as entranhas exangues. Corre ainda o risco de algum grilo falante de bata branca a denunciar.
A Marta não corre riscos. Na segunda-feira está na sua secretária, com a proficiência de sempre e a atitude de cão-de-fila que a administração da empresa tanto aprecia.
Com a lei e a prática que temos, sedimentamos o traço que nos distingue dos países verdadeiramente civilizados. Ao proibir-se em Portugal uma prática que é permitida aqui ao lado, eterniza-se a diferença entre ricos e pobres, ou para ser mais exacto, entre os informados e os que não estão informados. Até porque não é exactamente uma questão financeira. Provavelmente um aborto é mais caro na Amadora do que em Badajoz. É uma questão de acesso a informação, de possibilidade factual de recorrer a esses meios. Quem está desesperado, numa situação frágil e de emergência, recorre a tudo o que puder. O carácter secreto, clandestino, obscuro do aborto torna os frágeis em mais frágeis ainda.
Por tudo isto, a atitude mais inteligente é a que permita trazer o aborto à superfície, que o retire da obscuridade. Não há divisão entre os adeptos do sim e os adeptos do não, porque estes não conseguem garantir com a mínima seriedade que as mulheres portuguesas vão deixar de abortar. Se querem, como eu e a esmagadora maioria da população, que o aborto deixe de ser uma prática comum, se reduza e eventualmente se extinga, devem começar por aceitar que existe e que a melhor maneira de o evitar é promover a informação, serem melhores cidadãos, mais solidários, voluntariamente prestarem serviços de aconselhamento às grávidas e não fazer um julgamento ético sem qualquer contraditório.
Não está em causa no referendo, repito, uma contabilização de quantas pessoas votam sim ou votam não, porque a ética não se vota.
As opções são simples. De um lado estão aqueles que querem resolver o problema começando por reconhecer a sua existência. Do outro estão aqueles que sabendo que ele existe, não o reconhecem, na estúpida esperança que desapareça.
Este referendo é um confronto entre a inteligência, a capacidade de compreender o Mundo e o obscurantismo. Puro e duro.
No dia 11, espero que não optem pela indiferença que nos doma e que não tenham medo de ser inteligentes.
9/28/2006
A CHARANGA
Começo esta “crónica” com um compromisso. O de tão depressa não voltar a falar da gestão pública local, como o fiz em duas anteriores crónicas, embora considere que o assunto tem todo o cabimento num jornal de âmbito regional, como o “Triângulo”.
Defendi nestas mesmas páginas que os recursos públicos administrativos deviam ser partilhados entre as diversas instituições e que a educação devia ser um projecto debatido e assegurado pela comunidade. Julgo que falta um outro vértice para que finalmente deixe de maçar os leitores (os poucos que ainda têm paciência para a minha petulância) com estas questões.
Todo o político local que se preze entende, ou simplesmente é forçado pelas circunstâncias a entender, que deve reivindicar o maior número possível de serviços públicos (repartição de finanças, conservatórias, notários, etc.) no seu círculo eleitoral, na sua cidade, vila ou aldeia.
Sendo o objectivo legítimo, o seu conteúdo é de todo anacrónico. Isto é, o que normalmente se pede é uma repartição de finanças, uma conservatória do registo civil ou predial, uma delegação da segurança social. Isto implica a criação física e administrativa de cada um destes serviços, com os inenarráveis concursos públicos para aquisição de bens e serviços, a transferência de arquivos destes serviços para os novos que se instalam, de recursos humanos, etc., etc.
Isto é, repito, anacrónico. O discurso político vive ainda no paradigma da administração pública tipo mangas-de-alpaca. No mundo real e quotidiano, há muito que tal modelo deixou de fazer sentido. Por duas razões.
A primeira é que hoje em dia a maior parte dos actos entre as pessoas e o Estado pode ser feita utilizando recursos tecnológicos que dispensam o contacto físico.
A segunda é que eu exijo que o dinheiro dos meus impostos tenha uma aplicação racional, para que seja viável pagar cada vez menos.
Com um computador e uma ligação à Internet é possível entregar o IRS ou pedir certidões do registo predial. Quem é que no seu perfeito juízo prefere estar numa fila, a ouvir o matraquear dos sacrossantos carimbos?
Conceitos como o do Balcão Único, em que as pessoas tratam de todos os assuntos num único sítio são o caminho. O PAC (Posto de Atendimento ao Cidadão) é, embora de forma tosca, a primeira experiência nesse sentido.
Por isso entendo que o discurso político a nível local deve mudar. O que se deve estudar, planear e concertar com a Administração Central é a melhor forma de implementar esses balcões únicos locais e não reivindicar, demagogicamente, a instalação de uma repartição ou de uma conservatória. Reivindicar significa, no discurso político instalado, fazer pedidos a terceiros para desviar a atenção da nossa própria incapacidade.
Infelizmente o carrossel da politiquice tem por hábito apear ou pura e simplesmente ignorar quem quer mudar o rumo da charanga.
Até ao dia em que o responsável pelo carrossel puxe a ficha e se acabe a festa.
Defendi nestas mesmas páginas que os recursos públicos administrativos deviam ser partilhados entre as diversas instituições e que a educação devia ser um projecto debatido e assegurado pela comunidade. Julgo que falta um outro vértice para que finalmente deixe de maçar os leitores (os poucos que ainda têm paciência para a minha petulância) com estas questões.
Todo o político local que se preze entende, ou simplesmente é forçado pelas circunstâncias a entender, que deve reivindicar o maior número possível de serviços públicos (repartição de finanças, conservatórias, notários, etc.) no seu círculo eleitoral, na sua cidade, vila ou aldeia.
Sendo o objectivo legítimo, o seu conteúdo é de todo anacrónico. Isto é, o que normalmente se pede é uma repartição de finanças, uma conservatória do registo civil ou predial, uma delegação da segurança social. Isto implica a criação física e administrativa de cada um destes serviços, com os inenarráveis concursos públicos para aquisição de bens e serviços, a transferência de arquivos destes serviços para os novos que se instalam, de recursos humanos, etc., etc.
Isto é, repito, anacrónico. O discurso político vive ainda no paradigma da administração pública tipo mangas-de-alpaca. No mundo real e quotidiano, há muito que tal modelo deixou de fazer sentido. Por duas razões.
A primeira é que hoje em dia a maior parte dos actos entre as pessoas e o Estado pode ser feita utilizando recursos tecnológicos que dispensam o contacto físico.
A segunda é que eu exijo que o dinheiro dos meus impostos tenha uma aplicação racional, para que seja viável pagar cada vez menos.
Com um computador e uma ligação à Internet é possível entregar o IRS ou pedir certidões do registo predial. Quem é que no seu perfeito juízo prefere estar numa fila, a ouvir o matraquear dos sacrossantos carimbos?
Conceitos como o do Balcão Único, em que as pessoas tratam de todos os assuntos num único sítio são o caminho. O PAC (Posto de Atendimento ao Cidadão) é, embora de forma tosca, a primeira experiência nesse sentido.
Por isso entendo que o discurso político a nível local deve mudar. O que se deve estudar, planear e concertar com a Administração Central é a melhor forma de implementar esses balcões únicos locais e não reivindicar, demagogicamente, a instalação de uma repartição ou de uma conservatória. Reivindicar significa, no discurso político instalado, fazer pedidos a terceiros para desviar a atenção da nossa própria incapacidade.
Infelizmente o carrossel da politiquice tem por hábito apear ou pura e simplesmente ignorar quem quer mudar o rumo da charanga.
Até ao dia em que o responsável pelo carrossel puxe a ficha e se acabe a festa.
9/14/2006
OS RICOS QUE PAGUEM A CRISE
Quando falamos do nosso estado de desenvolvimento, costumamos colocar-nos entre os mais pobres dos mais ricos. Em tempos de crise aproximamo-nos dos mais ricos dos mais pobres e não “descemos” ao seu grupo por circunstancialismos geográficos.
Lembrei-me há dias da célebre ideia pós-25 de Abril que proclamava “os ricos que paguem a crise”, porque na nossa sociedade continuam a existir pessoas e grupos que entendem que essa frase ainda faz sentido.
Acontece que não conheço nenhuma sociedade humana na qual os ricos tivessem algum dia pago a crise. E isto acontece independentemente de eu considerar que os ricos podiam pagar a crise.
Convém antes de mais delimitar minimamente o que é um “rico”. Para mim, que ganho menos de 1000 euros por mês, rico, do ponto de vista psicológico será o tipo que por mês ganha 100 ou 200.000 euros por mês. Mas sociologicamente não é rico. Faz parte da classe média.
O verdadeiro rico é uma criatura que não aparece nas revistas cor-de-rosa, que vive num mundo à parte, em que os filhos vivem num mundo à parte. Bem pode o arrivista colocar os filhos no mesmo colégio de referência, pô-lo nas mesmas escolas de equitação, que nunca passará de uma imitação, no caso cara, mas imitação.
O problema é que confrontados com a riqueza, o que nós queremos (legitimamente) é ser um pouco mais ricos e temos como referência o vizinho e o seu bmw, o patrão e as suas férias em paraísos tropicais e mantemos com essas referências uma relação ambígua, esquizofrénica, até. Por um lado admiramos a sua esperteza em fugir aos impostos, sonhando ser como ele e por outro temos um desejo íntimo de o poder quilhar.
Enquanto os meninos se esgadanham para apanhar os melhores chupas, os ricos desfrutam calmamente souflés.
O horizonte da classe média começa num bairro de subúrbio, dai para uma urbanização no mesmo subúrbio, depois para um subúrbio um bocado melhor, para uma vivenda (agora diz-se moradia) e a cereja cristalizada em cima do bolo, uma casa de férias no Algarve.
Eis o retrato de sucesso que a maioria almeja alcançar.
Sem pessimismos existencialistas ou optimismos retirados de livros de bolso de psicologia, o mais provável é que cada vez mais existam pessoas que vão parar na urbanização do mesmo subúrbio, cada vez mais pessoas a ficarem no bairro dos pais ou na habitação social. Os ricos vão continuar ricos e etéreos. A solidariedade é uma palavra estranha no seu vocabulário. A única solidariedade exequível passa-se ao nível da classe média, o que é complicado num país estruturalmente pobre e onde cada um tenta subir um pouco mais, dando pontapés e cuspidelas no que está um pouco abaixo de si, enquanto que, com o mesmo olhar de espanto e admiração que eu punha quando via as montras das marisqueiras na Baixa há 30 anos atrás, olha o trepador alguns metros acima, procurando perceber a marca dos sapatos para ir a correr comprar um par. Perdão. Dois ou três.
Lembrei-me há dias da célebre ideia pós-25 de Abril que proclamava “os ricos que paguem a crise”, porque na nossa sociedade continuam a existir pessoas e grupos que entendem que essa frase ainda faz sentido.
Acontece que não conheço nenhuma sociedade humana na qual os ricos tivessem algum dia pago a crise. E isto acontece independentemente de eu considerar que os ricos podiam pagar a crise.
Convém antes de mais delimitar minimamente o que é um “rico”. Para mim, que ganho menos de 1000 euros por mês, rico, do ponto de vista psicológico será o tipo que por mês ganha 100 ou 200.000 euros por mês. Mas sociologicamente não é rico. Faz parte da classe média.
O verdadeiro rico é uma criatura que não aparece nas revistas cor-de-rosa, que vive num mundo à parte, em que os filhos vivem num mundo à parte. Bem pode o arrivista colocar os filhos no mesmo colégio de referência, pô-lo nas mesmas escolas de equitação, que nunca passará de uma imitação, no caso cara, mas imitação.
O problema é que confrontados com a riqueza, o que nós queremos (legitimamente) é ser um pouco mais ricos e temos como referência o vizinho e o seu bmw, o patrão e as suas férias em paraísos tropicais e mantemos com essas referências uma relação ambígua, esquizofrénica, até. Por um lado admiramos a sua esperteza em fugir aos impostos, sonhando ser como ele e por outro temos um desejo íntimo de o poder quilhar.
Enquanto os meninos se esgadanham para apanhar os melhores chupas, os ricos desfrutam calmamente souflés.
O horizonte da classe média começa num bairro de subúrbio, dai para uma urbanização no mesmo subúrbio, depois para um subúrbio um bocado melhor, para uma vivenda (agora diz-se moradia) e a cereja cristalizada em cima do bolo, uma casa de férias no Algarve.
Eis o retrato de sucesso que a maioria almeja alcançar.
Sem pessimismos existencialistas ou optimismos retirados de livros de bolso de psicologia, o mais provável é que cada vez mais existam pessoas que vão parar na urbanização do mesmo subúrbio, cada vez mais pessoas a ficarem no bairro dos pais ou na habitação social. Os ricos vão continuar ricos e etéreos. A solidariedade é uma palavra estranha no seu vocabulário. A única solidariedade exequível passa-se ao nível da classe média, o que é complicado num país estruturalmente pobre e onde cada um tenta subir um pouco mais, dando pontapés e cuspidelas no que está um pouco abaixo de si, enquanto que, com o mesmo olhar de espanto e admiração que eu punha quando via as montras das marisqueiras na Baixa há 30 anos atrás, olha o trepador alguns metros acima, procurando perceber a marca dos sapatos para ir a correr comprar um par. Perdão. Dois ou três.
8/31/2006
PARA UM VERDADEIRO PROJECTO EDUCATIVO
A Educação e em particular a Ministra respectiva têm estado na ordem do dia. Nada disto é novo, porque a educação anda há 30 anos no debate público.
Não vou, como é óbvio, tomar o partido da Ministra ou dos outros (sejam quem eles forem), até porque não há ministra e outros, a divisão é entre os que querem de facto criar uma educação de 1º mundo e os que, pelas mais diversas razões, não querem.
Como não tenho habilitações técnicas, currículo ou experiência para traçar um quadro geral da educação em Portugal e muito menos para apresentar soluções, limito-me a fazer uma reflexão relativa ao espaço onde vivo.
A Póvoa de Santa Iria, a tal cidade que muitos proclamam, tem características que a qualificam como subúrbio o que significa desenraizamento, desagregação e diferimento.
Com desenraizamento quero dizer que as pessoas não se sentem identificadas com o espaço onde vivem, não têm memórias do mesmo porque na sua maioria não cresceram aqui. Identificam-se com a sua fracção, com o seu apartamento. Desagregação significa que ao contrário de outros tempos, as actividades correntes das pessoas são feitas em diversos sítios (dormem na Póvoa, trabalham em Lisboa, divertem-se no Algarve). Diferimento significa que existe um lapso de tempo entre a instalação das pessoas e a criação de serviços de interesse público que, objectivamente diminui a qualidade de vida. Primeiro fazem-se os prédios, metem-se as pessoas, depois instalam-se as infra-estruturas dos serviços básicos e uns anos depois aparecem finalmente os serviços mais básicos (educação, Multibanco, comércio).
Não considero que a educação seja uma panaceia que tudo resolva, mas acho que pode fazer a diferença.
Desde logo respondendo às verdadeiras necessidades das famílias que vivem sob a desagregação que referi anteriormente. Não é uma escola que funciona das 9 às 5 que resolve os problemas. Como também não resolve os problemas cada uma funcionar para si mesma, de costas voltadas para a comunidade em redor.
Um verdadeiro projecto educativo passa por uma estreita colaboração entre as escolas (públicas, privadas e cooperativas), as instituições e associações.
Passa por uma escola que funcione 24 sobre 24. Que aborde matérias com os alunos que digam respeito ao meio onde vivem. Que promova as relações intergeracionais, propiciando o convívio entre os miúdos e os mais velhos. Que ponha os miúdos a fazerem qualquer coisa de útil, para eles e para a comunidade. Isto não é um problema dos professores, é um problema de todos. Deve ser discutido pelas entidades, públicas e privadas que existem na Póvoa. Não pode ser decidido numa reunião de fim de tarde, em que os presentes querem é ir para casa, tratar das suas vidinhas. É necessária uma estratégia que defina o que é que cada uma faz, que reúna meios (financeiros, humanos e logísticos). Um programa que preencha um dia inteiro de cada aluno, de acordo com as suas vocações, sem hiatos. E tudo isto deve ter como objectivo a criação de condições para que os miúdos de hoje sejam amanhã homens e mulheres mais conscientes, mais informados. Só proporcionando estas condições e gerando expectativas nos pais se pode exigir deles uma maior participação e disponibilidade e não ao contrário.
E isto não custa mais dinheiro e basicamente é uma questão de organização e competência.
Qualquer pessoa de bom senso e sem especiais conhecimentos chega a estas conclusões.
Então porque é que não se faz? Pelas mais diversas razões. Porque alguns gostam de exercer pequenos poderes. Porque outros estão tão habituados à inércia que respirando, já deixaram de pensar e porque neste país a ausência de regras e de responsabilidade têm promovido a mediocridade.
Não vou, como é óbvio, tomar o partido da Ministra ou dos outros (sejam quem eles forem), até porque não há ministra e outros, a divisão é entre os que querem de facto criar uma educação de 1º mundo e os que, pelas mais diversas razões, não querem.
Como não tenho habilitações técnicas, currículo ou experiência para traçar um quadro geral da educação em Portugal e muito menos para apresentar soluções, limito-me a fazer uma reflexão relativa ao espaço onde vivo.
A Póvoa de Santa Iria, a tal cidade que muitos proclamam, tem características que a qualificam como subúrbio o que significa desenraizamento, desagregação e diferimento.
Com desenraizamento quero dizer que as pessoas não se sentem identificadas com o espaço onde vivem, não têm memórias do mesmo porque na sua maioria não cresceram aqui. Identificam-se com a sua fracção, com o seu apartamento. Desagregação significa que ao contrário de outros tempos, as actividades correntes das pessoas são feitas em diversos sítios (dormem na Póvoa, trabalham em Lisboa, divertem-se no Algarve). Diferimento significa que existe um lapso de tempo entre a instalação das pessoas e a criação de serviços de interesse público que, objectivamente diminui a qualidade de vida. Primeiro fazem-se os prédios, metem-se as pessoas, depois instalam-se as infra-estruturas dos serviços básicos e uns anos depois aparecem finalmente os serviços mais básicos (educação, Multibanco, comércio).
Não considero que a educação seja uma panaceia que tudo resolva, mas acho que pode fazer a diferença.
Desde logo respondendo às verdadeiras necessidades das famílias que vivem sob a desagregação que referi anteriormente. Não é uma escola que funciona das 9 às 5 que resolve os problemas. Como também não resolve os problemas cada uma funcionar para si mesma, de costas voltadas para a comunidade em redor.
Um verdadeiro projecto educativo passa por uma estreita colaboração entre as escolas (públicas, privadas e cooperativas), as instituições e associações.
Passa por uma escola que funcione 24 sobre 24. Que aborde matérias com os alunos que digam respeito ao meio onde vivem. Que promova as relações intergeracionais, propiciando o convívio entre os miúdos e os mais velhos. Que ponha os miúdos a fazerem qualquer coisa de útil, para eles e para a comunidade. Isto não é um problema dos professores, é um problema de todos. Deve ser discutido pelas entidades, públicas e privadas que existem na Póvoa. Não pode ser decidido numa reunião de fim de tarde, em que os presentes querem é ir para casa, tratar das suas vidinhas. É necessária uma estratégia que defina o que é que cada uma faz, que reúna meios (financeiros, humanos e logísticos). Um programa que preencha um dia inteiro de cada aluno, de acordo com as suas vocações, sem hiatos. E tudo isto deve ter como objectivo a criação de condições para que os miúdos de hoje sejam amanhã homens e mulheres mais conscientes, mais informados. Só proporcionando estas condições e gerando expectativas nos pais se pode exigir deles uma maior participação e disponibilidade e não ao contrário.
E isto não custa mais dinheiro e basicamente é uma questão de organização e competência.
Qualquer pessoa de bom senso e sem especiais conhecimentos chega a estas conclusões.
Então porque é que não se faz? Pelas mais diversas razões. Porque alguns gostam de exercer pequenos poderes. Porque outros estão tão habituados à inércia que respirando, já deixaram de pensar e porque neste país a ausência de regras e de responsabilidade têm promovido a mediocridade.
7/21/2006
UM NOVO PARADIGMA DE GESTÃO PÚBLICA LOCAL
Sem pôr em causa que as grandes e mais importantes decisões para o País são tomadas a nível central (Pelo Governo e pela Assembleia da República), não deixo de considerar que as decisões e as formas da gestão pública local são determinantes para a melhoria da qualidade de vida concreta das pessoas.
O actual modelo de gestão de serviços locais há muito que está esgotado. Já toda a gente percebeu, diariamente todos sentem isso, mas ninguém faz efectivamente nada para o alterar.
Tomando como exemplo a Póvoa de Santa Iria, que é uma das maiores freguesias urbanas do País, temos um conjunto de serviços públicos que funcionam separadamente, sem qualquer interligação entre si, para além do mínimo necessário. As Escolas, o Centro de Saúde, a Força de Segurança e a Junta de Freguesia têm, cada um, o seu quadro de pessoal, os seus meios técnicos e instrumentais, o seu orçamento e as suas competências.
Se quisermos ser sérios neste debate, chegaremos à conclusão que existe um núcleo de competências próprias de cada uma destas entidades. Ensinar no caso das Escolas, prestar cuidados de saúde no caso do Centro de Saúde, zelar pela segurança no caso da GNR e representar politicamente a freguesia, no caso da Junta de Freguesia. Para desempenharem estas competências, precisam, respectivamente de Professores, de Médicos e Enfermeiros, de Soldados e de Políticos. Todas as outras funções (burocráticas, administrativas, de higiene e limpeza dos seus próprios espaços e equipamentos, etc.) são instrumentais e idênticas (com pequenas diferenças) nas quatro instituições. Não tem pois qualquer justificação em termos de gestão que cada uma destas instituições tenha o seu próprio quadro de pessoal, gastando cada uma parte dos seus recursos na gestão deste “aparelho”. Para quem está de fora, mas que paga impostos e quer ver esse dinheiro bem empregue, é absurdo que por exemplo faltem auxiliares de acção educativa numa escola quando noutra instituição pública do mesmo espaço geográfico podem existir recursos humanos afectos à função pública e capazes de prestar esse serviço e que só não o fazem porque o facto de estarem vinculados ao organismo x é mais relevante que o seu vínculo ao serviço público. Assim o dizem as leis do funcionalismo público, assim defendem os sindicatos e assim continuamos a gastar alegremente os dinheiros públicos. Manter a higiene e efectuar a limpeza é basicamente igual no posto da GNR, na Escola, no Centro de Saúde ou na Junta, como é o trabalho administrativo e auxiliar.
É necessário um novo paradigma de gestão pública local que passa essencialmente por identificar o núcleo central das competências de cada órgão, afectar em exclusivo os recursos indispensáveis ao exercício dessas competências e por partilhar os recursos humanos, técnicos e financeiros que instrumentalmente todos precisam.
O actual modelo de gestão de serviços locais há muito que está esgotado. Já toda a gente percebeu, diariamente todos sentem isso, mas ninguém faz efectivamente nada para o alterar.
Tomando como exemplo a Póvoa de Santa Iria, que é uma das maiores freguesias urbanas do País, temos um conjunto de serviços públicos que funcionam separadamente, sem qualquer interligação entre si, para além do mínimo necessário. As Escolas, o Centro de Saúde, a Força de Segurança e a Junta de Freguesia têm, cada um, o seu quadro de pessoal, os seus meios técnicos e instrumentais, o seu orçamento e as suas competências.
Se quisermos ser sérios neste debate, chegaremos à conclusão que existe um núcleo de competências próprias de cada uma destas entidades. Ensinar no caso das Escolas, prestar cuidados de saúde no caso do Centro de Saúde, zelar pela segurança no caso da GNR e representar politicamente a freguesia, no caso da Junta de Freguesia. Para desempenharem estas competências, precisam, respectivamente de Professores, de Médicos e Enfermeiros, de Soldados e de Políticos. Todas as outras funções (burocráticas, administrativas, de higiene e limpeza dos seus próprios espaços e equipamentos, etc.) são instrumentais e idênticas (com pequenas diferenças) nas quatro instituições. Não tem pois qualquer justificação em termos de gestão que cada uma destas instituições tenha o seu próprio quadro de pessoal, gastando cada uma parte dos seus recursos na gestão deste “aparelho”. Para quem está de fora, mas que paga impostos e quer ver esse dinheiro bem empregue, é absurdo que por exemplo faltem auxiliares de acção educativa numa escola quando noutra instituição pública do mesmo espaço geográfico podem existir recursos humanos afectos à função pública e capazes de prestar esse serviço e que só não o fazem porque o facto de estarem vinculados ao organismo x é mais relevante que o seu vínculo ao serviço público. Assim o dizem as leis do funcionalismo público, assim defendem os sindicatos e assim continuamos a gastar alegremente os dinheiros públicos. Manter a higiene e efectuar a limpeza é basicamente igual no posto da GNR, na Escola, no Centro de Saúde ou na Junta, como é o trabalho administrativo e auxiliar.
É necessário um novo paradigma de gestão pública local que passa essencialmente por identificar o núcleo central das competências de cada órgão, afectar em exclusivo os recursos indispensáveis ao exercício dessas competências e por partilhar os recursos humanos, técnicos e financeiros que instrumentalmente todos precisam.
7/10/2006
CANTIGAS DO RUAS
Depois de um período de ausência, por causa dos exames, estou de volta.
E para começar, gostaria de fazer um breve comentário à entrevista do Dr. Fernando Ruas, Presidente da Câmara Municipal de Viseu há 16 anos e Presidente da Associação Nacional de Municípios.
Desde logo, a falta de preparação dos dois entrevistadores (sobretudo da jornalista da Rádio Renascença) chegou ao ridículo.
De tudo o que o Dr. Fernando Ruas disse (referiu alguns factos e lugares comuns) gostaria de destacar a visão oitocentista (para ser simpático com o homem) que revelou ter relativamente ao território.
Acha o Dr. Fernando Ruas que em nome da “coesão nacional” a Administração Central não pode alterar a fórmula de cálculo das verbas que cabem a cada município e assim canalizar mais verbas para os grandes municípios urbanos.
O que não disse foi que a maioria das pessoas vive nos grandes municípios e que na prática a coesão que defende significa que a maioria tem menos qualidade de vida para que a minoria disponha de pavilhões onde ninguém joga, escolas onde ninguém aprende, magníficas estradas municipais sem uma marca de travagem brusca.
O que não deixa de ser curioso, num social-democrata.
No país do Dr. Ruas, continuaremos a ter subúrbios pejados de gente sem escolas para os filhos, de caos rodoviário, de piscinas atulhadas de putos, de autarcas cedendo à especulação pura e dura. Enquanto que em cidades como Viseu, ou Covilhã, ou Vila Real uma minoria continua a viver com mais qualidade de vida, como o demonstram as estatísticas.
E pelo que se viu, é com base nesse mapa administrativo do século XIX que vamos continuar a viver.
E para começar, gostaria de fazer um breve comentário à entrevista do Dr. Fernando Ruas, Presidente da Câmara Municipal de Viseu há 16 anos e Presidente da Associação Nacional de Municípios.
Desde logo, a falta de preparação dos dois entrevistadores (sobretudo da jornalista da Rádio Renascença) chegou ao ridículo.
De tudo o que o Dr. Fernando Ruas disse (referiu alguns factos e lugares comuns) gostaria de destacar a visão oitocentista (para ser simpático com o homem) que revelou ter relativamente ao território.
Acha o Dr. Fernando Ruas que em nome da “coesão nacional” a Administração Central não pode alterar a fórmula de cálculo das verbas que cabem a cada município e assim canalizar mais verbas para os grandes municípios urbanos.
O que não disse foi que a maioria das pessoas vive nos grandes municípios e que na prática a coesão que defende significa que a maioria tem menos qualidade de vida para que a minoria disponha de pavilhões onde ninguém joga, escolas onde ninguém aprende, magníficas estradas municipais sem uma marca de travagem brusca.
O que não deixa de ser curioso, num social-democrata.
No país do Dr. Ruas, continuaremos a ter subúrbios pejados de gente sem escolas para os filhos, de caos rodoviário, de piscinas atulhadas de putos, de autarcas cedendo à especulação pura e dura. Enquanto que em cidades como Viseu, ou Covilhã, ou Vila Real uma minoria continua a viver com mais qualidade de vida, como o demonstram as estatísticas.
E pelo que se viu, é com base nesse mapa administrativo do século XIX que vamos continuar a viver.
4/17/2006
VOU VOLTAR PARA A MINHA TERRA
Parafraseando a minha mãe, no fundo sou um rústico, um inadaptado à vida urbana. Ora, a “coisa” só pode ser atávica, porque nunca morei em sítio diferente do que moro hoje e se é certo que nem sempre foi um subúrbio, não tenho qualquer memória de uma Póvoa rural. Nem sequer usufrui das idas de Verão “à terra”, como muitos dos putos da minha geração. As minhas idas ao campo foram sempre a aldeias emprestadas, com primos e primas emprestados a quem me limitava a simular um sorriso de circunstância.
Não posso no entanto deixar de dar razão à minha mãe, porque de facto tenho uma certa fobia de multidões, de apertos, de barulho. Gosto de conhecer os vizinhos, de morar a 100 metros do meu emprego.
Trocava de bom grado um t7 por uma quintarola com terreno para me espojar à vontade, pelo que concluo que sou mesmo rústico. Atavicamente rústico.
Vem toda esta converseta a propósito do abandono do mundo rural.
As pessoas hoje fogem do interior e do campo, seja para os contínuos urbanos do litoral ou para as cidades ditas médias.
Os putos da minha geração ainda têm, na sua maioria, pais que vieram dos sítios mais recônditos. Os meus filhos têm pais que são filhos do subúrbio.
A questão de fundo é esta: numa sociedade onde existe liberdade de circulação e de estabelecimento, como é que o Estado pode obrigar as pessoas a ficarem num determinado sítio? Não pode.
Tenho a convicção que as pessoas vão voltar ao campo, mas por reacção, isto é, quando mais uma vez a cidade não lhes garantir o mínimo. Ao longo da história estas migrações têm sido cíclicas, campo-cidade, cidade-campo.
Por isso entendo que esforços como a manutenção de serviços públicos (escolas, tribunais, fisco, centros de saúde) não servem de nada e acabam por piorar a condição de vida da maioria das pessoas (que vivem na cidade), porque os recursos são aplicados de forma desproporcionada. Como já afirmei, ninguém vai morar para o mundo rural só porque lá existe um centro de saúde, uma escola ou um tribunal. As pessoas precisam de fontes de rendimento e a solução não passa por novos investimentos, leia-se fábricas, porque a partir do momento em que se instale uma fábrica em Carrapatosa de Cima, nascerá, mais cedo ou mais tarde, uma cidade. O campo só se mantém com actividades rurais, com a agricultura, com a pecuária e afins. É por isso que se chama campo. Se se mantivesse com a indústria chamava-se subúrbio. Tinha prédios para albergar os trabalhadores.
Ora isso levanta outro problema. Como hoje podemos comprar alfaces da Tailândia e beldroegas do Chile, e na Tailândia e no Chile produzem muito mais barato, a nossa agricultura não consegue competir.
Mais uma vez não depende do Estado nem da PAC a sobrevivência, mas do simples facto das pessoas perceberem que quando estão a comer tomates alentejanos ou cerejas transmontanas estão não só a alimentarem-se como a ajudar a que se mantenha o mundo rural, mesmo que isso lhes saia mais caro. Porque caro vai sair sempre. A partir do momento em que a fuga para os subúrbios for total, vão começar a pagar mais impostos, fazer estradas, implementar serviços públicos, vai ser inimaginavelmente mais caro, porque na malha urbana compactada em que cada vez mais vivemos, arranjar espaço para uma estrada vai ser um desafio para a engenharia e um sorvedouro de dinheiro constante.
Nenhum Estado (nem mesmo ditatorial) consegue mudar, por si só, as mentalidades e os hábitos das pessoas. Por isso, a questão resume-se no essencial à opção de vida e de sociedade que queremos. Isto significa mudar a estrutura da nossa despesa familiar, sermos mais racionais no consumo de bens que são escassos, o que contradiz a vontade de uma sociedade que só agora começa a chegar aos prazeres consumistas da classe média e de uma certa, mas pouco sustentada, abastança.
Não posso no entanto deixar de dar razão à minha mãe, porque de facto tenho uma certa fobia de multidões, de apertos, de barulho. Gosto de conhecer os vizinhos, de morar a 100 metros do meu emprego.
Trocava de bom grado um t7 por uma quintarola com terreno para me espojar à vontade, pelo que concluo que sou mesmo rústico. Atavicamente rústico.
Vem toda esta converseta a propósito do abandono do mundo rural.
As pessoas hoje fogem do interior e do campo, seja para os contínuos urbanos do litoral ou para as cidades ditas médias.
Os putos da minha geração ainda têm, na sua maioria, pais que vieram dos sítios mais recônditos. Os meus filhos têm pais que são filhos do subúrbio.
A questão de fundo é esta: numa sociedade onde existe liberdade de circulação e de estabelecimento, como é que o Estado pode obrigar as pessoas a ficarem num determinado sítio? Não pode.
Tenho a convicção que as pessoas vão voltar ao campo, mas por reacção, isto é, quando mais uma vez a cidade não lhes garantir o mínimo. Ao longo da história estas migrações têm sido cíclicas, campo-cidade, cidade-campo.
Por isso entendo que esforços como a manutenção de serviços públicos (escolas, tribunais, fisco, centros de saúde) não servem de nada e acabam por piorar a condição de vida da maioria das pessoas (que vivem na cidade), porque os recursos são aplicados de forma desproporcionada. Como já afirmei, ninguém vai morar para o mundo rural só porque lá existe um centro de saúde, uma escola ou um tribunal. As pessoas precisam de fontes de rendimento e a solução não passa por novos investimentos, leia-se fábricas, porque a partir do momento em que se instale uma fábrica em Carrapatosa de Cima, nascerá, mais cedo ou mais tarde, uma cidade. O campo só se mantém com actividades rurais, com a agricultura, com a pecuária e afins. É por isso que se chama campo. Se se mantivesse com a indústria chamava-se subúrbio. Tinha prédios para albergar os trabalhadores.
Ora isso levanta outro problema. Como hoje podemos comprar alfaces da Tailândia e beldroegas do Chile, e na Tailândia e no Chile produzem muito mais barato, a nossa agricultura não consegue competir.
Mais uma vez não depende do Estado nem da PAC a sobrevivência, mas do simples facto das pessoas perceberem que quando estão a comer tomates alentejanos ou cerejas transmontanas estão não só a alimentarem-se como a ajudar a que se mantenha o mundo rural, mesmo que isso lhes saia mais caro. Porque caro vai sair sempre. A partir do momento em que a fuga para os subúrbios for total, vão começar a pagar mais impostos, fazer estradas, implementar serviços públicos, vai ser inimaginavelmente mais caro, porque na malha urbana compactada em que cada vez mais vivemos, arranjar espaço para uma estrada vai ser um desafio para a engenharia e um sorvedouro de dinheiro constante.
Nenhum Estado (nem mesmo ditatorial) consegue mudar, por si só, as mentalidades e os hábitos das pessoas. Por isso, a questão resume-se no essencial à opção de vida e de sociedade que queremos. Isto significa mudar a estrutura da nossa despesa familiar, sermos mais racionais no consumo de bens que são escassos, o que contradiz a vontade de uma sociedade que só agora começa a chegar aos prazeres consumistas da classe média e de uma certa, mas pouco sustentada, abastança.
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