4/17/2006

VOU VOLTAR PARA A MINHA TERRA

Parafraseando a minha mãe, no fundo sou um rústico, um inadaptado à vida urbana. Ora, a “coisa” só pode ser atávica, porque nunca morei em sítio diferente do que moro hoje e se é certo que nem sempre foi um subúrbio, não tenho qualquer memória de uma Póvoa rural. Nem sequer usufrui das idas de Verão “à terra”, como muitos dos putos da minha geração. As minhas idas ao campo foram sempre a aldeias emprestadas, com primos e primas emprestados a quem me limitava a simular um sorriso de circunstância.

Não posso no entanto deixar de dar razão à minha mãe, porque de facto tenho uma certa fobia de multidões, de apertos, de barulho. Gosto de conhecer os vizinhos, de morar a 100 metros do meu emprego.

Trocava de bom grado um t7 por uma quintarola com terreno para me espojar à vontade, pelo que concluo que sou mesmo rústico. Atavicamente rústico.

Vem toda esta converseta a propósito do abandono do mundo rural.

As pessoas hoje fogem do interior e do campo, seja para os contínuos urbanos do litoral ou para as cidades ditas médias.

Os putos da minha geração ainda têm, na sua maioria, pais que vieram dos sítios mais recônditos. Os meus filhos têm pais que são filhos do subúrbio.

A questão de fundo é esta: numa sociedade onde existe liberdade de circulação e de estabelecimento, como é que o Estado pode obrigar as pessoas a ficarem num determinado sítio? Não pode.

Tenho a convicção que as pessoas vão voltar ao campo, mas por reacção, isto é, quando mais uma vez a cidade não lhes garantir o mínimo. Ao longo da história estas migrações têm sido cíclicas, campo-cidade, cidade-campo.

Por isso entendo que esforços como a manutenção de serviços públicos (escolas, tribunais, fisco, centros de saúde) não servem de nada e acabam por piorar a condição de vida da maioria das pessoas (que vivem na cidade), porque os recursos são aplicados de forma desproporcionada. Como já afirmei, ninguém vai morar para o mundo rural só porque lá existe um centro de saúde, uma escola ou um tribunal. As pessoas precisam de fontes de rendimento e a solução não passa por novos investimentos, leia-se fábricas, porque a partir do momento em que se instale uma fábrica em Carrapatosa de Cima, nascerá, mais cedo ou mais tarde, uma cidade. O campo só se mantém com actividades rurais, com a agricultura, com a pecuária e afins. É por isso que se chama campo. Se se mantivesse com a indústria chamava-se subúrbio. Tinha prédios para albergar os trabalhadores.

Ora isso levanta outro problema. Como hoje podemos comprar alfaces da Tailândia e beldroegas do Chile, e na Tailândia e no Chile produzem muito mais barato, a nossa agricultura não consegue competir.

Mais uma vez não depende do Estado nem da PAC a sobrevivência, mas do simples facto das pessoas perceberem que quando estão a comer tomates alentejanos ou cerejas transmontanas estão não só a alimentarem-se como a ajudar a que se mantenha o mundo rural, mesmo que isso lhes saia mais caro. Porque caro vai sair sempre. A partir do momento em que a fuga para os subúrbios for total, vão começar a pagar mais impostos, fazer estradas, implementar serviços públicos, vai ser inimaginavelmente mais caro, porque na malha urbana compactada em que cada vez mais vivemos, arranjar espaço para uma estrada vai ser um desafio para a engenharia e um sorvedouro de dinheiro constante.

Nenhum Estado (nem mesmo ditatorial) consegue mudar, por si só, as mentalidades e os hábitos das pessoas. Por isso, a questão resume-se no essencial à opção de vida e de sociedade que queremos. Isto significa mudar a estrutura da nossa despesa familiar, sermos mais racionais no consumo de bens que são escassos, o que contradiz a vontade de uma sociedade que só agora começa a chegar aos prazeres consumistas da classe média e de uma certa, mas pouco sustentada, abastança.

3/29/2006

BOA FÉ E RECIPROCIDADE

A expulsão dos imigrantes do Canadá pode ser vista de duas formas. A primeira é a que diz “Dura Lex, sed Lex” e que assim fecha a questão. A outra é que a aplicação de qualquer Lei pressupõe boa fé de quem a aplica e dificilmente pode o Estado Canadiano alegar que desconhecia que há mais de 10 ou 15 anos muitas daquelas pessoas lá viviam. A vida das pessoas, por menos intrusiva que possa ser a actuação de um Estado, é feita de actos que pela sua natureza são públicos (compra ou arrendamento de casa, inscrição dos filhos na escola) e de outros que além de públicos pressupõem o conhecimento expresso do Estado (pagamento de impostos), pelo que existe má fé do Estado Canadiano nesta actuação.

Para além do princípio da boa fé existe um outro que nunca deve ser esquecido nestas ocasiões, que é o da reciprocidade.

Para que amanhã o Estado Português não faça exactamente o mesmo com imigrantes que vivem, trabalham e descontam há 5, 10 ou 15 anos no nosso País.

3/03/2006

MORCEGOS DE FRAQUE

Na curiosa fauna indígena, há um bicho muito especial, protegido como poucos. Pilhas e pilhas de decretos, de despachos, impedem a sua extinção. Num clima social onde algumas vozes reclamam a biodiversidade, eis um exemplo de resistência e protecção.

Estou, como é óbvio, a falar do Morcego de Fraque.

Criatura ancestral, descrita desde há muito na literatura especializada, mantém-se praticamente inalterada desde o início dos tempos, embora a sua adaptabilidade possa indiciar o contrário. Numa ou noutra ocasião podem crescer-lhe poderosas garras ou afiados caninos, mas no essencial continua a ser a mesma: invertebrada, primária, comezinha até.

Refugia-se nos pontos menos iluminados dos amplos corredores que se projectam para afirmar a nossa grandiosidade civilizacional, de onde só sai para, no silêncio das suas patas ridiculamente pequenas, morder os calcanhares de quem passa.

Morder manso, quase doce, tem o bicho!

Suga, suga, enquanto beija e à medida que vai trepando nas pernas do hospedeiro, chama os amigos para tal comezaina. Ou então, se ainda é mancebo, novo e inexperiente, trepa sozinho até chegar a sítio mais quente.

Bem se coça o hospedeiro, com a cútis irritada; assim se move o bandoleiro, numa dança bem encenada.

Não sendo criatura de devaneios, se ali já não dá nada, levanta os freios e parte de madrugada.

E que faz a criatura, quando do alheio não se alimenta?
Coisa sem estrutura, muito menos de sebenta.
Arranja fêmea ou macho, em festas catitas
Logo constitui família e em casa recebe visitas.

Perguntará o leitor, deveras intrigado
Onde se avista tal bicho,
Onde come, onde fica o seu nicho
Que nunca viu em nenhum lado?

Nasce todo pretinho, berrando pelo corredor
Mal se aplaca a borbulha, é nomeado doutor
É aí que se dá, fenómeno sem igual
O trafulha passa a excelso intelectual

Pula de escritório em escritório,
Que as fartas formas da República a todos acolhe,
O almoxarife emproado que chega ao parlatório
Ou o incompetente que mais ninguém escolhe

2/16/2006

PROFILAXIA URBANA

Quase como nós próprios, os espaços urbanos têm o seu tempo de pujança e esplendor e tornam-se decadentes e ineptos.

Sem quaisquer pretensões doutrinárias, julgo que, com as suas óbvias diferenças, a Urbanização da Portela e o Bairro dos Olivais são duas realidades que servem de referência para quem gosta de pensar sobre o urbanismo.

Ambas surgiram com a melhor das intenções, foram marcos em termos de intervenção urbana e caíram em decadência. Claro que falar em decadência na Portela ou no 6 de Maio se reporta a realidades qualitativamente diferentes. O projecto, pensado e executado para uma determinada ideia de comunidade não se revelou adequado (nem nenhum projecto urbanístico, por muito bom que seja, consegue, por si só, evitar fenómenos de exclusão ou de delinquência, ou sequer “criar” o espírito comunitário) nem resistiu incólume às mudanças sociais que se verificaram.

Aquelas duas áreas (sub)urbanas tornaram-se inadequadas, deixaram de dar resposta às necessidades dos seus habitantes, numa palavra, tornaram-se anacrónicas.

E é exactamente essa palavra que me surge quando penso na chamada 2ª Fase da Quinta da Piedade, na Póvoa de Santa Iria. Anacrónico.

As realidades que falei no início, nasceram adequadas às necessidades de então e só depois, com a alteração dos hábitos das pessoas e o surgimento de outras áreas, se tornaram inaptas. A 2ª fase já nasceu completamente desfasada, inadequada ao seu tempo. Não falo obviamente no interior das habitações, no espaço privado, que terá com certeza, o último grito (histérico) da moda. Falo no espaço público, refiro-me ao próprio modelo, à quase ausência de comércio, à disposição dos prédios, olhando desconfiados e de soslaio uns para os outros, da mesma forma que nos olhamos nos elevadores.

Para quem não conheça, não estou a falar de meia dúzia de lotes, mas de uma área com mais população que a maioria das freguesias do Concelho de Vila Franca de Xira.

Não pretende este texto ser um libelo contra quem autorizou tão bizarra esfinge, sem nenhuma causa existencial para além da incúria de uns e a inconsciência de outros.

Pretende antes de mais funcionar como um alerta, para que, criado o monstro se evite que tenha azia.

Quem vai hoje morar para a 2ª Fase, depressa procurará outra zona, porque rapidamente vê goradas as suas expectativas mais básicas. Ou seja, assim torna-se impossível criar qualquer consciência cívica eficaz, porque as pessoas olham para a urbanização como um ponto de passagem e nunca (ou pelo menos raramente) como um sítio para se fixarem, para criarem raízes.

Tudo isto leva à depreciação do valor das habitações e perante o dinamismo que caracteriza a área metropolitana de Lisboa e os novos pólos de atracção (como o aeroporto da Ota) não é difícil imaginar a debandada das pessoas que moram na 2ª Fase, assim como a transmissão dos imóveis entretanto desvalorizados a quem os quiser comprar, passando aquela área a ser habitada não pela garrida classe média, como hoje, mas essencialmente pelas franjas mais desfavorecidas. Como é óbvio, nada tenho contra quem é menos desfavorecido, quem vive em condições de cidadania precárias, mas concentrar quem é mais desfavorecido repele, é contra a natureza do conceito de cidade, forma ghettos, empobrece a vida citadina. Da mesma forma que os ghettos dos ricos, aliás, mas com efeitos sociais mais perversos. Teremos no meio da Póvoa um bairro onde quem não mora lá não passa, ou se passar é porque lá se “passa”. Ora eu não quero uma versão contemporânea do Bairro dos Olivais nos anos 70.

E para que isso não aconteça, é preciso que se actue de imediato. Os poderes públicos, é certo, mas também as próprias pessoas, em relação às quais os poderes públicos devem dar a iniciativa, facilitá-la até, com regras mas sobretudo com bom senso.

Tenho a noção que os recursos públicos são não só limitados como escassos, isto é, não só se esgotam, como não respondem às necessidades actuais. Também por isso, a atitude das pessoas é fundamental e fará toda a diferença, porque não há polidesportivos, parques urbanos, zonas de lazer, aquilo que lhe quiserem chamar, que criem, por si sós, o espírito comunitário e a vontade necessária para que a 2ª fase não se torne num ghetto.

Dir-me-ão que estou a ser alarmista, exagerado, pedante, que a 2ª Fase é só uma zona da Póvoa de Santa Iria, que não é verosímil que se torne, em 10 ou 20 anos, numa zona degradada.

A “zona” é, repito, maior (em termos populacionais) que a maioria das freguesias do concelho. O espaço urbano não pode ser visto como um aglomerado de feudos, mais ou menos fechados. Com áreas públicas degradadas, sem dignidade, insalubres, nas quais as pessoas são incapazes de respirar num ar fétido de tanto regulamento em papel amarelado, de tanto procedimento administrativo inconsequente, de tanta conversa da treta e joguinhos pueris do “agora fazes tu, ou agora faço eu?”, e que por isso se fecham em casas de chão parquet. Até ao dia em que paulatinamente, começarem a sair dos prédios com as malas vuitton de feira e se meterão nos seus automóveis, para nunca mais voltarem. Sem um pingo de pena ou de saudade.



2/01/2006

ACUPUNPTURA MASOQUISTA

Numa tentativa mais ou menos frustrada e pedante de fugir ao circuito dos Centros Comerciais, tive a oportunidade de me deparar com o exercício de auto-medicação, sob a forma de acupunctura masoquista, que de uma maneira menos prosaica se chama gestão do património público.

O Estado, por boas e más razões, tem um património (no caso concreto um património edificado) valioso, que pela incúria de uns (zelosos funcionários) e pelo desinteresse de outros (todos nós), se vai dissipando, com um ritmo e uma metodologia admiráveis. De facto, se fossemos tão rigorosos e metódicos na acção, como somos na omissão, a nossa designação oficial não seria República Portuguesa, mas provavelmente Kongeriket Norge.

A Indep, em Moscavide e o antigo Quartel de Inspecção Militar em Setúbal são dois exemplos que não se amenizam por explicações burocráticas. Jazem, caquécticos, esfarrapados, esvaindo-se em silêncio.

O Estado, na sua ânsia prestativa, foi-se ramificando em organismos, serviços, institutos e tudo o que coube na imaginação delirante de sucessivos e impunes incompetentes. E ao abrigo do instituto da autonomia administrativa e financeira, cada um trata do património afectado como se de verdadeira propriedade se tratasse. Fazem-se guerrilhas cada vez que é necessário passar um qualquer edifício de uma direcção-geral para outra. Baterias de juristas engalfinham-se com pareceres rendados com notas de rodapé em alemão. Não há um único organismo público que seja proprietário de bens públicos, porque simplesmente os bens públicos não são susceptíveis de apropriação. Os bens são instrumentais, funcionais, afectados a um concreto organismo com um determinado fim.

Curiosamente o zelo e sobretudo o apego, esfumam-se ao abrigo de uma qualquer norma de excepção, que de boa fé, presume-se, o legislador entendeu criar, e o património público é alienado ao desbarato, permitindo a alguém fazer uma mais valia indecorosa (nada tenho contra as mais valias, mas a minha tolerância à esperteza saloia tem como limite os fura filas de hipermercado). Segundo a tabela oficiosa, dez mais valias dão direito a uma comenda.

Uma viagem virtual à Direcção Geral do Património é esclarecedora. Como objectivamente não há planeamento nem estratégia, ou pelo menos mudam cada vez que muda o Governo, muitas das vendas em hasta pública ficam desertas, isto é, não aparece ninguém para comprar o que o Estado quer vender.

Como os tais organismos não falam entre si, dão-se situações ridículas, em que, por exemplo, um determinado serviço precisa de um edifício com carácter de urgência, num local concreto e acaba por fazer uma aquisição quando, mesmo ali ao lado existe um edifício público, mas que levaria muito tempo a desafectar, que pertence ao instituto Y, ou simplesmente porque os dirigentes dos dois serviços não gostam, desde o tempo da faculdade, um do outro. Há sempre uma lei, uma portaria ou um despacho protector da gestão danosa, mesmo que sejam do tempo do amigo botas.

Decididamente, o melhor é deixar-me de passeios ao ar livre e ir para o vasco da gama, o colombo ou o diogo cão, porque a nossa memória colectiva já só é “preservada” nos nomes dos centros comerciais…

12/15/2005

UPGRADE DA SABEDORIA POPULAR

Quem não tem cão, caça com gato
Quem não tem telemóvel, usa o fixo

Em casa de ferreiro, espeto de pau
Em casa de informático, ligação analógica

O hábito não faz o monge
O Visa Gold não faz o executivo

Quem não quer ser lobo não lhe veste a pele
Quem não quer ir para o Alcoitão, não acelera no alcatrão

Diz-me com quem andas dir-te-ei quem és
Diz-me a quem sms mandas, dir-te-ei quem és

In vino veritas
In pastilla veritas

Grão a grão, enche a galinha o papo
Mais-valia a mais-valia, enche o pato o papo

Filho de peixe sabe nadar
Filho de peixe não sabe, não quer saber e tem raiva a quem sabe nadar

Casa assaltada, trancas à porta
Casa assaltada, tropas à porta

Mais vale um pássaro na mão que dois a voar
Mais vale um PEC na mão, que dois FMI’s a pairar

As aparências iludem
As inerências (e auto-regulações) iludem

Amigos amigos, negócios à parte
Amigos amigos, negócios de Marte

Quem tem boca vai a Roma
Quem tem boca vai para Bruxelas

Fia-te na Virgem e não corras
Fia-te na bacia do Ruhr e não corras

Quem vê caras, não vê corações
Quem vê a caras, não vê as inalações

Entre marido e mulher não metas a colher
Entre dois street racers, não metas a colher

Para quem é, bacalhau basta
Para quem é, meio dúzia de termos técnicos bastam

Quanto mais me bates, mais gosto de ti
Quanto mais me taxas, mais gosto de ti

Há mar e mar, há ir e voltar
Há mora e mora, há o pagar nunca e ir para fora

Zangam-se as comadres, descobrem-se as verdades
Terminam as parcerias, descobrem-se as patifarias

11/28/2005


O Cronista Apaixonado (e obviamente rid�culo)
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11/24/2005

O CLUSTER DAS ROULOTES

Num tempo em que a própria palavra neologismo se tornará arcaica assim que eu terminar esta frase, somos constantemente bombardeados por um “brave new world”. Benchmarking, cluster, thinking tanks, sms, mp3, streaming, p2p, brainstorming, joyful sinking (esta inventei, mas se o tivesse ocultado e fosse um opinion maker, amanhã apareceriam 13 artigos de jornal e 297 referências em blogs sobre o assunto, com explicações de cátedra). Todos concordam (mais ou menos…) que o nosso futuro passa pela aposta na tecnologia e eu modestamente não contesto, só acho que como quase tudo temos que fazer as necessárias adaptações a este rectângulo à beira-mar plantado.

Assim, onde normalmente se lê I&D (Investigação e Desenvolvimento) deve ler-se Ignorante mas Desenrascado, essa palavra-chave da cabalística lusa. Não tenhamos ilusões: nós nunca vamos ter 50.000 brilhantes engenheiros civis, 10.000 geniais matemáticos ou 50.000 excelsos biólogos. Por outro lado vamos ter sempre dois milhões de treinadores de bancada frustrados, um milhão de empresários de boca, quinhentos mil políticos de café, duzentos mil cantores de casa-de-banho e um número impreciso, mas certamente elevado de tipos e tipas que acham que são bons em tudo, só que tiveram um conjunto de azares, que eles, cruz credo, não fossem modernos e iriam à bruxa.

Esta ideia não é uma forma mais ou menos disfarçada de reaccionarismo, mas uma conclusão lógica. Afinal, somos só 10 milhões e nem o nacionalista mais fanático (mesmo o do desenho do João Abel Manta) defende que somos todos génios ou sequer muito bons.

Aquilo que não podemos fazer é à força, mergulhar as “gerações futuras” numa educação racional, lógica e coerente, que ao chegar a casa de desmorona perante a ligação pirata e artesanal da Sport Tv que o pai fez.

Esta incongruência entre o reputadamente desejável e a realidade não traça só por si um destino de lenta agonia. À boa maneira da análise SWOT (vêem como eu também sou moderno?!) podemos utilizar as ameaças e torná-las oportunidades (ou lá como é que os tipos fazem).

Tenho um exemplo que se encaixa perfeitamente nisto.

As roulotes de comes e bebes.

Se não olharmos as roulotes unicamente do ponto de vista do consumidor tardio ou de feira, podemos ver, naquele 3x6, ou menos, toda a genialidade lusa.

Desde logo a começar pela forma absolutamente miraculosa, como numa arca frigorífica menor que a maior parte das arcas que por si só ocupam metade de milhares de T2 por esse país urbano fora, cabem as tradicionais minis, mas como a concorrência é, neste sector, poderosíssima, quem quiser sobreviver tem que lá ter as últimas da moda – água com sabor a aloé vera ou juripuritupiri, cerveja rosé etc.. E as bifanas. As salsichas.

No mesmo espaço move-se o pai, a mãe, a sogra e a Jessica Vanessa. A velha permanentemente a virar bifanas, rodando a placa entre os maxilares, a Jessica Vanessa graciosa entre a barriga do pai e as mamas da mãe. A mãe de mangas arregaçadas, dominadora do espaço e finalmente o pai: gerente, contabilista, porteiro, mecânico. Começando nas simples bifanas e cervejas, as roulotes foram sempre acompanhando o mercado e vieram os cachorros e vieram os hambúrgueres e os cachorros passaram a trazer um conjunto folclórico no topo e o sector, pimba, toca a pôr. A roulote-bar Zé das Rifas inventa o maxi-cachorro e logo a família Alves aparece com o hiper-cachorrão. Hoje têm televisão, bancos. Amanhã terão Internet, quartos.

Para além disso conseguem manter em funcionamento as roulotes durante anos, à chuva, ao frio, quase sempre puxadas por fords transit igualmente velhas.

Uma empresa roulote bar é simultaneamente uma empresa de restauração, de design e publicidade, e uma oficina auto. Esqueçam os pólos tecnológicos de engenharia. Há um mundo inexplorado mesmo à nossa frente. Viva o cluster das roulotes-bar!

10/25/2005

GNOMOS EM BICOS DOS PÉS

Agora que as Eleições Autárquicas terminaram e que todas as forças concorrentes já tiveram tempo suficiente para as análises necessárias, julgo que é oportuno percebermos os erros que foram cometidos e sobretudo discutirmos aquilo que queremos em termos de poder local.

Há uma análise que é subscrita pela maioria das pessoas: estas foram as piores eleições autárquicas em 30 anos. Não tanto pelos casos terceiro-mundistas que já se conhecem, mas porque de um modo geral, o discurso político foi mau, completamente desligado da realidade, feito de jargão oco e de pseudo-modernidade. Não me parece que a grande maioria dos candidatos (onde aliás me incluo e por isso assumo a mea culpa) o faça por má fé ou dolo. Fazem-no porque individualmente não têm hipótese de mudar o discurso, porque se entra numa corrida sem sentido em que se prometem coisas mais mirabolantes que o adversário. Veja-se um caso típico: um candidato a Presidente de Junta, para ser absolutamente leal com os seus eleitores, pouco mais pode prometer que manter as ruas limpas e cuidar das áreas ajardinadas. Esta é a realidade. Segui atentamente a campanha e vi vários candidatos às freguesias e aos concelhos prometerem a criação de zonas industriais (leia-se uma oficina e um stand de automóveis no meio de um pinhal), o desenvolvimento do turismo, estradas, túneis etc., etc., sem referirem sequer que muitos desses desejos estão para além das suas competências ou poderes. Não há nada de mais ridículo do que vermos discursos que recorrem a linguagens técnicas, quando manifestamente os seus autores não sabem do que estão a falar, nem têm conhecimentos ou habilitações para tal.

Nos próximos quatro anos temos que pensar que gestão autárquica realmente queremos. Temos que pensar se faz algum sentido termos mais de quatro mil freguesias e mais de trezentos concelhos. Estou convencido que não faz nenhum sentido, que não é justo que os contribuintes paguem a manutenção de serviços públicos prestados por Câmaras e Juntas que manifestamente não têm dimensão nem meios para os prestarem, encarecendo o seu preço.

Veja-se o caso do concelho de Vila Franca de Xira. Eu entendo, como princípio de discussão, que não faz sentido termos 11 freguesias. Julgo que 4 freguesias eram suficientes, reunindo Póvoa, Vialonga e Forte da Casa numa, Alverca e Sobralinho noutra, Alhandra, Vila Franca de Xira, Castanheira numa terceira e finalmente as freguesias rurais, Calhandriz, Cachoeiras e São João dos Montes, numa só. Hoje o que temos, com esta dispersão, são serviços exactamente iguais em todas as freguesias (varrição, jardinagem) mas caros e ineficazes, porque muitas das freguesias não têm dimensão para prestarem um serviço correcto e eficiente e por outro lado não prestam aqueles serviços que supostamente deviam prestar e que fazem sentido numa lógica de proximidade, como a Acção Social. As ruas não precisam de carinho, de conforto ou de solidariedade. As pessoas e os seus problemas precisam disso tudo e não podem ser tratadas por um aparelho burocrático e com enxaquecas permanentes. Não há nenhuma razão para não se fazer isto, para além das razões que nos caracterizam como subdesenvolvidos. As pessoas que vivem na Póvoa são as mesmas que vivem em Vialonga ou no Forte da Casa. Toda a gente sabe que não é possível termos forças de segurança, serviços públicos, como os Registos ou as Finanças, ou escolas secundárias em todas as freguesias. Aliás, as 3 freguesias mantêm fluxos diários e regulares de pessoas, bens e serviços.

Enquanto mantivermos autarcas nas grandes urbes com a mentalidade de político de aldeia, não há hipótese. Continuaremos a ser pequeninos gnomos em bicos dos pés.

10/20/2005

Senhor! Concedei a esta pobre, velha e quase cega serva um último desejo: Quando a minha filha Ermengarda crescer, fazei com que case com o Dr. Rogério Alves!

Sim, esse mesmo, Bastonário da Ordem dos Advogados, gentil homem, de modos cândidos, sempre disposto a explicar o funcionamento da Justiça ao Povo, que ainda ontem, comparava, na TSF, penaltis com sentenças, para que o povo percebesse o que é a Justiça. O Dr. Rogério, mesmo quando encarna o Rogério Corporativo é educado, polido, cordial. Juro Senhor, que me pareceu ouvir a Mary Poppins em ameno diálogo com o nosso querido bastonário tal é o ambiente idílico em que me sinto sempre que o ouço.

Sendo Bastonário, acredito piamente que não usa bastão, quanto muito uma varinha mágica, se isso não afectar a sua imagem varonil. Depois do bruto Xerife Lima é bom saber que temos um verdadeiro cavalheiro na Ordem, a apelar ao diálogo, lembrando-me esse outro gentleman dialogante António Guterres.

Não me haveis concedido o desejo de casar Ermengarda com António Guterres, concedei-me ao menos o Dr. Rogério.

Já me estou a imaginar, aos Domingos à tarde, a receber o Rogério e a Ermengarda, para o chá das cinco, acompanhados pelo Edmundo e pela Doroteia, petizes que serão certamente a luz dos meus olhos.