Agora que as Eleições Autárquicas terminaram e que todas as forças concorrentes já tiveram tempo suficiente para as análises necessárias, julgo que é oportuno percebermos os erros que foram cometidos e sobretudo discutirmos aquilo que queremos em termos de poder local.
Há uma análise que é subscrita pela maioria das pessoas: estas foram as piores eleições autárquicas em 30 anos. Não tanto pelos casos terceiro-mundistas que já se conhecem, mas porque de um modo geral, o discurso político foi mau, completamente desligado da realidade, feito de jargão oco e de pseudo-modernidade. Não me parece que a grande maioria dos candidatos (onde aliás me incluo e por isso assumo a mea culpa) o faça por má fé ou dolo. Fazem-no porque individualmente não têm hipótese de mudar o discurso, porque se entra numa corrida sem sentido em que se prometem coisas mais mirabolantes que o adversário. Veja-se um caso típico: um candidato a Presidente de Junta, para ser absolutamente leal com os seus eleitores, pouco mais pode prometer que manter as ruas limpas e cuidar das áreas ajardinadas. Esta é a realidade. Segui atentamente a campanha e vi vários candidatos às freguesias e aos concelhos prometerem a criação de zonas industriais (leia-se uma oficina e um stand de automóveis no meio de um pinhal), o desenvolvimento do turismo, estradas, túneis etc., etc., sem referirem sequer que muitos desses desejos estão para além das suas competências ou poderes. Não há nada de mais ridículo do que vermos discursos que recorrem a linguagens técnicas, quando manifestamente os seus autores não sabem do que estão a falar, nem têm conhecimentos ou habilitações para tal.
Nos próximos quatro anos temos que pensar que gestão autárquica realmente queremos. Temos que pensar se faz algum sentido termos mais de quatro mil freguesias e mais de trezentos concelhos. Estou convencido que não faz nenhum sentido, que não é justo que os contribuintes paguem a manutenção de serviços públicos prestados por Câmaras e Juntas que manifestamente não têm dimensão nem meios para os prestarem, encarecendo o seu preço.
Veja-se o caso do concelho de Vila Franca de Xira. Eu entendo, como princípio de discussão, que não faz sentido termos 11 freguesias. Julgo que 4 freguesias eram suficientes, reunindo Póvoa, Vialonga e Forte da Casa numa, Alverca e Sobralinho noutra, Alhandra, Vila Franca de Xira, Castanheira numa terceira e finalmente as freguesias rurais, Calhandriz, Cachoeiras e São João dos Montes, numa só. Hoje o que temos, com esta dispersão, são serviços exactamente iguais em todas as freguesias (varrição, jardinagem) mas caros e ineficazes, porque muitas das freguesias não têm dimensão para prestarem um serviço correcto e eficiente e por outro lado não prestam aqueles serviços que supostamente deviam prestar e que fazem sentido numa lógica de proximidade, como a Acção Social. As ruas não precisam de carinho, de conforto ou de solidariedade. As pessoas e os seus problemas precisam disso tudo e não podem ser tratadas por um aparelho burocrático e com enxaquecas permanentes. Não há nenhuma razão para não se fazer isto, para além das razões que nos caracterizam como subdesenvolvidos. As pessoas que vivem na Póvoa são as mesmas que vivem em Vialonga ou no Forte da Casa. Toda a gente sabe que não é possível termos forças de segurança, serviços públicos, como os Registos ou as Finanças, ou escolas secundárias em todas as freguesias. Aliás, as 3 freguesias mantêm fluxos diários e regulares de pessoas, bens e serviços.
Enquanto mantivermos autarcas nas grandes urbes com a mentalidade de político de aldeia, não há hipótese. Continuaremos a ser pequeninos gnomos em bicos dos pés.
10/25/2005
10/20/2005
Senhor! Concedei a esta pobre, velha e quase cega serva um último desejo: Quando a minha filha Ermengarda crescer, fazei com que case com o Dr. Rogério Alves!
Sim, esse mesmo, Bastonário da Ordem dos Advogados, gentil homem, de modos cândidos, sempre disposto a explicar o funcionamento da Justiça ao Povo, que ainda ontem, comparava, na TSF, penaltis com sentenças, para que o povo percebesse o que é a Justiça. O Dr. Rogério, mesmo quando encarna o Rogério Corporativo é educado, polido, cordial. Juro Senhor, que me pareceu ouvir a Mary Poppins em ameno diálogo com o nosso querido bastonário tal é o ambiente idílico em que me sinto sempre que o ouço.
Sendo Bastonário, acredito piamente que não usa bastão, quanto muito uma varinha mágica, se isso não afectar a sua imagem varonil. Depois do bruto Xerife Lima é bom saber que temos um verdadeiro cavalheiro na Ordem, a apelar ao diálogo, lembrando-me esse outro gentleman dialogante António Guterres.
Não me haveis concedido o desejo de casar Ermengarda com António Guterres, concedei-me ao menos o Dr. Rogério.
Já me estou a imaginar, aos Domingos à tarde, a receber o Rogério e a Ermengarda, para o chá das cinco, acompanhados pelo Edmundo e pela Doroteia, petizes que serão certamente a luz dos meus olhos.
Sim, esse mesmo, Bastonário da Ordem dos Advogados, gentil homem, de modos cândidos, sempre disposto a explicar o funcionamento da Justiça ao Povo, que ainda ontem, comparava, na TSF, penaltis com sentenças, para que o povo percebesse o que é a Justiça. O Dr. Rogério, mesmo quando encarna o Rogério Corporativo é educado, polido, cordial. Juro Senhor, que me pareceu ouvir a Mary Poppins em ameno diálogo com o nosso querido bastonário tal é o ambiente idílico em que me sinto sempre que o ouço.
Sendo Bastonário, acredito piamente que não usa bastão, quanto muito uma varinha mágica, se isso não afectar a sua imagem varonil. Depois do bruto Xerife Lima é bom saber que temos um verdadeiro cavalheiro na Ordem, a apelar ao diálogo, lembrando-me esse outro gentleman dialogante António Guterres.
Não me haveis concedido o desejo de casar Ermengarda com António Guterres, concedei-me ao menos o Dr. Rogério.
Já me estou a imaginar, aos Domingos à tarde, a receber o Rogério e a Ermengarda, para o chá das cinco, acompanhados pelo Edmundo e pela Doroteia, petizes que serão certamente a luz dos meus olhos.
COMENTADORES E CONTESTAÇÕES FAST FOOD
A noite das Eleições Autárquicas foi para mim bastante hilariante, quase o equivalente a uma ganza bem esgalhada (se a memória não me falha).
Desde logo porque em termos pessoais e locais, as coisas correram exactamente como eu estava à espera (à excepção do resultado de um certo partido que se declarava vencedor e acabou por ficar em terceiro lugar) e não como outros esperavam. Os esgares de espanto e surpresa são efectivamente uma fonte de riso inesgotável.
O melhor estava reservado para o fim, ou como dizem alguns, para o rescaldo (a expressão faz-me lembrar comida requentada).
Os doutos comentadores mediáticos apresentaram uma explicação para a derrota do PS: um “cartão amarelo” ao Governo.
Esta explicação é ilógica, não estabelece nenhuma relação causa-efeito e carece de demonstração. Senão, vejamos.
Se o eleitorado tivesse querido mostrar o seu descontentamento perante a política do Governo, os maus resultados teriam sido generalizados. No Norte, no Sul e até no polylon. Ora, não foi isso que se verificou. A premissa que serve de base a esta conclusão afirma que “os maus resultados foram generalizados, excepto nos concelhos onde o valor pessoal dos candidatos minorou os danos”. Tenta-se estabelecer uma relação directa e necessária entre a apreciação do Governo e a tendência de voto local, mas não demonstrando, com factos, essa relação.
A autonomia das eleições e dos resultados locais fica demonstrada quando se verifica que por exemplo, o Partido Comunista obtém, no mesmo Concelho (por exemplo, no caso de Vila Franca de Xira), resultados completamente diferentes nas Eleições Autárquicas e nas Eleições Legislativas, o mesmo se passando com os outros Partidos do espectro político.
Pelos piores mas também pelos melhores motivos, as eleições locais são cada vez mais centradas no candidato e a sua filiação partidária é um factor secundário.
Achar que um adversário é pouco conhecido em termos nacionais, não só não diminui o visado, como também e sobretudo denota que o autor desta afirmação (o candidato do PSD à Câmara Municipal de Vila Franca de Xira), sendo um cientista político encartado, não percebe objectivamente nada de política.
A maior parte dos portugueses não sabe nem nunca ouviu falar de Maria Emília de Sousa (Já fez programas culinários na televisão? É aquela moça que apresenta os telejornais na SIC? Correu no Paris-Dakar? Apareceu na capa da FHM?), mas toda a gente a conhece em Almada, onde ganhou mais uma vez com maioria absoluta. E sistematicamente o PCP não ganha nas Eleições Legislativas naquele concelho. É preciso dizer mais alguma coisa?
O Portuga, esse animal pouco polido e tosco, pode não ter uma percepção sistemática da realidade, ser avesso a organização e desconfiar de tudo o que é diferente ou novo (ou então ficar embasbacado), mas tem um instinto de sobrevivência que só os menos civilizados possuem e sabe muito bem quem é o(a) Presidente de Câmara que lhe arranja as estradas, que leva os avós ao campo e os putos à praia e mesmo quando isso é feito de forma muito onerosa ou com desbaratamento dos meios, ele não se importa, porque imagina que “alguém há-de pagar”. Portanto sabe muito bem em quem é que vota e não confunde as coisas.
Qualquer extrapolação nacional dos resultados eleitorais é artificial e mesmo os chamados ciclos autárquicos são agregações das quais não se podem retirar grandes ilações.
O Partido Socialista perdeu estas eleições por várias razões e sobretudo na sequência da derrota de 2001. Porque não soube escolher bons candidatos e a prova disso é que muitos dos derrotados socialistas responsabilizaram o governo pela derrota, demonstrando que, de facto, eram péssimos candidatos.
Se isto é tão evidente, porque é que muitos dos comentadores políticos afirmaram o contrário?
Desde logo porque a rapidez da análise é, dado o timing dos media, mais importante que o seu conteúdo. Depois porque a maior parte dos comentadores não faz a mínima ideia do que é que se passa nos mais de 300 concelhos do País e de facto isso é irrelevante ou quase, para a análise nacional. É muito mais fácil e sobretudo mais rápido, dizer que o Governo levou um cartão amarelo, ou que foi penalizado, até porque quem olhar para o País pelo ecrán mágico pode ficar convencido que existe a chamada “contestação social”. Nos critérios dos meios de comunicação social (o tal poder sem sindicância) contestação social é tudo aquilo que faça barulho, ou proteste e fique bem na “fotografia”. Não interessa se a dita contestação não é generalizada, vertical e horizontalmente, se é produzida por uma única federação de corporações profissionais (o funcionalismo público, no qual me incluo, aliás) e se o resto do País, entre os milhões de trabalhadores de serviços (hipermercados, centros comerciais, serviços que funcionem 24 horas por dia) comércio e indústria não se veja contestação. A menos que eu esteja enganado e o conjunto de desempregados à porta de mais uma fábrica do Vale do Ave, enganados e sodomizados a preços abaixo do mercado possam ser metidos no mesmo “saco” de contestação social, o que seria obsceno.
Tenham juízo. E sobretudo vergonha.
Desde logo porque em termos pessoais e locais, as coisas correram exactamente como eu estava à espera (à excepção do resultado de um certo partido que se declarava vencedor e acabou por ficar em terceiro lugar) e não como outros esperavam. Os esgares de espanto e surpresa são efectivamente uma fonte de riso inesgotável.
O melhor estava reservado para o fim, ou como dizem alguns, para o rescaldo (a expressão faz-me lembrar comida requentada).
Os doutos comentadores mediáticos apresentaram uma explicação para a derrota do PS: um “cartão amarelo” ao Governo.
Esta explicação é ilógica, não estabelece nenhuma relação causa-efeito e carece de demonstração. Senão, vejamos.
Se o eleitorado tivesse querido mostrar o seu descontentamento perante a política do Governo, os maus resultados teriam sido generalizados. No Norte, no Sul e até no polylon. Ora, não foi isso que se verificou. A premissa que serve de base a esta conclusão afirma que “os maus resultados foram generalizados, excepto nos concelhos onde o valor pessoal dos candidatos minorou os danos”. Tenta-se estabelecer uma relação directa e necessária entre a apreciação do Governo e a tendência de voto local, mas não demonstrando, com factos, essa relação.
A autonomia das eleições e dos resultados locais fica demonstrada quando se verifica que por exemplo, o Partido Comunista obtém, no mesmo Concelho (por exemplo, no caso de Vila Franca de Xira), resultados completamente diferentes nas Eleições Autárquicas e nas Eleições Legislativas, o mesmo se passando com os outros Partidos do espectro político.
Pelos piores mas também pelos melhores motivos, as eleições locais são cada vez mais centradas no candidato e a sua filiação partidária é um factor secundário.
Achar que um adversário é pouco conhecido em termos nacionais, não só não diminui o visado, como também e sobretudo denota que o autor desta afirmação (o candidato do PSD à Câmara Municipal de Vila Franca de Xira), sendo um cientista político encartado, não percebe objectivamente nada de política.
A maior parte dos portugueses não sabe nem nunca ouviu falar de Maria Emília de Sousa (Já fez programas culinários na televisão? É aquela moça que apresenta os telejornais na SIC? Correu no Paris-Dakar? Apareceu na capa da FHM?), mas toda a gente a conhece em Almada, onde ganhou mais uma vez com maioria absoluta. E sistematicamente o PCP não ganha nas Eleições Legislativas naquele concelho. É preciso dizer mais alguma coisa?
O Portuga, esse animal pouco polido e tosco, pode não ter uma percepção sistemática da realidade, ser avesso a organização e desconfiar de tudo o que é diferente ou novo (ou então ficar embasbacado), mas tem um instinto de sobrevivência que só os menos civilizados possuem e sabe muito bem quem é o(a) Presidente de Câmara que lhe arranja as estradas, que leva os avós ao campo e os putos à praia e mesmo quando isso é feito de forma muito onerosa ou com desbaratamento dos meios, ele não se importa, porque imagina que “alguém há-de pagar”. Portanto sabe muito bem em quem é que vota e não confunde as coisas.
Qualquer extrapolação nacional dos resultados eleitorais é artificial e mesmo os chamados ciclos autárquicos são agregações das quais não se podem retirar grandes ilações.
O Partido Socialista perdeu estas eleições por várias razões e sobretudo na sequência da derrota de 2001. Porque não soube escolher bons candidatos e a prova disso é que muitos dos derrotados socialistas responsabilizaram o governo pela derrota, demonstrando que, de facto, eram péssimos candidatos.
Se isto é tão evidente, porque é que muitos dos comentadores políticos afirmaram o contrário?
Desde logo porque a rapidez da análise é, dado o timing dos media, mais importante que o seu conteúdo. Depois porque a maior parte dos comentadores não faz a mínima ideia do que é que se passa nos mais de 300 concelhos do País e de facto isso é irrelevante ou quase, para a análise nacional. É muito mais fácil e sobretudo mais rápido, dizer que o Governo levou um cartão amarelo, ou que foi penalizado, até porque quem olhar para o País pelo ecrán mágico pode ficar convencido que existe a chamada “contestação social”. Nos critérios dos meios de comunicação social (o tal poder sem sindicância) contestação social é tudo aquilo que faça barulho, ou proteste e fique bem na “fotografia”. Não interessa se a dita contestação não é generalizada, vertical e horizontalmente, se é produzida por uma única federação de corporações profissionais (o funcionalismo público, no qual me incluo, aliás) e se o resto do País, entre os milhões de trabalhadores de serviços (hipermercados, centros comerciais, serviços que funcionem 24 horas por dia) comércio e indústria não se veja contestação. A menos que eu esteja enganado e o conjunto de desempregados à porta de mais uma fábrica do Vale do Ave, enganados e sodomizados a preços abaixo do mercado possam ser metidos no mesmo “saco” de contestação social, o que seria obsceno.
Tenham juízo. E sobretudo vergonha.
9/14/2005
POWER RANGERS
A “inteligentsia” nacional tem um certo prazer cínico em comparar Portugal com outros países da União Europeia que como nós, já estiveram na dita cauda. Ciclicamente o país de comparação vai mudando, seja porque deixa definitivamente a extremidade da esfinge ou porque aparece um outro país que, na mente cartesiana de alguns, permite uma melhor comparação. Há 20 anos a comparação era feita com Espanha, ontem com a Irlanda, hoje com a Finlândia e amanhã com a Eslovénia.
Por exemplo, acentuamos, com aquele ar de desesperado e descrença tão típico, que tanto a Irlanda como a Finlândia investiram na educação e na formação profissional por um lado e nas indústrias tecnologicamente avançadas, por outro.
No entanto ninguém esclarece o que é que irlandeses e finlandeses não fizeram.
Enquanto que a Irlanda e a Finlândia gastam, respectivamente 1 e 2% do seu Orçamento em despesas militares, nós gastamos 5%, mas pasme-se, ou talvez não, temos umas Forças Armadas com equipamentos obsoletos. Em termos de P.I.B., nós gastamos 2,3%, enquanto que os irlandeses gastam 0,9% e os finlandeses 2% (www.nationmaster.com e CIA – The World Factbook).
Nem o facto de termos terminado o último conflito militar há pouco mais de 30 anos explica tudo, porque a Finlândia viveu anos e anos com a Mãe Rússia insinuando-se por cima do seu ombro e a Irlanda ainda vive com o problema do Ulster.
Pelo menos desde 1982 as Forças Armadas desempenham apenas o papel que lhes cabe num Estado Europeu e Democrático mas toda a gente continua a assobiar para o lado, quando confrontada com a diferença entre a utilidade para o País e o custo das Forças Armadas.
O mais absurdo é que esta situação, de forças militares sem equipamentos, de quartéis a degradarem-se e com elevados custos de manutenção, é indigna para o País e para os próprios militares.
As Forças Armadas Portuguesas devem ser constituídas por corpos capazes de resgatarem portugueses em casos de conflitos internos noutros países (pese embora o Tratado da União Europeia torne essa missão menos essencial), de protegerem em termos ambientais a costa e de participarem nas missões de paz da O.N.U.. Para isso não são necessários mais de 40.000 efectivos, mas um número muito menor, mas bem equipado e bem treinado.
Não me move nenhum preconceito anti-militarista nem proponho qualquer solução radical. Não basta dizer “Nem mais um homem (ou uma mulher) para as Forças Armadas!”. Por essa via, daqui a 30 anos os equipamentos mais necessários seriam cadeiras de rodas e canadianas.
É sempre difícil alterar uma oligarquia e muito mais ainda uma oligarquia militar e num País como Portugal, não só não é possível fazê-lo rapidamente, como não é desejável. A questão é que não se vê uma estratégia, não se percebe um caminho claro.
Não temos mais guerras, mas continuamos a brincar aos soldadinhos.
O problema é que a brincadeira não é sustentada pelo Pai Natal, mas pelos contribuintes.
Por exemplo, acentuamos, com aquele ar de desesperado e descrença tão típico, que tanto a Irlanda como a Finlândia investiram na educação e na formação profissional por um lado e nas indústrias tecnologicamente avançadas, por outro.
No entanto ninguém esclarece o que é que irlandeses e finlandeses não fizeram.
Enquanto que a Irlanda e a Finlândia gastam, respectivamente 1 e 2% do seu Orçamento em despesas militares, nós gastamos 5%, mas pasme-se, ou talvez não, temos umas Forças Armadas com equipamentos obsoletos. Em termos de P.I.B., nós gastamos 2,3%, enquanto que os irlandeses gastam 0,9% e os finlandeses 2% (www.nationmaster.com e CIA – The World Factbook).
Nem o facto de termos terminado o último conflito militar há pouco mais de 30 anos explica tudo, porque a Finlândia viveu anos e anos com a Mãe Rússia insinuando-se por cima do seu ombro e a Irlanda ainda vive com o problema do Ulster.
Pelo menos desde 1982 as Forças Armadas desempenham apenas o papel que lhes cabe num Estado Europeu e Democrático mas toda a gente continua a assobiar para o lado, quando confrontada com a diferença entre a utilidade para o País e o custo das Forças Armadas.
O mais absurdo é que esta situação, de forças militares sem equipamentos, de quartéis a degradarem-se e com elevados custos de manutenção, é indigna para o País e para os próprios militares.
As Forças Armadas Portuguesas devem ser constituídas por corpos capazes de resgatarem portugueses em casos de conflitos internos noutros países (pese embora o Tratado da União Europeia torne essa missão menos essencial), de protegerem em termos ambientais a costa e de participarem nas missões de paz da O.N.U.. Para isso não são necessários mais de 40.000 efectivos, mas um número muito menor, mas bem equipado e bem treinado.
Não me move nenhum preconceito anti-militarista nem proponho qualquer solução radical. Não basta dizer “Nem mais um homem (ou uma mulher) para as Forças Armadas!”. Por essa via, daqui a 30 anos os equipamentos mais necessários seriam cadeiras de rodas e canadianas.
É sempre difícil alterar uma oligarquia e muito mais ainda uma oligarquia militar e num País como Portugal, não só não é possível fazê-lo rapidamente, como não é desejável. A questão é que não se vê uma estratégia, não se percebe um caminho claro.
Não temos mais guerras, mas continuamos a brincar aos soldadinhos.
O problema é que a brincadeira não é sustentada pelo Pai Natal, mas pelos contribuintes.
9/01/2005
CARTA ABERTA
Ex.mo Senhor Director do S.I.S
Mesmo tendo em conta que a nossa participação na invasão do Iraque se limitou a um café nas ilhas e a um passeio no deserto com carripanas emprestadas e que nesse sentido os terroristas não olham para Lisboa como um alvo preferencial, sei que o serviço que V.Ex.a dirige está atento a todas as movimentações suspeitas no nosso país e até na ilha da Madeira e tendo eu uma fisionomia que nesta altura do ano, faz com que me confundam facilmente com um árabe, venho pela presente informar que não tenho qualquer simpatia por terroristas. Aliás, o único “terrorista” a quem me mantenho atento é ao Dr. Vasco Pulido Valente.
No caso de receber alguma denúncia anónima sobre as minhas pretensas actividades terroristas, deixe-me informá-lo desde já que certamente se trata de algum vizinho incomodado com a música que ouço, mas garanto-lhe que a senhora que debita lamentos não é árabe, chama-se Elizabeth Fraser, “bifa” dos sete costados, acompanhada por mais dois tipos que embora possam parecer bizarros, são tão britânicos como a Dona Liz. E se o som por vezes está um bocado alto é porque anos e anos de concertos me deixaram os tímpanos numa miséria.
Se tem neste momento sobre a sua mesa um minucioso relatório das minhas actividades quotidianas, informo-o que “o intenso cheiro a caril” aí referido se deve ao apreço que, desde uma relação amorosa passada, tenho por essa especiaria. Assim como a “pasta que o sujeito transporta constantemente” nada contém que seja susceptível de ser usado num ataque terrorista. Maços de tabaco, caixas de pastilhas, preservativos que nunca chego a usar, folhas com rabiscos que nunca chego a publicar, contas que me esqueço de pagar. É apenas um tique de suburbano pretensioso. “O barulho de objectos a caírem durante a noite” – sublinhado a negrito no relatório, é o resultado da actividade predadora da Okocha, felídeo que, incitada por mim, persegue tudo quando tenha asas e faça zum.
E como os abnegados servidores dessa prestigiada instituição certamente lhe transmitirão, os meus amigos são na sua maioria putos suburbanos como eu que cresceram a ouvir Xutos & Pontapés e a terem fantasias eróticas com as professoras (ou professores, conforme o género e o gosto) e que hoje em dia as únicas relações com estrangeiros que mantêm não passam para lá de Kiev, têm lugar em bares cheios de fumo e a conversa anda invariavelmente à volta de coisas bem mais mundanas que a derrota ideológica e civilizacional do Ocidente.
Certamente que o correcto e aprumado relatório fará referência à correspondência que recebo e aos sites que visito. Confesso que ao abrir as cartas da Portugal Telecom me sinto tentando a colocar uma bomba ou a disparar um rocket, mas tudo não passa de um devaneio momentâneo, Sr. Director, asseguro-lhe. Quanto à navegação on-line, facilmente me pode arrumar naquele conjunto de bons pais de família, que de click em click, ora procuram, com uma curiosidade quase infantil, averiguar a autenticidade de certos dotes físicos de vedetas do cinema e televisão, ora tentam desesperadamente engatar teenagers nas salas de chat.
Esperando ter contribuído para que a actividade desse serviço seja cada vez mais eficaz e eficiente e sem outro assunto de momento, queira V.Ex.a aceitar os meus melhores cumprimentos patrióticos.
Saudações securitárias
Mesmo tendo em conta que a nossa participação na invasão do Iraque se limitou a um café nas ilhas e a um passeio no deserto com carripanas emprestadas e que nesse sentido os terroristas não olham para Lisboa como um alvo preferencial, sei que o serviço que V.Ex.a dirige está atento a todas as movimentações suspeitas no nosso país e até na ilha da Madeira e tendo eu uma fisionomia que nesta altura do ano, faz com que me confundam facilmente com um árabe, venho pela presente informar que não tenho qualquer simpatia por terroristas. Aliás, o único “terrorista” a quem me mantenho atento é ao Dr. Vasco Pulido Valente.
No caso de receber alguma denúncia anónima sobre as minhas pretensas actividades terroristas, deixe-me informá-lo desde já que certamente se trata de algum vizinho incomodado com a música que ouço, mas garanto-lhe que a senhora que debita lamentos não é árabe, chama-se Elizabeth Fraser, “bifa” dos sete costados, acompanhada por mais dois tipos que embora possam parecer bizarros, são tão britânicos como a Dona Liz. E se o som por vezes está um bocado alto é porque anos e anos de concertos me deixaram os tímpanos numa miséria.
Se tem neste momento sobre a sua mesa um minucioso relatório das minhas actividades quotidianas, informo-o que “o intenso cheiro a caril” aí referido se deve ao apreço que, desde uma relação amorosa passada, tenho por essa especiaria. Assim como a “pasta que o sujeito transporta constantemente” nada contém que seja susceptível de ser usado num ataque terrorista. Maços de tabaco, caixas de pastilhas, preservativos que nunca chego a usar, folhas com rabiscos que nunca chego a publicar, contas que me esqueço de pagar. É apenas um tique de suburbano pretensioso. “O barulho de objectos a caírem durante a noite” – sublinhado a negrito no relatório, é o resultado da actividade predadora da Okocha, felídeo que, incitada por mim, persegue tudo quando tenha asas e faça zum.
E como os abnegados servidores dessa prestigiada instituição certamente lhe transmitirão, os meus amigos são na sua maioria putos suburbanos como eu que cresceram a ouvir Xutos & Pontapés e a terem fantasias eróticas com as professoras (ou professores, conforme o género e o gosto) e que hoje em dia as únicas relações com estrangeiros que mantêm não passam para lá de Kiev, têm lugar em bares cheios de fumo e a conversa anda invariavelmente à volta de coisas bem mais mundanas que a derrota ideológica e civilizacional do Ocidente.
Certamente que o correcto e aprumado relatório fará referência à correspondência que recebo e aos sites que visito. Confesso que ao abrir as cartas da Portugal Telecom me sinto tentando a colocar uma bomba ou a disparar um rocket, mas tudo não passa de um devaneio momentâneo, Sr. Director, asseguro-lhe. Quanto à navegação on-line, facilmente me pode arrumar naquele conjunto de bons pais de família, que de click em click, ora procuram, com uma curiosidade quase infantil, averiguar a autenticidade de certos dotes físicos de vedetas do cinema e televisão, ora tentam desesperadamente engatar teenagers nas salas de chat.
Esperando ter contribuído para que a actividade desse serviço seja cada vez mais eficaz e eficiente e sem outro assunto de momento, queira V.Ex.a aceitar os meus melhores cumprimentos patrióticos.
Saudações securitárias
8/18/2005
As primeiras impressões que temos sobre um determinado assunto, influenciam a nossa visão sobre esse mesmo assunto, se não de forma determinante, pelo menos de forma condicionante. Quando mais cedo, em termos de conhecimento, essa informação for adquirida, mais basilar se torna. Só assim se explica que muita gente continue a ter Marx como a referência. O mérito não é tanto do conteúdo, mas mais da precedência.
Felizmente que o meu primeiro contacto com a política e a sociedade foi feito através de José Vilhena. Com a vantagem de vir acompanhado de sugestivas ilustrações.
Felizmente que o meu primeiro contacto com a política e a sociedade foi feito através de José Vilhena. Com a vantagem de vir acompanhado de sugestivas ilustrações.
8/09/2005
THE SILLY SEASON CHRONICLES
Faaa, Tahiti, Polinésia Francesa, 28 de Julho de 2005
Caros Leitores,
Confesso que não tenho a mais pequena vontade de escrever esta crónica. Só o faço porque a Administração da empresa que controla O Triângulo cumpriu a sua parte no acordo (isto é, pagaram-me integralmente 20 dias de férias no Tahiti) e eu sinto-me obrigado a cumprir a minha (20/25 linhas quinzenalmente).
Demorei quase dois dias a perceber que a cara de espanto da jovem nativa que me serve derivava dos meus gestos apressados e bruscos. Da forma como ataco a comida, como inalo o fumo do cigarro, de como transformo o mais simples gesto num letal golpe de artes marciais. Lentamente habituei-me aos movimentos de gravidade zero, ao gnomo strauss que atrás da orelha me pede que abrande.
Nos primeiros dias senti uma náusea constante, que como me explicou o médico local, se devia à ausência de semáforos. “O seu cérebro sente a ausência do verde e do vermelho, a sua adrenalina dorme cândida sem a emoção do amarelo. Asemaforite.” Diagnosticou. “Vai ver que lhe passa.”
Ainda não estou completamente curado e sempre que vejo Herr Hans, um enorme alemão que invariavelmente se dirige ao restaurante, ponho-me ao seu lado e ultrapasso-o, sem conseguir evitar que o meu braço direito simule uma redução de caixa e que as minhas pernas acelerem, enquanto o cumprimento, com ar de sacana.
Desperto por partes, cinturão negro de preguiça, encaminho-me para o espelho, sorrindo, com a serenidade de quem não tem que se escanhoar.
Observo, com complacência, a minha pele a escurecer enquanto faço zapping entre uma nativa que invariavelmente sorri e um crustáceo que se rebola na areia, beberricando cocktails coloridos e light. Ao fim da tarde já não sei se a CREL é uma estrada que liga subúrbios de Lisboa ou uma das personagens do Dragon Ball. O meu pico de ponderação é a escolha da refeição nocturna, ao som de uma música que parece desvanecer-se para logo se voltar a agitar. Por essa altura a CREL, a CRIL, o POLIS ou o FEDER são-me completamente estranhos e quando me surgem no cérebro fico convencido que fui raptado por extraterrestres, que esses sons são resquícios do que ouvi a bordo da nave espacial.
Pego no lápis com a modorra de quem passa os dias na horizontal, gozando os dedos invisíveis de um vento cálido, tentando cumprir a minha parte do acordo, mas limito-me a fazer rabiscos sem sentido.
O Carlos Cardoso e o Alfredo Vieira que me desculpem. Quando voltar, comprometo-me a escrever dez crónicas de seguida, que hoje germinam num recanto inacessível do meu cérebro, mas para já deixem-me dormitar nesta praia onde o som quase indelével do mar não corrompe o silêncio das coisas.
Saudações Polinésias
Caros Leitores,
Confesso que não tenho a mais pequena vontade de escrever esta crónica. Só o faço porque a Administração da empresa que controla O Triângulo cumpriu a sua parte no acordo (isto é, pagaram-me integralmente 20 dias de férias no Tahiti) e eu sinto-me obrigado a cumprir a minha (20/25 linhas quinzenalmente).
Demorei quase dois dias a perceber que a cara de espanto da jovem nativa que me serve derivava dos meus gestos apressados e bruscos. Da forma como ataco a comida, como inalo o fumo do cigarro, de como transformo o mais simples gesto num letal golpe de artes marciais. Lentamente habituei-me aos movimentos de gravidade zero, ao gnomo strauss que atrás da orelha me pede que abrande.
Nos primeiros dias senti uma náusea constante, que como me explicou o médico local, se devia à ausência de semáforos. “O seu cérebro sente a ausência do verde e do vermelho, a sua adrenalina dorme cândida sem a emoção do amarelo. Asemaforite.” Diagnosticou. “Vai ver que lhe passa.”
Ainda não estou completamente curado e sempre que vejo Herr Hans, um enorme alemão que invariavelmente se dirige ao restaurante, ponho-me ao seu lado e ultrapasso-o, sem conseguir evitar que o meu braço direito simule uma redução de caixa e que as minhas pernas acelerem, enquanto o cumprimento, com ar de sacana.
Desperto por partes, cinturão negro de preguiça, encaminho-me para o espelho, sorrindo, com a serenidade de quem não tem que se escanhoar.
Observo, com complacência, a minha pele a escurecer enquanto faço zapping entre uma nativa que invariavelmente sorri e um crustáceo que se rebola na areia, beberricando cocktails coloridos e light. Ao fim da tarde já não sei se a CREL é uma estrada que liga subúrbios de Lisboa ou uma das personagens do Dragon Ball. O meu pico de ponderação é a escolha da refeição nocturna, ao som de uma música que parece desvanecer-se para logo se voltar a agitar. Por essa altura a CREL, a CRIL, o POLIS ou o FEDER são-me completamente estranhos e quando me surgem no cérebro fico convencido que fui raptado por extraterrestres, que esses sons são resquícios do que ouvi a bordo da nave espacial.
Pego no lápis com a modorra de quem passa os dias na horizontal, gozando os dedos invisíveis de um vento cálido, tentando cumprir a minha parte do acordo, mas limito-me a fazer rabiscos sem sentido.
O Carlos Cardoso e o Alfredo Vieira que me desculpem. Quando voltar, comprometo-me a escrever dez crónicas de seguida, que hoje germinam num recanto inacessível do meu cérebro, mas para já deixem-me dormitar nesta praia onde o som quase indelével do mar não corrompe o silêncio das coisas.
Saudações Polinésias
5/23/2005
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