Não é preciso ser economista para responder a esta pergunta. O bom senso aconselha aliás que não se seja economista para responder a esta pergunta. O cidadão comum tem um conjunto de ideias mal alinhavadas sobre a realidade e não repara na incongruência das suas próprias ideias, nem sequer as tenta conjugar. O economista, pelo contrário, está preso a uma estrita racionalidade. Se for intelectualmente sério não conseguirá responder a esta pergunta. E nós não queremos estabelecer uma ponte aérea entre as escolas de economia e o Miguel Bombarda.
Depois do “orgulhosamente sós”, passámos a acreditar na tese do desenvolvimento. Reza assim: nós somos mais atrasados que a Suécia, que a Noruega ou mesmo que a Espanha, mas isso não é uma fatalidade. Para lá chegarmos só temos que trabalhar mais e melhor, ser mais competitivos. E lançam-se exemplos: a Irlanda, a Finlândia e não tarda nada a Estónia. Existem tipos, profissionalmente licenciados para tal, que estudam com minúcia de filigrana os exemplos citados e que decretam: temos que fazer assim ou assado, investir nisto e naquilo. Cometem um erro de base e que torna inútil toda a sua dedicação ao estudo desses exemplos. Uma chita será sempre mais rápida do que um boi, por muito peso que o boi perca, por muito aerodinâmico que se torne. Isto não significa que o boi seja inútil. Pelo menos marra melhor.
Isto é, não serve para nada estudar e conhecer minuciosamente a Irlanda ou a Finlândia, porque nós não somos finlandeses nem nunca vamos ser. Vamos ser aquilo que sempre fomos: bois mansarrões.
E no dia em que nós nos tornarmos bois-chita, já a chita ganhou um motor turbocomprimido. No dia em que chegarmos ao nível de desenvolvimento da Noruega, já os Noruegueses chegaram a outro nível. Quando chegarmos à lua, já a Suécia estará em Neptuno.
Ora, do que é que nós gostamos? Gostamos por exemplo, de bater recordes. O maior croquete, o maior pão, a maior taxa de alcoolemia, o maior bigode, etc.. Isto é, em termos de mercado, um produto vendável. Já estou a imaginar hordas de reformados holandeses e alemães a visitarem Barcelos para assistirem à construção do maior galo do Mundo feito com paus de fósforo, para de um palanque na Marginal de Cascais, cumprindo todas as normas de segurança europeias, assistirem, com esgares de espanto, ao fittipaldi que há em todos nós, para presenciarem, incrédulos, de iogurte light nas pouchettes, o XIV Concurso de Comedores de Cozido à Portuguesa.
Só precisamos de estabelecer um mínimo de organização e de método, o que desde que corremos com os judeus se tornou um problema. Mas basta irmos a uma dessas obras públicas que não servem para nada e contratarmos dois ou três ucranianos.
Nós não percebemos absolutamente nada de componentes electrónicos, software ou produção em massa. Não temos qualquer tradição industrial. Os últimos 50 anos foram uma violentação do nosso espírito campestre e rural. A “industrialização” do País criou operários medíocres e contrariados. Nós não somos verdadeiramente bons em quase nada. Somos bons a produzir vinho, chouriços, petiscos e rolhas, que servem para pôr nas garrafas de vinho. Nunca vamos ser competitivos em matérias que não conhecemos e sobre as quais levamos um atraso de décadas.
Por isso, mais vale aceitarmos a nossa natureza e tentarmos melhorá-la, sem a desvirtuarmos.
E fazermos o favor de ser felizes.