5/20/2005

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5/03/2005

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5/02/2005

PORTUGAL: QUE FUTURO?

Não é preciso ser economista para responder a esta pergunta. O bom senso aconselha aliás que não se seja economista para responder a esta pergunta. O cidadão comum tem um conjunto de ideias mal alinhavadas sobre a realidade e não repara na incongruência das suas próprias ideias, nem sequer as tenta conjugar. O economista, pelo contrário, está preso a uma estrita racionalidade. Se for intelectualmente sério não conseguirá responder a esta pergunta. E nós não queremos estabelecer uma ponte aérea entre as escolas de economia e o Miguel Bombarda.

Depois do “orgulhosamente sós”, passámos a acreditar na tese do desenvolvimento. Reza assim: nós somos mais atrasados que a Suécia, que a Noruega ou mesmo que a Espanha, mas isso não é uma fatalidade. Para lá chegarmos só temos que trabalhar mais e melhor, ser mais competitivos. E lançam-se exemplos: a Irlanda, a Finlândia e não tarda nada a Estónia. Existem tipos, profissionalmente licenciados para tal, que estudam com minúcia de filigrana os exemplos citados e que decretam: temos que fazer assim ou assado, investir nisto e naquilo. Cometem um erro de base e que torna inútil toda a sua dedicação ao estudo desses exemplos. Uma chita será sempre mais rápida do que um boi, por muito peso que o boi perca, por muito aerodinâmico que se torne. Isto não significa que o boi seja inútil. Pelo menos marra melhor.

Isto é, não serve para nada estudar e conhecer minuciosamente a Irlanda ou a Finlândia, porque nós não somos finlandeses nem nunca vamos ser. Vamos ser aquilo que sempre fomos: bois mansarrões.

E no dia em que nós nos tornarmos bois-chita, já a chita ganhou um motor turbocomprimido. No dia em que chegarmos ao nível de desenvolvimento da Noruega, já os Noruegueses chegaram a outro nível. Quando chegarmos à lua, já a Suécia estará em Neptuno.

Ora, do que é que nós gostamos? Gostamos por exemplo, de bater recordes. O maior croquete, o maior pão, a maior taxa de alcoolemia, o maior bigode, etc.. Isto é, em termos de mercado, um produto vendável. Já estou a imaginar hordas de reformados holandeses e alemães a visitarem Barcelos para assistirem à construção do maior galo do Mundo feito com paus de fósforo, para de um palanque na Marginal de Cascais, cumprindo todas as normas de segurança europeias, assistirem, com esgares de espanto, ao fittipaldi que há em todos nós, para presenciarem, incrédulos, de iogurte light nas pouchettes, o XIV Concurso de Comedores de Cozido à Portuguesa.

Só precisamos de estabelecer um mínimo de organização e de método, o que desde que corremos com os judeus se tornou um problema. Mas basta irmos a uma dessas obras públicas que não servem para nada e contratarmos dois ou três ucranianos.

Nós não percebemos absolutamente nada de componentes electrónicos, software ou produção em massa. Não temos qualquer tradição industrial. Os últimos 50 anos foram uma violentação do nosso espírito campestre e rural. A “industrialização” do País criou operários medíocres e contrariados. Nós não somos verdadeiramente bons em quase nada. Somos bons a produzir vinho, chouriços, petiscos e rolhas, que servem para pôr nas garrafas de vinho. Nunca vamos ser competitivos em matérias que não conhecemos e sobre as quais levamos um atraso de décadas.

Por isso, mais vale aceitarmos a nossa natureza e tentarmos melhorá-la, sem a desvirtuarmos.

E fazermos o favor de ser felizes.

O FLÁVIO E A TÂNIA

Venho hoje falar-vos do Flávio e da Tânia, que podiam ser meus vizinhos. Bem, meus vizinhos exactamente não, porque vivo num prédio que se afasta dos cânones “modernos”. O soalho não é flutuante, não tenho lareira nem jacuzzi.

O Flávio e a Tânia casaram-se há pouco tempo. Conhecem-se desde o liceu. O Flávio era um razoável jogador de bola, mas o insuficiente para fazer disso carreira. A Tânia sonhava em ser psicóloga desde a adolescência e o porquê dessa aspiração era precisamente uma das razões para tirar o curso. O Flávio fez meia dúzia de disciplinas do 10º ano enquanto a Tânia conseguiu tirar o seu curso de psicologia.

O Flávio, perante a impossibilidade de ser jogador de bola, viu-se na iminência de ir trabalhar para a fábrica do Sr. Gonçalves, amigo do pai. Começou por embalar shampoos, mas talvez porque é o que se chama um tipo vivaço ou porque ainda não estava narcotizado pelo cheiro dos detergentes, foi ganhando a confiança do Sr. Gonçalves, entre felicitações pelos golos que deixavam o patrão marcar, nas peladinhas de sábado de manhã, incursões devidamente projectadas ao escritório e “serões” nos dias em que o tipo também ficava. À borla, claro. O Flávio é hoje o responsável pela distribuição dos shampoos, tem um carrinho que lhe foi dado pela empresa e o fato e a gravata, assentam-lhe, apesar de tudo, razoavelmente bem.

A Tânia perdeu todas as ilusões sobre psicologia no 2º ano. Conseguiu arranjar um trabalho de secretária na empresa da mãe, onde com pânico dificilmente contido percebeu toda a sua ignorância, nos primeiros dias de trabalho. Miúda inteligente, compreendeu com a necessária rapidez que a sua progressão na carreira dependia mais do ciclo menstrual da Gaby (a sua cabeleireira, manicure e omnicure de sempre) que de quaisquer manuais de gestão de empresas. Habituou-se ao papel de bibelot eventualmente eficiente e ao suor frio dos clientes confrontados de chofre com a sua depilação exemplar.

Estão na fase do suporta-se razoavelmente. A Tânia suporta razoavelmente a limitação intelectual do Flávio, passado que foi o tempo do encanto com o “Bom Selvagem” e as suas explosões de testosterona às 5 da manhã na 24 de Julho. O Flávio suporta razoavelmente o ar presunçoso da Tânia, passado que foi o tempo da “miúda com estilo”. Hoje o estilo destila-se em zonas onde não se devia destilar.

Têm tudo o que um casal jovem precisa: o jipe, o televisor com o nome acabado em tron, já foram a Porto Galinhas e à República Dominicana, mudam de casa de 3 em 3 anos; Substituíram a avidez dos seus pais por batedoras e fornos eléctricos pela compra desaustinada de hi-fi e jacuzzis, seguindo assim o lento trajecto das aspirações da classe média: da cozinha para a sala e desta para a casa-de-banho.

O mundo começou para eles com o D’Artacão e com o País a caminho do progresso do Prof. Cavaco. Acreditaram piamente nisso, no Natal, no carro novo do pai, nos hipermercados, nos computadores, na Expo. Sentiram-se maravilhosamente com as teorias pedagógicas que tornaram a sua adolescência fresca e carefree. Não ligam a política mas gostam de tipos decididos e com “ideias”. Gostam da democracia liberal no Colombo mas não se importavam com um Estado autoritário sempre que ficam presos na A1. Não compreendem como é que “não se fazem as coisas” quando eles pagam “os impostos”.

Quando o Sr. Pinto Magalhães morrer, o seu filho vai provavelmente vender “o escritório” e a Tânia sente-se preocupada, ponderando, entre dois ferrero rocher, sobre o que é que vai fazer a seguir. O Flávio, mais ignorante e despreocupado, sonha em montar uma loja de tunning, mas está convencido que a “Gonçalves & Ramos” vai durar por muitos e bons anos e que ele vai chegar a braço-direito do Gonçalves, até porque o Gonçalves “tem muito dinheiro”.

Como nunca conheceram outro, acham que este seu mundo é eterno, que em momentos de crise podem não conseguir mudar de carro de 3 em 3 anos, que se calhar vão ter que ficar na mesma casa mais do que 5.

Nunca ninguém lhes explicou que há apenas 40 anos a classe média portuguesa a que pertencem era proporcionalmente menor e que nada prova que a subida de qualidade de vida seja estrutural, pelo contrário, parece ter pequenos pezinhos de barro e que portanto, pode esboroar-se; nunca ninguém lhes explicou que não existem mundos com benefícios e sem custos. No dia em que o Flávio e a Tânia não conseguirem trocar de carro de 3 em 3 anos, nem sequer de 5 em 5, o mundo escurece, o Colombo vai tornar-se odioso e o D’Artacão vai parecer um boneco irritante. Mas é só o princípio.