11/16/2004
11/12/2004
BARBIE & KEN
Recordo agora aqueles tempos
dos beijos desajeitados no cinema
e depois a assimilação mútua
pressionada por qualquer coacção
obscura, vagamente identificável
com tópicos de maturidade
e depois o receio roendo
as nossas últimas defesas
os últimos actos de amor verdadeiro
e depois abruptamente o inchaço
e o resultado débil e hilariante
berrando entre tempestades nocturnas de whisky
e o olhar de caridade e estupefacção
dos que resistiam ainda, encarando-nos
como estranhos
e a tua carne tornou-se disforme
os teus seios flácidos e as tuas
mãos sem o tacto de outrora
apesar dos cremes de noite, de dia,
após o banho, os comprimidos
antes das refeições, ás cápsulas
miraculosas, mil merdas
de efeito de teatro.
E como ficas aberrante de avental
sempre com esse sorriso de manequim
tornaste-te funcional com múltiplas
variantes, chego a confundir-te com
os electrodomésticos da moulinex.
Recordo agora aqueles tempos
em que ainda sabíamos ou podíamos
dizer não.
Aqui sentado, olhando o écran
com o aspecto
duma alforreca jazendo á beira
do mar.
Recordo agora aqueles tempos
dos beijos desajeitados no cinema
e depois a assimilação mútua
pressionada por qualquer coacção
obscura, vagamente identificável
com tópicos de maturidade
e depois o receio roendo
as nossas últimas defesas
os últimos actos de amor verdadeiro
e depois abruptamente o inchaço
e o resultado débil e hilariante
berrando entre tempestades nocturnas de whisky
e o olhar de caridade e estupefacção
dos que resistiam ainda, encarando-nos
como estranhos
e a tua carne tornou-se disforme
os teus seios flácidos e as tuas
mãos sem o tacto de outrora
apesar dos cremes de noite, de dia,
após o banho, os comprimidos
antes das refeições, ás cápsulas
miraculosas, mil merdas
de efeito de teatro.
E como ficas aberrante de avental
sempre com esse sorriso de manequim
tornaste-te funcional com múltiplas
variantes, chego a confundir-te com
os electrodomésticos da moulinex.
Recordo agora aqueles tempos
em que ainda sabíamos ou podíamos
dizer não.
Aqui sentado, olhando o écran
com o aspecto
duma alforreca jazendo á beira
do mar.
A ESTRANHA VIDA DE UM GNOMO
Trimmmmmmm!
ploc
ploc
pós sono choque
abandono a suspensão
splash
guache habituel
desenhos a pastel
dou retoque
com o meu pincel
blábláblábláblá
pandoras
a todas as horas
oláoláoláoláolá
tictactictactictactictac
vruuuuns já comuns
dialéctica
estranha fonética
aqui estou
sem o meu corpo robot
que a depressão tensão desactivou
Trimmmmmmm!
ploc
ploc
pós sono choque
abandono a suspensão
splash
guache habituel
desenhos a pastel
dou retoque
com o meu pincel
blábláblábláblá
pandoras
a todas as horas
oláoláoláoláolá
tictactictactictactictac
vruuuuns já comuns
dialéctica
estranha fonética
aqui estou
sem o meu corpo robot
que a depressão tensão desactivou
CAPITÃO ZIG ZAG
Ora muito bom dia
sou o Capitão Zig Zag
super-homem camuflado
de gravata e sapato engraxado
Sou aquele em que ninguém repara
sou aquele que possui uma plena empatia
com a complicada simbologia
que torna a nossa vida menos clara
Sou um fenómeno nunca televisionado
um batedor de recordes nunca registados
sou um herói marginalizado
Ora muito bom dia
sou o Capitão Zig Zag
até ao momento
em que alguém me esmague
Ora muito bom dia
sou o Capitão Zig Zag
super-homem camuflado
de gravata e sapato engraxado
Sou aquele em que ninguém repara
sou aquele que possui uma plena empatia
com a complicada simbologia
que torna a nossa vida menos clara
Sou um fenómeno nunca televisionado
um batedor de recordes nunca registados
sou um herói marginalizado
Ora muito bom dia
sou o Capitão Zig Zag
até ao momento
em que alguém me esmague
A SERPENTE ADORMECIDA
Durante mais de 10 anos, vários especialistas em urbanismo e ordenamento do território compilaram e sistematizaram dados e formularam propostas sobre a Área Metropolitana de Lisboa.
Nesse trabalho, formalizado no PROT-AML (Plano Regional de Ordenamento do Território da Área Metropolitana de Lisboa), os autores desenharam sobre o mapa da área, um par de cornos a negro (desculpem a linguagem, mas sou ribatejano de alma), a partir da cabeça-Lisboa. Um desses cornos é precisamente o eixo Sacavém-Vila Franca de Xira.
Com todo o respeito, basta entrar no IC2, vindo de Lisboa, para qualquer pessoa perceber empiricamente, aquilo que, cientificamente fundamentado, é dito no PROT.
Ao darmos a primeira curva do IC2, deparamo-nos com essa gigantesca serpente adormecida à beira-rio, recostada no monte, em constante regurgitação, espécie de animal da Fábula, monstro que nem para dissimular os seus próprios dejectos se agita.
E, no seu interior, laboriosos gnomos procuram minimizar os estragos que a mais ínfima função fisiológica da criatura provocam, enquanto diabretes trocistas se divertem a alimentá-la, transportando muitas mais guloseimas do que as que supostamente caberiam nos seus pequenos bolsos, engordando-a.
Nos momentos de maior desespero, prostrado por mais um vómito do bicho, que depressa se torna parte do seu corpo em expansão, utilizo um subterfúgio subvertido para manter a esperança.
Imagino que um qualquer acontecimento extraordinário levou a uma debandada geral da população serpentícola, imagino que Portugal ganhou o Europeu de Futebol e que 9 milhões se engalfinham à volta do Santuário de Fátima, onde se encontra a Selecção Nacional, ou que um ovni amarou na Ericeira, suscitando a curiosidade receosa de milhões, que das falésias aguardam que do disco voador saiam pequenos homens verdes, entre uma sandes de torresmos e um penalti de tinto. Um gigantesco piquenicão da Ericeira a Peniche.
E nesse momento, no silêncio desse momento, um forte e preciso terramoto esvaziava a serpente, deixando-a jazendo, oca, à beira-rio.
Durante mais de 10 anos, vários especialistas em urbanismo e ordenamento do território compilaram e sistematizaram dados e formularam propostas sobre a Área Metropolitana de Lisboa.
Nesse trabalho, formalizado no PROT-AML (Plano Regional de Ordenamento do Território da Área Metropolitana de Lisboa), os autores desenharam sobre o mapa da área, um par de cornos a negro (desculpem a linguagem, mas sou ribatejano de alma), a partir da cabeça-Lisboa. Um desses cornos é precisamente o eixo Sacavém-Vila Franca de Xira.
Com todo o respeito, basta entrar no IC2, vindo de Lisboa, para qualquer pessoa perceber empiricamente, aquilo que, cientificamente fundamentado, é dito no PROT.
Ao darmos a primeira curva do IC2, deparamo-nos com essa gigantesca serpente adormecida à beira-rio, recostada no monte, em constante regurgitação, espécie de animal da Fábula, monstro que nem para dissimular os seus próprios dejectos se agita.
E, no seu interior, laboriosos gnomos procuram minimizar os estragos que a mais ínfima função fisiológica da criatura provocam, enquanto diabretes trocistas se divertem a alimentá-la, transportando muitas mais guloseimas do que as que supostamente caberiam nos seus pequenos bolsos, engordando-a.
Nos momentos de maior desespero, prostrado por mais um vómito do bicho, que depressa se torna parte do seu corpo em expansão, utilizo um subterfúgio subvertido para manter a esperança.
Imagino que um qualquer acontecimento extraordinário levou a uma debandada geral da população serpentícola, imagino que Portugal ganhou o Europeu de Futebol e que 9 milhões se engalfinham à volta do Santuário de Fátima, onde se encontra a Selecção Nacional, ou que um ovni amarou na Ericeira, suscitando a curiosidade receosa de milhões, que das falésias aguardam que do disco voador saiam pequenos homens verdes, entre uma sandes de torresmos e um penalti de tinto. Um gigantesco piquenicão da Ericeira a Peniche.
E nesse momento, no silêncio desse momento, um forte e preciso terramoto esvaziava a serpente, deixando-a jazendo, oca, à beira-rio.
11/11/2004
RAZÃO MÍNIMA GARANTIDA
Há uns anos foi instituído o Rendimento Mínimo Garantido. Num país onde muita gente não tem nada garantido, isto é, assegurado para lá de qualquer acontecimento, não deixa de ser espantoso a celeuma que o mesmo levantou em certas elites, pese embora a aceitação generalizada ou pelo menos maioritária.
É um traço marcante da sociedade portuguesa: a aceitação obediente e mansa das hierarquias sociais, mesmo quando injustas ou injustificáveis, convivendo com uma mesquinhez abjecta. Aceitamos com “naturalidade” que o filho do “empresário”, com um historial de incumprimento social vasto, sacralizamos mesmo esse comportamento, mas somos intransigentes com o vizinho do lado, se por acaso este sobe nem que seja um degrau na sua vida. Denunciamos mais depressa o tipo que tem um biscate que o tipo que explora mão-de-obra barata e ilegal. Vociferamos com o fura-vidas que se recebe o rendimento mínimo garantido, mas aplaudimos o “patrão” que ciclicamente leva as suas empresas à falência, para logo renascer 20 metros ao lado.
Este “espírito de resignação” a uma suposta “natureza das coisas” faz com que consideremos que o tipo que não paga impostos, que mantém o filho na Universidade à borla e que adquire propriedades com a ajuda do Estado é “esperto”. Pertence a uma outra estirpe social. Safa-se. Serve de modelo.
O tipo que arranja um biscate de fim-de-semana é um energúmeno. Se compra um automóvel melhor que o nosso, ficamos alerta, comentamos amargamente com os amigos e conhecidos que “ali há gato...”. Se compra uma casa nova, ficamos esclarecidos. Anda concerteza metido num negócio escuro...
O trágico deste traço é que ele não se altera por decreto e duvido que se altere com campanhas. Está profundamente enraizado. Dentro de cada um de nós continua a existir um gene feudal, que repele instintivamente qualquer tentativa de construir uma sociedade verdadeiramente democrática e justa.
Há uns anos foi instituído o Rendimento Mínimo Garantido. Num país onde muita gente não tem nada garantido, isto é, assegurado para lá de qualquer acontecimento, não deixa de ser espantoso a celeuma que o mesmo levantou em certas elites, pese embora a aceitação generalizada ou pelo menos maioritária.
É um traço marcante da sociedade portuguesa: a aceitação obediente e mansa das hierarquias sociais, mesmo quando injustas ou injustificáveis, convivendo com uma mesquinhez abjecta. Aceitamos com “naturalidade” que o filho do “empresário”, com um historial de incumprimento social vasto, sacralizamos mesmo esse comportamento, mas somos intransigentes com o vizinho do lado, se por acaso este sobe nem que seja um degrau na sua vida. Denunciamos mais depressa o tipo que tem um biscate que o tipo que explora mão-de-obra barata e ilegal. Vociferamos com o fura-vidas que se recebe o rendimento mínimo garantido, mas aplaudimos o “patrão” que ciclicamente leva as suas empresas à falência, para logo renascer 20 metros ao lado.
Este “espírito de resignação” a uma suposta “natureza das coisas” faz com que consideremos que o tipo que não paga impostos, que mantém o filho na Universidade à borla e que adquire propriedades com a ajuda do Estado é “esperto”. Pertence a uma outra estirpe social. Safa-se. Serve de modelo.
O tipo que arranja um biscate de fim-de-semana é um energúmeno. Se compra um automóvel melhor que o nosso, ficamos alerta, comentamos amargamente com os amigos e conhecidos que “ali há gato...”. Se compra uma casa nova, ficamos esclarecidos. Anda concerteza metido num negócio escuro...
O trágico deste traço é que ele não se altera por decreto e duvido que se altere com campanhas. Está profundamente enraizado. Dentro de cada um de nós continua a existir um gene feudal, que repele instintivamente qualquer tentativa de construir uma sociedade verdadeiramente democrática e justa.
O PAÍS DOS COMPETENTES
Sempre que alguém é nomeado para um cargo político ou para um alto cargo na Administração Pública (o que em Portugal vai dar ao mesmo), o “apparatchik” situacionista reverbera a mesma frase, com ar sério e grave “É competente.”.
Em 30 anos de milhares de nomeações de “competentes” o resultado não deixa de ser pobre. Claro que existe “o sistema”, “a máquina” ou “o monstro”. Como existe o Papão.
Onde é que fica a responsabilidade dos competentes?
Verificar o percurso de alguns “competentes” da nossa praça seria um interessante trabalho de investigação jornalística. Porque se é verdade que num sistema democrático a principal responsabilidade é simultaneamente de eleitores e eleitos, também não é menos verdade que a utilização e afectação de meios é da competência dos gestores públicos.
Não deixa de ser espantoso que alguém que ontem estava numa qualquer Direcção-Geral (da Agricultura, por exemplo), hoje esteja num Instituto sob tutela do Ministério da Cultura e amanhã apareça numa empresa pública ligada ao sector energético. Alguém acredita que se possa ser competente e conhecedor de Florestas, Museus e Mercados Petrolíferos?
Estou convencido que, observado à lupa, o percurso de alguns desses competentes revelaria um rasto de gestão ruinosa, de emprego para os amigalhaços, de aquisições desastrosas, de opções idiotas, num “cocktail” com um travo obscuro, algures entre o favorecimento pessoal e a corrupção.
Para além dos óbvios efeitos perversos, este estado de coisas conduz a que se rotulem os gestores públicos com adjectivos pouco recomendáveis, o que é injusto para muitos deles.
O político está, pelo menos formalmente, sujeito ao controlo democrático. O actual sistema de nomeação de gestores públicos não. E cria uma classe de intocáveis, que funciona como um corpo, que se vai perpetuando no poder. Quase sempre longe dos holofotes.
Naquele que é certamente um dos países do mundo com mais gestores competentes por metro quadrado, não deixa de ser estranho que o resultado final seja um país de manifestas incompetências a cada canto.
Sempre que alguém é nomeado para um cargo político ou para um alto cargo na Administração Pública (o que em Portugal vai dar ao mesmo), o “apparatchik” situacionista reverbera a mesma frase, com ar sério e grave “É competente.”.
Em 30 anos de milhares de nomeações de “competentes” o resultado não deixa de ser pobre. Claro que existe “o sistema”, “a máquina” ou “o monstro”. Como existe o Papão.
Onde é que fica a responsabilidade dos competentes?
Verificar o percurso de alguns “competentes” da nossa praça seria um interessante trabalho de investigação jornalística. Porque se é verdade que num sistema democrático a principal responsabilidade é simultaneamente de eleitores e eleitos, também não é menos verdade que a utilização e afectação de meios é da competência dos gestores públicos.
Não deixa de ser espantoso que alguém que ontem estava numa qualquer Direcção-Geral (da Agricultura, por exemplo), hoje esteja num Instituto sob tutela do Ministério da Cultura e amanhã apareça numa empresa pública ligada ao sector energético. Alguém acredita que se possa ser competente e conhecedor de Florestas, Museus e Mercados Petrolíferos?
Estou convencido que, observado à lupa, o percurso de alguns desses competentes revelaria um rasto de gestão ruinosa, de emprego para os amigalhaços, de aquisições desastrosas, de opções idiotas, num “cocktail” com um travo obscuro, algures entre o favorecimento pessoal e a corrupção.
Para além dos óbvios efeitos perversos, este estado de coisas conduz a que se rotulem os gestores públicos com adjectivos pouco recomendáveis, o que é injusto para muitos deles.
O político está, pelo menos formalmente, sujeito ao controlo democrático. O actual sistema de nomeação de gestores públicos não. E cria uma classe de intocáveis, que funciona como um corpo, que se vai perpetuando no poder. Quase sempre longe dos holofotes.
Naquele que é certamente um dos países do mundo com mais gestores competentes por metro quadrado, não deixa de ser estranho que o resultado final seja um país de manifestas incompetências a cada canto.
UMA FAMÍLIA PORTUGUESA
- Não gosto da avó! – Lamentou-se o menino Pedrinho.
- Come só as batatas... – Quase lhe sussurrei, entre o fogo cruzado que se estabelecera na mesa, pedra lançada da funda entre arrufos de torpedeiros.
Os almoços de família eram sempre uma festa. Apesar de estarmos disseminados por diversos cantos da floresta de betão dos arredores de Lisboa, pelo menos uma vez por mês toda a gente se reunia, na casa da Tia Gertrudes. No Verão, até o primo Rogério vinha de Valenciennes, no seu Mercedes de caixa automática.
Somos uma família unida e sólida. De uma forma peculiar alcançámos até um certo estatuto social. Não aparecemos na “Lux” ou na “Caras”, mas somos presença constante na “Casa & Decoração” e na “Meubles de Cuisine”. Fomos até capa da “Housekeeping”.
Longe vão os tempos em que o bisavô Gustavo começou a fazer pernas-de-pau na arrecadação do quintal, depois de convalescer do acidente com o Pepe, o burro espanhol. Fazendo uso da proverbial capacidade lusitana de desenrasque, o bisavô Gustavo, vendo-se perneta, logo mudou o negócio de produção de castanha da família para construção de pernas-de-pau. Hoje somos um conglomerado na área das próteses, os tipos da General Motors vêm comer-nos à mão sempre que querem montar uma nova caixa automática numa dessas caixas de fruta a que chamam veículo utilitário, os melhores 10 assassinos da Yakuza usam polegares postiços feitos na nossa fábrica do Seixal. Não tivesse o bisavô Gustavo, já completamente toldado pelo bagaço que o compadre Julião trouxera da terra, insistido em montar o Pepe, que assistiu, na sua incredulidade de burro, à tentativa certeira do bisavô em montar no burro que não era, aterrando na charrua meia coberta de ervas, que jazia entre outros utensílios que não serviam para nada e o terreno estaria hoje transformado num prédio deslavado, com um nome pomposo, tipo Varandas do Trancão, comprado por um senhor de cabelo ralo e oleoso, acompanhado pela sua esposa gorda, com as pregas do abdómen disfarçadas sob um padrão tigre da malásia made in taiwan.
O bisavô começou por vender as suas pernas-de-pau nas feiras e romarias, com a ajuda da bisavó Natércia, foi conseguindo aquilo a que hoje se chama uma carteira de clientes e passado pouco tempo estabeleceu-se na Rua do Arsenal, entre lojas de ferramentas e de bacalhau. Foi ainda com sede na esconsa e mal iluminada loja que o seu filho, o avô Paulino, conheceu marinheiros de todos os cantos do mundo, aos quais entre conselhos sobre as melhores putas da zona, mostrava os aparelhos que a sua imaginação fervilhante ia criando. Foi assim que o negócio prosperou, através dos marinheiros que de Lisboa levavam as nossas magníficas pernas-de-pau e lancinantes esquentamentos.
Hoje temos uma cadeia de lojas espalhadas por todo o mundo. Abrimos recentemente uma loja em Vladivostok, onde lançámos o nosso modelo Nikita, uma perna-de-pau “high tech”, forrada a marta.
O negócio continua no entanto a ser familiar, resistimos serenos, às tentativas de aquisição hostis, ao linguajar de ambulância de pequeninos homens amarelos, desconfiados dos “entonces hombre, somos hermanos, piernas de madera Gaspacho, suena agradable” que ciclicamente nos batem à porta da fábrica do Seixal, à caspa invisível de tipos apátridas, de fato azul escuro e traços secos que falam uma língua esquisita e monocórdica, corcundas dos estudos e estratégias de cordel que carregam debaixo dos braços.
Somos, é certo, um bocado excêntricos. Com a mania de experimentarmos em nós mesmos os produtos, antes de os lançarmos no mercado, decepamos regularmente uma perna ao tio, um dedo ao primo, um braço ao sobrinho, o que a maior parte das vezes se revela um sucesso. O primo Elias, por exemplo, que antes de lhe arrancarmos a mão esquerda, numa tarde de Domingo invernoso, era duro de ouvido, incapaz de trautear “A minha casinha”, passou a tocar o “Bhoemian Rapsody” só com o estalar dos dedos, graças à mão cibernética que lhe instalámos, modelo feito de propósito para a NASA. Como achamos um desperdício, nestes tempos de crise, desaproveitar alimentos e temos uma alergia hereditária à carne de porco, guardamos os membros decepados na arca e sempre que a família se reúne, temos iguaria.
Um pequeno desvairo, se quiserem, mas quem não tem pequenos desvairos? Da mesma forma que os bares de alterne se enchem de vendedores e escriturários aos dias 30 de cada mês, para o seu desvairo mensal, a família reúne-se para o seu, muito mais higiénico, diga-se.
Aliás, vendo bem as coisas, a nossa pequena excentricidade nem é particularmente aberrante. Eu, por exemplo, entrei uma vez em casa do Ernesto, meu colega da 4ª classe e para além de ter que me descalçar à entrada, deparei com África na Damaia. Tigres no tapete do chão, elefantes de loiça e de plástico a imitar marfim por todo o lado, sapos, crocodilos, cães, gatos, um rato enorme empalhado, um animal esquisito em cima do sofá, obeso e peludo, ao qual a mãe do Ernesto limpava o pó, que vim a saber mais tarde chamar-se Floriano, pai do Ernesto. E enquanto eu, receoso, me anichava por trás do bengaleiro, a Dona Ermelinda, esposa do animal esquisito e mãe do catraio, perseguia, com ímpetos de marine dopado, o único animal vivo que por breve distracção sua entrara em casa, uma melga minúscula de motor afogado e condenada a morrer espalmada pela raquete de ténis empunhada pela santa senhora.
Isso sim, é excentricidade.
- Não gosto da avó! – Lamentou-se o menino Pedrinho.
- Come só as batatas... – Quase lhe sussurrei, entre o fogo cruzado que se estabelecera na mesa, pedra lançada da funda entre arrufos de torpedeiros.
Os almoços de família eram sempre uma festa. Apesar de estarmos disseminados por diversos cantos da floresta de betão dos arredores de Lisboa, pelo menos uma vez por mês toda a gente se reunia, na casa da Tia Gertrudes. No Verão, até o primo Rogério vinha de Valenciennes, no seu Mercedes de caixa automática.
Somos uma família unida e sólida. De uma forma peculiar alcançámos até um certo estatuto social. Não aparecemos na “Lux” ou na “Caras”, mas somos presença constante na “Casa & Decoração” e na “Meubles de Cuisine”. Fomos até capa da “Housekeeping”.
Longe vão os tempos em que o bisavô Gustavo começou a fazer pernas-de-pau na arrecadação do quintal, depois de convalescer do acidente com o Pepe, o burro espanhol. Fazendo uso da proverbial capacidade lusitana de desenrasque, o bisavô Gustavo, vendo-se perneta, logo mudou o negócio de produção de castanha da família para construção de pernas-de-pau. Hoje somos um conglomerado na área das próteses, os tipos da General Motors vêm comer-nos à mão sempre que querem montar uma nova caixa automática numa dessas caixas de fruta a que chamam veículo utilitário, os melhores 10 assassinos da Yakuza usam polegares postiços feitos na nossa fábrica do Seixal. Não tivesse o bisavô Gustavo, já completamente toldado pelo bagaço que o compadre Julião trouxera da terra, insistido em montar o Pepe, que assistiu, na sua incredulidade de burro, à tentativa certeira do bisavô em montar no burro que não era, aterrando na charrua meia coberta de ervas, que jazia entre outros utensílios que não serviam para nada e o terreno estaria hoje transformado num prédio deslavado, com um nome pomposo, tipo Varandas do Trancão, comprado por um senhor de cabelo ralo e oleoso, acompanhado pela sua esposa gorda, com as pregas do abdómen disfarçadas sob um padrão tigre da malásia made in taiwan.
O bisavô começou por vender as suas pernas-de-pau nas feiras e romarias, com a ajuda da bisavó Natércia, foi conseguindo aquilo a que hoje se chama uma carteira de clientes e passado pouco tempo estabeleceu-se na Rua do Arsenal, entre lojas de ferramentas e de bacalhau. Foi ainda com sede na esconsa e mal iluminada loja que o seu filho, o avô Paulino, conheceu marinheiros de todos os cantos do mundo, aos quais entre conselhos sobre as melhores putas da zona, mostrava os aparelhos que a sua imaginação fervilhante ia criando. Foi assim que o negócio prosperou, através dos marinheiros que de Lisboa levavam as nossas magníficas pernas-de-pau e lancinantes esquentamentos.
Hoje temos uma cadeia de lojas espalhadas por todo o mundo. Abrimos recentemente uma loja em Vladivostok, onde lançámos o nosso modelo Nikita, uma perna-de-pau “high tech”, forrada a marta.
O negócio continua no entanto a ser familiar, resistimos serenos, às tentativas de aquisição hostis, ao linguajar de ambulância de pequeninos homens amarelos, desconfiados dos “entonces hombre, somos hermanos, piernas de madera Gaspacho, suena agradable” que ciclicamente nos batem à porta da fábrica do Seixal, à caspa invisível de tipos apátridas, de fato azul escuro e traços secos que falam uma língua esquisita e monocórdica, corcundas dos estudos e estratégias de cordel que carregam debaixo dos braços.
Somos, é certo, um bocado excêntricos. Com a mania de experimentarmos em nós mesmos os produtos, antes de os lançarmos no mercado, decepamos regularmente uma perna ao tio, um dedo ao primo, um braço ao sobrinho, o que a maior parte das vezes se revela um sucesso. O primo Elias, por exemplo, que antes de lhe arrancarmos a mão esquerda, numa tarde de Domingo invernoso, era duro de ouvido, incapaz de trautear “A minha casinha”, passou a tocar o “Bhoemian Rapsody” só com o estalar dos dedos, graças à mão cibernética que lhe instalámos, modelo feito de propósito para a NASA. Como achamos um desperdício, nestes tempos de crise, desaproveitar alimentos e temos uma alergia hereditária à carne de porco, guardamos os membros decepados na arca e sempre que a família se reúne, temos iguaria.
Um pequeno desvairo, se quiserem, mas quem não tem pequenos desvairos? Da mesma forma que os bares de alterne se enchem de vendedores e escriturários aos dias 30 de cada mês, para o seu desvairo mensal, a família reúne-se para o seu, muito mais higiénico, diga-se.
Aliás, vendo bem as coisas, a nossa pequena excentricidade nem é particularmente aberrante. Eu, por exemplo, entrei uma vez em casa do Ernesto, meu colega da 4ª classe e para além de ter que me descalçar à entrada, deparei com África na Damaia. Tigres no tapete do chão, elefantes de loiça e de plástico a imitar marfim por todo o lado, sapos, crocodilos, cães, gatos, um rato enorme empalhado, um animal esquisito em cima do sofá, obeso e peludo, ao qual a mãe do Ernesto limpava o pó, que vim a saber mais tarde chamar-se Floriano, pai do Ernesto. E enquanto eu, receoso, me anichava por trás do bengaleiro, a Dona Ermelinda, esposa do animal esquisito e mãe do catraio, perseguia, com ímpetos de marine dopado, o único animal vivo que por breve distracção sua entrara em casa, uma melga minúscula de motor afogado e condenada a morrer espalmada pela raquete de ténis empunhada pela santa senhora.
Isso sim, é excentricidade.
1/24/2004
CONVERSAS DE CAFÉ
Uma das características mais marcantes do português é a sua inesgotável capacidade para falar do que não sabe, do que não estudou, do que simplesmente não conhece.
Quando isso acontece num grupo de amigos, nos balneários depois de uma jogatana de futebol, no cabeleireiro, entre uma mise e uma limpeza de pele ou no café, entre uma imperial e uns tremoços, é perfeitamente inofensivo.
Já não posso afirmar o mesmo quando a tagarelice se verifica em sítios onde era suposto discutir-se de forma séria, até porque se está a representar os eleitores que nos elegeram.
Vem toda esta conversa moralista a propósito das inevitáveis discussões que surgem cada vez que o Governo (seja ele qual for) tenta impor uma taxa, um imposto ou uma propina. Seja na Educação, na Saúde ou nos Transportes.
É então hábito ouvirmos os mais doutos discorrerem sobre o que é a educação, sobre o que é a saúde, sobre o que é a habitação, etc.. E normalmente o que começa como um pequeno exercício de retórica acaba como uma dose de verborreia. São conhecidos os casos de pessoas que não sabendo absolutamente nada do assunto em discussão, conseguem falar palrar sobre o mesmo durante horas, desde que haja uma câara de televisão, um gravador audio ou um jornalista por perto, claro.
Ora, estar a discutir esses assuntos sem abordar a questão de base e que lhes subjaz é o mesmo que eu discutir com a minha namorada se o nosso filho vai ter uma educação católica, apostólica e romana, quando nem sequer ainda fiz uma tentativa séria para o ter.
Quero dizer com isto que a questão básica, a questão que tem que ser posta antes de todas as outras, antes de se discutir o que é a educação e como é que se a financia, ou o que é a saúde e como é que a devemos pagar, é: o que é o Estado? Para que serve? Como é que funciona?
Ora o Estado somos todos nós e manifesta-se nos órgãos constitucionalmente previstos, serve para que quem nasceu no Bairro 6 de Maio tenha, pelo menos à partida, as mesmas hipóteses de viver condignamente, como quem nasceu na Quinta da Marinha e funciona pelo contributo dos mais afortunados em prol dos menos, através de um monstro da Fábula que certamente por não existirem empresas de marketing na altura, se deu o nome de impostos.
Se alguém conhecer outro modelo de Estado e Sociedade, que se manifeste. Eu não conheço e tenho a humildade de não procurar um outro modelo quando este está longe de funcionar bem e deve por isso ser aprofundado.
Enquanto não existir em Portugal um verdadeiro Fisco (outra palavra repelente) que consiga aferir com justiça o rendimento de cada um e que possua mecanismos eficientes para cobrar a parte proporcional desse rendimento para manter o conceito de Sociedade vivo e a fazer sentido, todas as outras discussões são inconsequentes, inúteis e idiotas.
Não passam de exercícios de onanismo, que servem de falso fundamento aos governos para, de forma cínica e imoral, irem mantendo a ideia de que governam.
E não há nada de mais injusto que aplicar a igualdade ao que é desigual. Sejam taxas, impostos ou propinas. Ou o preço dos rebuçados.
Uma das características mais marcantes do português é a sua inesgotável capacidade para falar do que não sabe, do que não estudou, do que simplesmente não conhece.
Quando isso acontece num grupo de amigos, nos balneários depois de uma jogatana de futebol, no cabeleireiro, entre uma mise e uma limpeza de pele ou no café, entre uma imperial e uns tremoços, é perfeitamente inofensivo.
Já não posso afirmar o mesmo quando a tagarelice se verifica em sítios onde era suposto discutir-se de forma séria, até porque se está a representar os eleitores que nos elegeram.
Vem toda esta conversa moralista a propósito das inevitáveis discussões que surgem cada vez que o Governo (seja ele qual for) tenta impor uma taxa, um imposto ou uma propina. Seja na Educação, na Saúde ou nos Transportes.
É então hábito ouvirmos os mais doutos discorrerem sobre o que é a educação, sobre o que é a saúde, sobre o que é a habitação, etc.. E normalmente o que começa como um pequeno exercício de retórica acaba como uma dose de verborreia. São conhecidos os casos de pessoas que não sabendo absolutamente nada do assunto em discussão, conseguem falar palrar sobre o mesmo durante horas, desde que haja uma câara de televisão, um gravador audio ou um jornalista por perto, claro.
Ora, estar a discutir esses assuntos sem abordar a questão de base e que lhes subjaz é o mesmo que eu discutir com a minha namorada se o nosso filho vai ter uma educação católica, apostólica e romana, quando nem sequer ainda fiz uma tentativa séria para o ter.
Quero dizer com isto que a questão básica, a questão que tem que ser posta antes de todas as outras, antes de se discutir o que é a educação e como é que se a financia, ou o que é a saúde e como é que a devemos pagar, é: o que é o Estado? Para que serve? Como é que funciona?
Ora o Estado somos todos nós e manifesta-se nos órgãos constitucionalmente previstos, serve para que quem nasceu no Bairro 6 de Maio tenha, pelo menos à partida, as mesmas hipóteses de viver condignamente, como quem nasceu na Quinta da Marinha e funciona pelo contributo dos mais afortunados em prol dos menos, através de um monstro da Fábula que certamente por não existirem empresas de marketing na altura, se deu o nome de impostos.
Se alguém conhecer outro modelo de Estado e Sociedade, que se manifeste. Eu não conheço e tenho a humildade de não procurar um outro modelo quando este está longe de funcionar bem e deve por isso ser aprofundado.
Enquanto não existir em Portugal um verdadeiro Fisco (outra palavra repelente) que consiga aferir com justiça o rendimento de cada um e que possua mecanismos eficientes para cobrar a parte proporcional desse rendimento para manter o conceito de Sociedade vivo e a fazer sentido, todas as outras discussões são inconsequentes, inúteis e idiotas.
Não passam de exercícios de onanismo, que servem de falso fundamento aos governos para, de forma cínica e imoral, irem mantendo a ideia de que governam.
E não há nada de mais injusto que aplicar a igualdade ao que é desigual. Sejam taxas, impostos ou propinas. Ou o preço dos rebuçados.
O ÊXTASE NA CAIXA DE CORREIO
Caros leitores,
Hoje estou particularmente satisfeito. Contrariando a onda de pessimismo que se abateu sobre o País, por causa do PIB (essa criatura bizarra e imensurável) do Pacto, do PEC, da PQOP, diria mesmo que hoje estou radiante.
Tudo porque ao abrir a minha caixa de correio, normalmente cheia de facturas, vislumbrei uma carta do Serviço Local de Finanças. Trémulo, quase febril, apalpei o seu conteúdo, como quem sente pela primeira vez os contornos de um corpo há muito desejado. As minhas mais secretas esperanças confirmaram-se quando desfiz o invólucro: era o meu novo cartão de contribuinte! Johann Strauss entrou subitamente no meu prédio, seguido de uma pequena orquestra; os candelabros acenderam-se. A música invadiu aquele pequeno átrio, em crescendo. Deus existe e apresenta-se em tons de verde. Quase três anos depois de o ter pedido, eis que o pequeno gnomo, que imediatamente baptizei como Manelito, chegava-me às mãos.
Subi as escadas com o Manelito nas mãos, sentindo os meus sinais vitais a voltarem ao normal. Pousei-o na minha secretária e resolvi fazer o que qualquer homem decente faria. Peguei no velho e carcomido cartão de contribuinte e preparei-me para as suas exéquias. Eu sei que os meus leitores vão pensar que sou um sentimental, mas a verdade é que costumo sepultar com pompa e circunstância de Estado todos os meus cartões. Embrulho numa folha de papel de 25 linhas azul, claro, cada um dos que deixam de estar em vigor ou caducaram. Com um esmero digno de funcionário público, tenho uma velha gaveta carunchosa, que serve de Cemitério. Tudo organizado por talhões. Lá está o talhão da ADSE, com 27 inumações; o talhão da Segurança Social, com 12; o da DGV, onde repousa a minha antiga carta de condução, e assim por diante. E no fundo da gaveta, ergue-se, altivo, um velho carimbo preto e sóbrio, ostentando a inscrição INDEFERIDO com orgulho e garbo.
O Manelito passou a andar comigo 24 horas por dia. Tenho-o mostrado a todos os amigos, que o olham com inveja. Gostaria de frisar que são entes como o Manelito que alteram a nossa mundividência de forma imperceptível mas decisiva. Eu já decidi que vou permanecer celibatário ou pelos menos se casar não vou alterar o nome, só para não perder o meu novo amigo. Nem vou mudar de casa. Hei-de ficar nesta até que as paredes caiam, que o tecto desabe e mesmo aí, morrerei de pé, como todo o contribuinte recto.
Se os meus leitores pensam que tudo o que escrevi até agora foi uma gorada tentativa de ironia desenganem-se. Até o subdesenvolvimento tem as suas cores alegres. Se eu vivesse num País com um verdadeiro Estado, em que alterar os meus dados fiscais ou civis fosse um acto simples e de efeitos imediatos, estes pequenos momentos em que simulamos que somos civilizados não existiriam. E perante isto nós só temos duas opções: o atentado frio, seco e certeiro ou a esquizofrenia. Profundas convicções humanistas e anti-belicistas levam-me a escolher a esquizofrenia. Por enquanto.
Caros leitores,
Hoje estou particularmente satisfeito. Contrariando a onda de pessimismo que se abateu sobre o País, por causa do PIB (essa criatura bizarra e imensurável) do Pacto, do PEC, da PQOP, diria mesmo que hoje estou radiante.
Tudo porque ao abrir a minha caixa de correio, normalmente cheia de facturas, vislumbrei uma carta do Serviço Local de Finanças. Trémulo, quase febril, apalpei o seu conteúdo, como quem sente pela primeira vez os contornos de um corpo há muito desejado. As minhas mais secretas esperanças confirmaram-se quando desfiz o invólucro: era o meu novo cartão de contribuinte! Johann Strauss entrou subitamente no meu prédio, seguido de uma pequena orquestra; os candelabros acenderam-se. A música invadiu aquele pequeno átrio, em crescendo. Deus existe e apresenta-se em tons de verde. Quase três anos depois de o ter pedido, eis que o pequeno gnomo, que imediatamente baptizei como Manelito, chegava-me às mãos.
Subi as escadas com o Manelito nas mãos, sentindo os meus sinais vitais a voltarem ao normal. Pousei-o na minha secretária e resolvi fazer o que qualquer homem decente faria. Peguei no velho e carcomido cartão de contribuinte e preparei-me para as suas exéquias. Eu sei que os meus leitores vão pensar que sou um sentimental, mas a verdade é que costumo sepultar com pompa e circunstância de Estado todos os meus cartões. Embrulho numa folha de papel de 25 linhas azul, claro, cada um dos que deixam de estar em vigor ou caducaram. Com um esmero digno de funcionário público, tenho uma velha gaveta carunchosa, que serve de Cemitério. Tudo organizado por talhões. Lá está o talhão da ADSE, com 27 inumações; o talhão da Segurança Social, com 12; o da DGV, onde repousa a minha antiga carta de condução, e assim por diante. E no fundo da gaveta, ergue-se, altivo, um velho carimbo preto e sóbrio, ostentando a inscrição INDEFERIDO com orgulho e garbo.
O Manelito passou a andar comigo 24 horas por dia. Tenho-o mostrado a todos os amigos, que o olham com inveja. Gostaria de frisar que são entes como o Manelito que alteram a nossa mundividência de forma imperceptível mas decisiva. Eu já decidi que vou permanecer celibatário ou pelos menos se casar não vou alterar o nome, só para não perder o meu novo amigo. Nem vou mudar de casa. Hei-de ficar nesta até que as paredes caiam, que o tecto desabe e mesmo aí, morrerei de pé, como todo o contribuinte recto.
Se os meus leitores pensam que tudo o que escrevi até agora foi uma gorada tentativa de ironia desenganem-se. Até o subdesenvolvimento tem as suas cores alegres. Se eu vivesse num País com um verdadeiro Estado, em que alterar os meus dados fiscais ou civis fosse um acto simples e de efeitos imediatos, estes pequenos momentos em que simulamos que somos civilizados não existiriam. E perante isto nós só temos duas opções: o atentado frio, seco e certeiro ou a esquizofrenia. Profundas convicções humanistas e anti-belicistas levam-me a escolher a esquizofrenia. Por enquanto.
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