11/11/2004

UMA FAMÍLIA PORTUGUESA

- Não gosto da avó! – Lamentou-se o menino Pedrinho.
- Come só as batatas... – Quase lhe sussurrei, entre o fogo cruzado que se estabelecera na mesa, pedra lançada da funda entre arrufos de torpedeiros.

Os almoços de família eram sempre uma festa. Apesar de estarmos disseminados por diversos cantos da floresta de betão dos arredores de Lisboa, pelo menos uma vez por mês toda a gente se reunia, na casa da Tia Gertrudes. No Verão, até o primo Rogério vinha de Valenciennes, no seu Mercedes de caixa automática.

Somos uma família unida e sólida. De uma forma peculiar alcançámos até um certo estatuto social. Não aparecemos na “Lux” ou na “Caras”, mas somos presença constante na “Casa & Decoração” e na “Meubles de Cuisine”. Fomos até capa da “Housekeeping”.

Longe vão os tempos em que o bisavô Gustavo começou a fazer pernas-de-pau na arrecadação do quintal, depois de convalescer do acidente com o Pepe, o burro espanhol. Fazendo uso da proverbial capacidade lusitana de desenrasque, o bisavô Gustavo, vendo-se perneta, logo mudou o negócio de produção de castanha da família para construção de pernas-de-pau. Hoje somos um conglomerado na área das próteses, os tipos da General Motors vêm comer-nos à mão sempre que querem montar uma nova caixa automática numa dessas caixas de fruta a que chamam veículo utilitário, os melhores 10 assassinos da Yakuza usam polegares postiços feitos na nossa fábrica do Seixal. Não tivesse o bisavô Gustavo, já completamente toldado pelo bagaço que o compadre Julião trouxera da terra, insistido em montar o Pepe, que assistiu, na sua incredulidade de burro, à tentativa certeira do bisavô em montar no burro que não era, aterrando na charrua meia coberta de ervas, que jazia entre outros utensílios que não serviam para nada e o terreno estaria hoje transformado num prédio deslavado, com um nome pomposo, tipo Varandas do Trancão, comprado por um senhor de cabelo ralo e oleoso, acompanhado pela sua esposa gorda, com as pregas do abdómen disfarçadas sob um padrão tigre da malásia made in taiwan.

O bisavô começou por vender as suas pernas-de-pau nas feiras e romarias, com a ajuda da bisavó Natércia, foi conseguindo aquilo a que hoje se chama uma carteira de clientes e passado pouco tempo estabeleceu-se na Rua do Arsenal, entre lojas de ferramentas e de bacalhau. Foi ainda com sede na esconsa e mal iluminada loja que o seu filho, o avô Paulino, conheceu marinheiros de todos os cantos do mundo, aos quais entre conselhos sobre as melhores putas da zona, mostrava os aparelhos que a sua imaginação fervilhante ia criando. Foi assim que o negócio prosperou, através dos marinheiros que de Lisboa levavam as nossas magníficas pernas-de-pau e lancinantes esquentamentos.

Hoje temos uma cadeia de lojas espalhadas por todo o mundo. Abrimos recentemente uma loja em Vladivostok, onde lançámos o nosso modelo Nikita, uma perna-de-pau “high tech”, forrada a marta.

O negócio continua no entanto a ser familiar, resistimos serenos, às tentativas de aquisição hostis, ao linguajar de ambulância de pequeninos homens amarelos, desconfiados dos “entonces hombre, somos hermanos, piernas de madera Gaspacho, suena agradable” que ciclicamente nos batem à porta da fábrica do Seixal, à caspa invisível de tipos apátridas, de fato azul escuro e traços secos que falam uma língua esquisita e monocórdica, corcundas dos estudos e estratégias de cordel que carregam debaixo dos braços.

Somos, é certo, um bocado excêntricos. Com a mania de experimentarmos em nós mesmos os produtos, antes de os lançarmos no mercado, decepamos regularmente uma perna ao tio, um dedo ao primo, um braço ao sobrinho, o que a maior parte das vezes se revela um sucesso. O primo Elias, por exemplo, que antes de lhe arrancarmos a mão esquerda, numa tarde de Domingo invernoso, era duro de ouvido, incapaz de trautear “A minha casinha”, passou a tocar o “Bhoemian Rapsody” só com o estalar dos dedos, graças à mão cibernética que lhe instalámos, modelo feito de propósito para a NASA. Como achamos um desperdício, nestes tempos de crise, desaproveitar alimentos e temos uma alergia hereditária à carne de porco, guardamos os membros decepados na arca e sempre que a família se reúne, temos iguaria.

Um pequeno desvairo, se quiserem, mas quem não tem pequenos desvairos? Da mesma forma que os bares de alterne se enchem de vendedores e escriturários aos dias 30 de cada mês, para o seu desvairo mensal, a família reúne-se para o seu, muito mais higiénico, diga-se.

Aliás, vendo bem as coisas, a nossa pequena excentricidade nem é particularmente aberrante. Eu, por exemplo, entrei uma vez em casa do Ernesto, meu colega da 4ª classe e para além de ter que me descalçar à entrada, deparei com África na Damaia. Tigres no tapete do chão, elefantes de loiça e de plástico a imitar marfim por todo o lado, sapos, crocodilos, cães, gatos, um rato enorme empalhado, um animal esquisito em cima do sofá, obeso e peludo, ao qual a mãe do Ernesto limpava o pó, que vim a saber mais tarde chamar-se Floriano, pai do Ernesto. E enquanto eu, receoso, me anichava por trás do bengaleiro, a Dona Ermelinda, esposa do animal esquisito e mãe do catraio, perseguia, com ímpetos de marine dopado, o único animal vivo que por breve distracção sua entrara em casa, uma melga minúscula de motor afogado e condenada a morrer espalmada pela raquete de ténis empunhada pela santa senhora.

Isso sim, é excentricidade.

1/24/2004

CONVERSAS DE CAFÉ


Uma das características mais marcantes do português é a sua inesgotável capacidade para falar do que não sabe, do que não estudou, do que simplesmente não conhece.

Quando isso acontece num grupo de amigos, nos balneários depois de uma jogatana de futebol, no cabeleireiro, entre uma mise e uma limpeza de pele ou no café, entre uma imperial e uns tremoços, é perfeitamente inofensivo.

Já não posso afirmar o mesmo quando a tagarelice se verifica em sítios onde era suposto discutir-se de forma séria, até porque se está a representar os eleitores que nos elegeram.

Vem toda esta conversa moralista a propósito das inevitáveis discussões que surgem cada vez que o Governo (seja ele qual for) tenta impor uma taxa, um imposto ou uma propina. Seja na Educação, na Saúde ou nos Transportes.

É então hábito ouvirmos os mais doutos discorrerem sobre o que é a educação, sobre o que é a saúde, sobre o que é a habitação, etc.. E normalmente o que começa como um pequeno exercício de retórica acaba como uma dose de verborreia. São conhecidos os casos de pessoas que não sabendo absolutamente nada do assunto em discussão, conseguem falar palrar sobre o mesmo durante horas, desde que haja uma câara de televisão, um gravador audio ou um jornalista por perto, claro.

Ora, estar a discutir esses assuntos sem abordar a questão de base e que lhes subjaz é o mesmo que eu discutir com a minha namorada se o nosso filho vai ter uma educação católica, apostólica e romana, quando nem sequer ainda fiz uma tentativa séria para o ter.

Quero dizer com isto que a questão básica, a questão que tem que ser posta antes de todas as outras, antes de se discutir o que é a educação e como é que se a financia, ou o que é a saúde e como é que a devemos pagar, é: o que é o Estado? Para que serve? Como é que funciona?

Ora o Estado somos todos nós e manifesta-se nos órgãos constitucionalmente previstos, serve para que quem nasceu no Bairro 6 de Maio tenha, pelo menos à partida, as mesmas hipóteses de viver condignamente, como quem nasceu na Quinta da Marinha e funciona pelo contributo dos mais afortunados em prol dos menos, através de um monstro da Fábula que certamente por não existirem empresas de marketing na altura, se deu o nome de impostos.

Se alguém conhecer outro modelo de Estado e Sociedade, que se manifeste. Eu não conheço e tenho a humildade de não procurar um outro modelo quando este está longe de funcionar bem e deve por isso ser aprofundado.

Enquanto não existir em Portugal um verdadeiro Fisco (outra palavra repelente) que consiga aferir com justiça o rendimento de cada um e que possua mecanismos eficientes para cobrar a parte proporcional desse rendimento para manter o conceito de Sociedade vivo e a fazer sentido, todas as outras discussões são inconsequentes, inúteis e idiotas.

Não passam de exercícios de onanismo, que servem de falso fundamento aos governos para, de forma cínica e imoral, irem mantendo a ideia de que governam.

E não há nada de mais injusto que aplicar a igualdade ao que é desigual. Sejam taxas, impostos ou propinas. Ou o preço dos rebuçados.
O ÊXTASE NA CAIXA DE CORREIO


Caros leitores,

Hoje estou particularmente satisfeito. Contrariando a onda de pessimismo que se abateu sobre o País, por causa do PIB (essa criatura bizarra e imensurável) do Pacto, do PEC, da PQOP, diria mesmo que hoje estou radiante.

Tudo porque ao abrir a minha caixa de correio, normalmente cheia de facturas, vislumbrei uma carta do Serviço Local de Finanças. Trémulo, quase febril, apalpei o seu conteúdo, como quem sente pela primeira vez os contornos de um corpo há muito desejado. As minhas mais secretas esperanças confirmaram-se quando desfiz o invólucro: era o meu novo cartão de contribuinte! Johann Strauss entrou subitamente no meu prédio, seguido de uma pequena orquestra; os candelabros acenderam-se. A música invadiu aquele pequeno átrio, em crescendo. Deus existe e apresenta-se em tons de verde. Quase três anos depois de o ter pedido, eis que o pequeno gnomo, que imediatamente baptizei como Manelito, chegava-me às mãos.

Subi as escadas com o Manelito nas mãos, sentindo os meus sinais vitais a voltarem ao normal. Pousei-o na minha secretária e resolvi fazer o que qualquer homem decente faria. Peguei no velho e carcomido cartão de contribuinte e preparei-me para as suas exéquias. Eu sei que os meus leitores vão pensar que sou um sentimental, mas a verdade é que costumo sepultar com pompa e circunstância de Estado todos os meus cartões. Embrulho numa folha de papel de 25 linhas azul, claro, cada um dos que deixam de estar em vigor ou caducaram. Com um esmero digno de funcionário público, tenho uma velha gaveta carunchosa, que serve de Cemitério. Tudo organizado por talhões. Lá está o talhão da ADSE, com 27 inumações; o talhão da Segurança Social, com 12; o da DGV, onde repousa a minha antiga carta de condução, e assim por diante. E no fundo da gaveta, ergue-se, altivo, um velho carimbo preto e sóbrio, ostentando a inscrição INDEFERIDO com orgulho e garbo.

O Manelito passou a andar comigo 24 horas por dia. Tenho-o mostrado a todos os amigos, que o olham com inveja. Gostaria de frisar que são entes como o Manelito que alteram a nossa mundividência de forma imperceptível mas decisiva. Eu já decidi que vou permanecer celibatário ou pelos menos se casar não vou alterar o nome, só para não perder o meu novo amigo. Nem vou mudar de casa. Hei-de ficar nesta até que as paredes caiam, que o tecto desabe e mesmo aí, morrerei de pé, como todo o contribuinte recto.

Se os meus leitores pensam que tudo o que escrevi até agora foi uma gorada tentativa de ironia desenganem-se. Até o subdesenvolvimento tem as suas cores alegres. Se eu vivesse num País com um verdadeiro Estado, em que alterar os meus dados fiscais ou civis fosse um acto simples e de efeitos imediatos, estes pequenos momentos em que simulamos que somos civilizados não existiriam. E perante isto nós só temos duas opções: o atentado frio, seco e certeiro ou a esquizofrenia. Profundas convicções humanistas e anti-belicistas levam-me a escolher a esquizofrenia. Por enquanto.
ULTRA-LEVUR



"A conjuntura apresenta um elevado índice de debilidades sistemáticas induzidas por interaccção de fenómenos exógenos, culminando numa catarse que apresentando sintomas de entropia, não deixa de manifestar um fio condutor que, embora obliterante, tem na sua própria contingência propriedades correctivas e potenciadoras não despiciendas, num quadro de maximização.

Por outro lado a sua própria génese indicia comportamentos periféricos ao óptimo, sendo que através da análise endoscópica nos é permitido concluir pela proliferação de factores de disseminação menos adequados.

Todavia, a imagética estruturante apresenta-se como elemento determinante não só na óptica do observador auto-convexionante mas também daquele que se hetero-parametriza. Pelo que a medição não é instrumento garantido de aferição de resultados."

Eu podia continuar, mas está a tornar-se penoso, pelo menos para mim. A língua portuguesa é de facto uma coisa maravilhosa. Um tipo pode estar horas e horas a falar e não dizer absolutamente nada, parecendo que está a apresentar doutrina. E o mais espectacular é que se o tipo for mesmo bom, ainda lhe pagam.
SUBLOCAÇÃO

Oi! Meu nomi éi Odércio Ipitarangui i pedji ao Sôr Nuno, habituau escriba deista coluna prá mi deixá botá umas linha.

Tchive essa ideia porrqui tô morando aqui i já riparei qui ócês, portugas, taum sempri dji baixo astrau e alguns ficam meismo incomodados quando percebem qui tudo quando é loja de shoppingue tá cheia dji nóis. Aconticeu o mêsmo cum a gentchi há uns anos atráis, quando todas as padaria do Brasiu ficaram cheias de portugas.

Ócês, qui nãum saum birutas dji todo, já devem tê riparado qui à gentji num é só futebolista ou garota dji programa. É.

I tambeim já devem ter riarado qui a gentchi fala portuguêis. Um portuguêis meio gingão, como ócês djizem. E concerteza qui já perrceberam qui nóis somos muitjos, né? Somos 175 milhão, prá ser exacto.

Ora, meismo com toda a probreza i todo o subidisenvolvimento, alguns de nóis tinha qui sair sujeito isperto. Qui creschi pensando em portuguêis, fala portuguêis, si manifesta em portuguêis. Ocês já tchinham dado por isso, não?

Pôr exemplo, o Jorge Amado, qui foi aqueli cara qui deu vida à Gabriela Cravo e Canela, qui já foi vista por russo, chinês i tá chegando até na Polinésia. Ou outro cara qui dji cerrteza já ouviram falá: o Santos Dumont. Ou esse brasuca danado prá brincá dji nomi Carlos Drummond de Andrade. Num há actchividadji no mundo em qui naum esteija um brasileiro mitchido.

Lá nusz States já deram por isso i taum procurando arranjá increnca prá gentchi. Mas num fais máu. O Samba contchinua passando e vai passá cada veis mais. À cultura brasileira é, si naum a única, pelo menos a qui tá dando mais luta à hegemonia do inglês e da cultura anglo-saxónica. E tá botando prá quebrá. Ein portuguêis. Compreende?

Ora ócês, qui taum sempri si lamentando qui o portuguêis tá disaparicendo, teiem qui pôr essas cuca a funcioná. Si o portuguêis naum disaparecê si vai devê a nóis. Qui somos muitos e fazemos um tremendo barulho. Deixa dji sê bicho careta e aproveita à festa, cara, em veis de ficá no seu canto choramingando. A gentchi nein si importa dji ouvir esse portuguêis de ocês, meio caipira.
Saravá!

Odércio Ipitarangui,
Funcionário dji lanchonetchi no shopping Colombo
Meia-direita du tchime da Associação Recreativa da Damaia
Tocador dji tambô no Grupo dji Samba Tudo in Cima
AS ANEDOTAS DO MASCARENHAS (em DVD, CD e Minidisc)

Caros leitores:

Influenciado por essa invasão de contadores de histórias, de stand up comedy, stand down (it's a) tragedy e afins, resolvi publicar as minhas próprias anedotas. O João Marques que me perdoe a publicidade à borla, mas aqui ficam 3 exemplos das anedotas que poderão encontrar no 1º volume.


ANEDOTA 1

O Governo Civil

Existe em Portugal uma coisa chamada Governo Civil, com o respectivo Governador. E serve para quê? Para representar o Governo nos Distritos. E os Distritos, são o quê? Evidentemente são as circunscrições territoriais que servem para...bem, servem para terem Governos Civis! De resto não servem para mais nada. Quer dizer, se Portugal fosse um País tipo peixe-espada, como por exemplo, o Chile, ainda se podia compreender. Ou se tivessemos uma série de ilhas no meio do oceano, vá lá (e nós temos algumas, mas curiosamente nas ilhas não há governo civil). Agora, nós que somos um país minorca, onde se chega de uma ponta à outra em menos de um dia, onde existem telefones, telemóveis, fax, internet, videoconferência, etc., não se percebe muito bem para que é que existem governos civis. Representam o Governo para quê? Para alguma coisa de concreto? Constróiem estradas? Aeroportos? Então cada Ministério não têm uma direcção regional? Se eu estiver chateado com o Primeiro-Ministro escrevo-lhe uma carta, mando-lhe um sms. Para que raio quero eu o Governador Civil? Antigamente ainda serviam para alguma coisa. Autorizavam (ou não) o foguetório tradicional sempre que havia festa no distrito. E faziam outra coisa importantíssima: licenciavam as máquinas de diversão electrónicas (tipo Pacman). Quero agradecer a benevolência dos senhores que foram titulares do cargo aqui no distrito de Lisboa, pelo facto de terem licenciado, aos longo da minha juventude inúmeras máquinas, desde o pacman até ao pinball. O que seria da minha juventude sem esse licenciamento! Mas actualmente já nem o foguetório autorizam. Não se faz. Ah! E fazem outra coisa. Emitem passaportes. E devem emiti-los mais rapidamente do que a telepizza nos entrega a encomenda, a julgar, por exemplo, pelo Governo Civil de Beja, conhecida rota internacional, que só para passar passaportes tem 14 funcionários. Mas não quero ser injusto. O Governo Civil tem pelo menos uma grande utilidade nos tempos que correm. É que normalmente estão sediados em edifícios do Estado com valor histórico e cultural e enquanto assim for, vender esse património é capaz de se tornar um bocadinho mais difícil. A menos que alguém se lembre de os enfiar num qualquer contentor.

ANEDOTA 2

A GNR

Outra coisa engraçada que nós temos é a GNR. Desde que a GNR foi criada, o País mudou radicalmente. Tornou-se essencialmente urbano. Parece que toda a gente deu por isso menos quem devia ter dado. Do quase nada surgiram coisas como a Amadora, Rio de Mouro, cidades inteiras nasceram à volta do Porto e de Lisboa. Ora a GNR é uma força militarizada. Militarizada? Mas nós estamos em guerra civil? Será que existe algum grupo separatista no activo e ainda não demos por isso? Já imaginaram um GNR a descer a Avenida Ernest Solvay, na sua montada, atrás de um tipo numa CBR 600, a gritar "O senhor está detido!"? Quando ele finaliza a frase já o tipo vai no IC2. Mas será que o Estado não tem respeito pelos seus próprios agentes? (pergunta de retórica, claro) É verdade que a GNR tem uma magnifíca banda de música, mas onde é que se vai arranjar instrumentos para todos os mais de 25.000 agentes?

ANEDOTA 3

A NATO

Quando terminou a 2ª Guerra Mundial e tendo em conta a voracidade desse grande amigo dos oprimidos Josef Estaline, foi criada a Nato. E ainda bem. Senão eu hoje chamar-me-ia Igor Mascarenhenko e não estava aqui a abusar dos doces prazeres da democracia liberal. Só que isso foi há mais de 40 anos. Entretanto caiu o Muro. A União Soviética acabou. O único Bloco de Leste que resta é o da selecção russa de voleibol e acho que é um exagero manter uma aliança militar só para pôr na ordem meia dúzia de atletas, por muito altos e fortes que sejam. Ora se a Nato foi criada para fazer face ao Pacto de Varsóvia e este entretanto desapareceu e a Nato continua, acho que Portugal devia, em nome da seriedade, propor a criação da Nato - AMOCOS (Against Martians and Other Creatures from Outer Space - Contra Marcianos e Outra Bicharada vinda do Espaço), porque é mais provável que sejamos invadidos por marcianos que por soviéticos. E já pensaram no merchandising? Mesmo que tudo não passasse de uma encenação, já imaginaram as naves espaciais em miniatura, tripuladas pelo Capitão Antunes, a defender o Terreiro do Paço da invasão marciana, que seriam vendidas no Natal?

Caros leitores, estes foram alguns exemplos do livro, que pela sucessão de anedotas neste país e neste mundo, promete vir a ter um 2º volume. Com dois tomos, no mínimo.

10/24/2003

No último fim-de-semana fui a um bar tão "retro", tão "retro" que os empregados de mesa faziam questão em encher o meu cinzeiro de beatas

10/12/2003

A DIFÍCIL ARTE DE SER PAI (OU MÃE, QUE NESTES TEMPOS DE FAMÍLIAS MONOPARENTAIS TEMOS QUE SER POLITICAMENTE CORRECTOS)



Confesso que já andava preocupado, com a minha auto-estima abalada porque, apesar de quinzenalmente assinar estas "crónicas", não tive, até agora qualquer correspondência por parte dos leitores, se exceptuarmos aquele canídeo que me escreveu numa das primeiras edições.

Ora esse facto, para um narcisista assumido como eu sou, é uma espécie de enxaqueca permanente, uma moínha que se vai adensando.

Felizmente as minhas preces foram ouvidas e um leitor preocupado escreveu-me, pelo que passo a transcrever as suas linhas:


Caro Sr. Nuno Augusto,

Sou pai de um rapaz que no próximo mês de Novembro vai fazer 16 anos e no último fim-de-semana fiquei surpreendido quando ele me pediu para termos uma conversa. Comecei por pensar que a "conversa" iria ser sobre o sexo feminino, mas depressa me apercebi que a coisa era bem mais grave. O rapaz entregou-me uma lista intitulada "As cenas que eu preciso para ir para a escola" e declarou-me que ou eu lhe comprava tudo aquilo ou ele ia "bufar" à mãe (minha esposa) as minhas saídas aos sábados à noite. Devo confessar-lhe que não faço nada de mal aos sábados à noite. Limito-me a ir com a rapaziada do café a um bar ali para os lados de São João da Talha, ver uns shows de strip-tease, mas só vou para não parecer mal, para que a malta não comece com "bocas", pois não aprecio aquele género de mulheres, gosto mais da portuguesa, pequenina e roliça, se bem me entende. Tive vontade de lhe dar uma bofetada, mas contive-me. E pûs-me a olhar para a lista: um telemóvel com sons polifónicos (não digo a marca porque é proibído, não é?), um portátil (explicou-me que era um computador para andar de um lado para o outro) um conjunto de roupas com marcas estrangeiras (perguntei-lhe se era a farda da escola, respondeu-me com um seco "és mesmo um cota básico") e um pricing, um pressing, perdão, um peircing (pela explicação é uma bugiganga de metal que os miúdos cravam ao corpo). Preço total: quase 3.000 euros. E livros, perguntei eu. Isso também pode ser, mas só quero se a mala for (disse uma marca qualquer, estrangeira), respondeu. E avisou-me desde logo que assim que fizesse os 16 queria uma mota, porque já não era nenhum chavalo para ir para a escola de camioneta. Estou banzado, Sr. Nuno. Nunca pensei que dar uma educação aos nossos filhos fosse assim tão caro. Nem que para aprender português fosse preciso uma mota. Estou definitivamente a ficar velho e ultrapassado. E com isto tudo lá se vai o dinheiro que andei a poupar para ir com a minha Joaquina a Benidorm. E não me chega. Pergunto-lhe, Sr. Nuno, o rapaz ainda agora vai no 8º ano, pois já chumbou algumas vezes, o que me vai pedir quando chegar ao 12º? Um helicóptero por causa do trânsito?

António José Silva
Pai


Pois bem, Sr. Silva, devo esclarecer-lhe uma coisa: não tenho filhos e por isso, embora solidário consigo, ainda não vivi essa experiência. Faço é votos para que o seu rapaz acabe o secundário e entre no ensino superior, tire um curso, mesmo que seja uma engenharia de que ninguém ouviu falar e consiga arranjar um emprego. E tenho a certeza que se lhe comprar todos os itens da lista ele estará preparado para o mercado de trabalho. Ou melhor, como dizem agora, para um nicho do mercado. Algures entre uma loja de roupa num centro comercial e uma oficina de motas. Que é um nicho tão bom como qualquer outro, claro.

9/21/2003

O VERDADEIRO ARTISTA




O Dr. Pedro Santana Lopes é, de longe, o melhor demagogo da política portuguesa. Não o digo com o fito de magoar ou de ofender, até porque, convenhamos, não tenho esse poder. Nem o digo necessariamente num tom depreciativo. A sua grande arma consiste em acreditar, ou aparentar que acredita no que diz, com convicção e é absolutamente irrelevante se amanhã disser outra coisa completamente oposta, porque tem a inteligência e a capacidade retórica suficientes para parecer coerente. Santana Lopes consegue transmitir uma imagem genuína também porque representa uma certa classe média arrivista, de tradição secular em Portugal, do neto do vendedor de bacalhau que conseguiu subir na vida, "tem pinta", para usar uma expressão popular. De alguém que não tendo a espessura das élites consegue conviver com elas e provocar-lhes inveja, como também não tem problemas em descer à rua. E como homem esperto que demonstra ser, vai aprendendo. Sendo razoavelmente culto, está longe da erudição e mantém por isso uma prudente distância das cliques, por onde serpenteia e destila charme, como também não tem problema em concordar com as ideias mais básicas do amigo do Primeiro-Ministro, o já mítico Zé, conseguido sempre transformá-las em algo que seriamente se pode defender. Cultiva a sua imagem, é o genro que todas as mães gostavam de ter. E é por tudo isto que me surpreende que certa Esquerda vire baterias para o Dr. Paulo Portas, como o grande demagogo da Direita portuguesa. Comparado com Pedro Santana Lopes, Paulo Portas é uma marioneta caricatural, uma espécie de seguro de vida para a Esquerda portuguesa, porque enquanto existir, muito gente que se integra nesse animal da fábula política portuguesa que se chama Eleitorado do Centro, vai "virar" à esquerda.

É que Paulo Portas, sendo um demagogo dotado, provavelmente mais dotado que Santana Lopes, nunca vai ser popular, pela sua própria natureza. Nunca vai perder aquele ar de beto da Avenida de Roma, por mais feiras e fainas que percorra. Pode até descer às minas, que irá sempre parecer uma marquesa incomodada com o cheiro a suor do povo. Santana Lopes é o retrato do país que somos, brota dele. Portas sonha, como muito bem explicou o seu amigo Miguel Esteves Cardoso, com um país que não existe nem nunca existirá. Portas era o puto mais inteligente da rua. Pedro Santana Lopes era o puto mais esperto da sua. Tem conseguido esbater a aura de inconsequente que o perseguia. Ganhou a Figueira da Foz sozinho, contra uma arrogância incompatível com a inteligência propalada dos seus adversários. Conseguiu devolver, pelo menos em termos de imagem, a importância àquela cidade. Ganhou Lisboa, que é mais importante que quase todos os Ministérios instalados no Terreiro do Paço. Obrigou o Primeiro-Ministro a ouvi-lo. Paulo Portas tornou-se presidente de um partido que nada mais é que um pequeno clube de sadomasoquismo, que ao longo de mais de duas décadas se foi divertindo a queimar ou a tentar queimar vivas algumas das pessoas mais inteligentes e válidas da Direita portuguesa, como Francisco Lucas Pires, o Prof. Adriano Moreira ou o Prof. Freitas do Amaral. Um partido que, nas próprias palavras do seu líder, poderia ter tido o Rato Mickey como candidato à liderança. Ou o Elmer Fudd, quem sabe. Que hoje é uma fábrica a produzir miúdos, aprumados por fora e completamente ocos por dentro, sem nada para dizer, velhos de 900 anos. Chegou a Ministro de Estado sem ninguém o querer, era apenas o puto que estava mais à mão, quando o PSD precisava de mais meia dúzia de centímetros para chegar ao fruto da árvore do poder e que agora veste uma casaca que manifestamente não lhe serve, que lhe está larga e lhe dá um ar ridículo. Por tudo isto não compreendo como é que a Esquerda se assusta com Portas e não combate Santana Lopes. Santana Lopes é credível, Portas não. Santana Lopes chega ao eleitorado que vagueia entre o PS e o PSD, Portas não. Portas nunca vai chegar a Primeiro-Ministro. A Santana Lopes basta esperar pelo momento certo, que se está a corporizar em cada manifestação de medíocridade do seu próprio partido.

8/21/2003

POR QUE É QUE EU NÃO VOTO EM ANTÓNIO GUTERRES





Enquanto o PSD se entretém com o Prof. Cavaco e o DJ de serviço Santana Lopes, o PS mantém-se silencioso, com a desculpa de que "ainda é cedo". Na verdade ninguém quer fazer a pergunta embaraçosa: vai o PS apoiar o Eng.º António Guterres?

Parafraseando o supracitado Prof. Cavaco: eu não tenho dúvidas. E quando não tenho dúvidas é evidentemente mau sinal. Não tenho dúvidas porque tenho memória e lembro-me perfeitamente do Eng.º António Guterres.

O Eng.º António Guterres chegou ao Poder, por mérito próprio, sem dúvida e teve não o pássaro, mas a gaiola toda na mão. Comprometeu-se com milhões de portugueses e fugiu.

Pela primeira vez no regime democrático o Partido Socialista chegou ao Poder sozinho com um Primeiro-Ministro esclarecido e inteligente. E o trágico da situação é isso mesmo. António Guterres é um homem inteligente e esclarecido, não um tecnocrata com meia dúzia de dogmas mal aprendidos.

Percebeu na perfeição os problemas do País ou como se diz agora, fez o diagnóstico correcto da situação.

Percebeu que o País tinha que investir de forma séria na educação e declarou-se apaixonado. A paixão foi fugaz. Guterres deixou-a entregue a meia dúzia de presunçosos incompetentes que se regeram pelo princípio que enuncia: o menino não sabe ler? Não faz mal. Veja os bonecos que nós vamos contratar os melhores ilustradores do mercado.

E sobretudo alimentou os vícios situacionistas instalados. Passou o tempo a almoçar com "lobbies", inspirado pelo ecumenismo da Terceira Via. Foi incapaz de incomodar os interesses que se degladiam na Saúde, na Construção Civil e Obras Públicas, de tornar justo o contributo que cada português dá, através dos impostos. Com o devido respeito, o Primeiro-Ministro mais parecia um qualquer monarca, desfilando pela avenida, sorrindo à esquerda e piscando o olho à direita, sendo recebido no fim por um conjunto de acólitos que entre palmadinhas nas costas e a outra mão discretamente estendida, elogiavam o seu desempenho. Continuou a engordar a máquina do Estado com despudor e incapaz de alterar comportamentos, só com um custo desproporcionado conseguiu melhorar as condições de vida do País. Porque, sejamos objectivos: nem todos os resultados foram maus. Ajudado pela competência e empenho do seu amigo Ferro Rodrigues (que deixou no pântano) conseguiu criar os fundamentos de uma verdadeira Segurança Social, fez um trabalho ímpar em termos de diplomacia em conjunto com Jaime Gama e libertou o País de grande parte das pinceladas latino-americanas coadjuvado pelo eng.º Sócrates.

No entanto, não teve a coragem política para ir ao fulcro da questão. Achou que era possível mudar sem se mexer nos fundamentos da inércia. Cada vez que um qualquer grupelho fazia uma reivindicação, Guterres mandava-os entrar no seu gabinete, de onde saíam saciados. Em seis anos a Administração Pública não passou a funcionar melhor. Pode ter obtido, eventualmente, melhores resultados, mas sempre à custa de injecções dopantes, nunca de uma verdadeira reforma. E o mesmo se passou noutras áreas.
Pergunta-se: mas o que é que isso tem a ver com a Presidência da República? Tem tudo e não tem nada.

Se achar que o Presidente da República desempenha o papel de um pai, que à lareira dá sermões aos seus filhos estouvados e serenamente se vai deitar, vote em António Guterres. Se pelo contrário acha que o Presidente da República é uma figura fulcral no nosso sistema político e de governo aconselho-o a ponderar bem o seu sentido de voto.

Diz-se muitas vezes que a escolha do Presidente da República se reconduz à escolha da personalidade mais adequada. É precisamente isso. António Guterres revelou uma personalidade sem coragem política, incapaz de afrontar os interesses instalados e cedeu sempre que foi pressionado. Saiu do pântano que ele próprio tinha criado com o ar angelical de sempre, deixando toda a gente a afundar-se lentamente.

Ora, eu não quero um cobarde político na Presidência da República, por muito simpático e inteligente que seja. Ou até por isso mesmo. Logo, não vou votar em António Guterres.



Póvoa de Santa Iria, 21 de Agosto de 2003



Nuno Augusto


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