8/02/2003

OS BISBILHOTEIROS




Ao longo da nossa existência enquanto cultura e civilização, muitos autores, bem mais sábios e cultos que eu, discorreram sobre uma peculiar característica dos portugueses: a bisbilhotice. E associada a esta irresistível tendência para espiolhar a vida alheia vem naturalmente associada uma outra: a desconfiança.

Os portugueses são bisbilhoteiros e por isso mesmo desconfiados, pois a nossa visão do mundo é sempre um reflexo de nós mesmos.

Durante décadas, o regime autoritário exerceu uma "fiscalização" que arbitrariamente misturava vida privada com vida íntima. O Portugal democrático teve alguma dificuldade, para não dizer muita, em aceitar qualquer tipo de fiscalização, mesmo aquela vinculada à lei.

Existem duas ideias sobre as quais convêm fazer alguns esclarecimentos, por muito óbvios que eles sejam. O primeiro prende-se com a necessidade de fiscalização em qualquer sistema social e sobretudo num sistema democrático: é um dos únicos garantes do seu funcionamento e da sua justiça. Não por má fé ou por desconfiança dos outros, mas pela assunção da natureza humana e da sua falibilidade e imperfeição. O fito solidário do próprio conceito de sociedade implica a criação de mecanismos que permitam a essa sociedade aferir as relações entre aqueles que a compõem. A segunda refere-se à confusão que existe entre vida íntima e vida privada. Se eu gosto mais de bacalhau com batatas ou de cozido à portuguesa é do meu foro íntimo e não tem qualquer repercussão directa no convívio social. Se eu tenho um rendimento mensal de 1.000 ou 10.000 euros, esse facto diz directamente respeito à restante sociedade, porque o meu contrato de cidadania implica que contribua proporcionalmente para essa mesma sociedade. Numa sociedade alicerçada no sucesso material (seja o que isso for), este argumento é muitas vezes o argumento da inveja, da utilização perversa por parte de quem se sente afastado desse sucesso, com dolo. Mas a má utilização desse princípio não belisca em nada a sua justeza e a sua necessidade.

Hoje, ninguém fiscaliza ninguém, e o cobertor de fino algodão que deveria ser a fiscalização num regime democrático da sua própria democraticidade e adequação aos fins é uma áspera manta de retalhos da qual todos procuram afastar a sua pueril e virgem cútis.

Em vez de nos fiscalizarmos uns aos outros, de forma transparente e recíproca, pré-determinada, em que o fiscal seja fiscalizado, entrámos no campo da pura bisbilhotice.

FUGA PARA A FRENTE





Recentemente, ouvi um número espantoso. No seu conjunto, os Planos Directores Municipais prevêem espaços para habitação que daria para 50 milhões de pessoas!

Num país que tem uma taxa de crescimento populacional perto do zero e profundas assimetrias entre o espaço urbano e o rural, este desvairo diz muito sobre a responsabilidade de eleitores e eleitos.

Não tenho qualquer intenção de produzir libelos demagógicos contra os autarcas. Repito o que já disse: não acredito que os autarcas sejam um conjunto de condenados britânicos a caminho da Austrália, que por desorientação do piloto do navio tenham aportado no ponto mais ocidental da Europa.

No meio da orgia programática da Constituição de 1976, a Autonomia Local parecia ter finalmente espaço para germinar. Só que por baixo da beleza pictórica do Portugal dos Pequeninos construído pelo Dr. Oliveira Salazar estava um país profundamente atrasado, esvaído numa guerra estúpida e numa emigração em massa. E no frémito da construção de um país evoluído, as autarquias locais foram ficando com as cascas de melão. Perante a necessidade de criarem as infra-estruturas mais básicas nas suas autarquias e na ausência de meios para tal fim, as autarquias procuraram financiamento nos privados. E uma simples assinatura passou a significar muito. Dinheiro a curto prazo para os autarcas e uma exponencial valorização de terrenos para os proprietários de terrenos. Vejamos um exemplo prático: a câmara municipal A tem a necessidade de criar infra-estruturas para 1000 munícipes, e como não tem verbas para tal, financia-se com o dinheiro proveniente da autorização da construção de mais 1000 fogos. No fim desta operação tem as infra-estruturas criadas para 1000 pessoas, mas outro problema: mais 3000 habitantes. Solução? Autorizam-se mais 2000 fogos. Há 30 anos que andamos a fugir para a frente, com a agravante de os problemas gerados pela concentração das populações serem mais do que proporcionais a esse crescimento.

O leitor atento poderá notar que muitas vezes são precisamente aqueles autarcas que mais desbragadamente seguiram esta política de autorização selvagem que têm popularidade e que "limpam" maiorias absolutas em clima de festa, entre sardinhadas e distribuição gratuita de torradeiras e moinhos de café. Deverá então o leitor aproveitar essa capacidade de observação para recuar 40 anos e para perceber o nível de exigência das populações em relação aos seus eleitos. Para se lembrar (ou para tomar conhecimento) de um país sem água canalizada em muitas casas, sem electricidade, de milhares de dedos indicadores da mão (direita, claro) a servirem de assinatura. Imagine ou lembre-se de um país sem jipes nem gt's, mas cheio de pasteleiras às soleiras das portas ou, no caso dos mais afortunados, dessa maravilha do design conhecida por v5. E pondere o grau de informação e de exigência dos retratados neste quadro, mesmo depois de 40 anos. Pondere bem, e não faça como o nosso ex-primeiro ministro eng. António Guterres, que um dia, em plena Assembleia da República, aferiu o grau de desenvolvimento do País pelo número de telemóveis, desaparecendo, meses depois, engolido pelo pântano do que o próprio criara, enquanto respondia a um sms.

Precisamos de cidadãos atentos, informados, que não se fechem em casulos, que não se fascinem com discursos pungentes e efeitos especiais. E precisamos de autarcas que parem de correr, que parem de fugir, que tenham a coragem de dizer não.

8/01/2003

ROMEU E JULIETA É O MELHOR ROMANCE PORQUE OS DOIS NUNCA PARTILHARAM UM T2

Confesso que o meu título não só é inestético como é também redutor.

Mas nem tanto.

Imaginem que o Romeu não era filho de príncipes venezianos e que a Julieta não pertencia à classe nobiliárquica, de, por exemplo, Florença.

Imaginem que o Romeu era um chavalo que vivia em Santo António dos Cavaleiros, ou no Seixal, ou na Amadora, que aos dez anos teve os seus primeiros ténis Nike, e que bem apessoado, cheio de estilo, trepou a sua adolescência como um bingo em que se faz linha com naturalidade e se ganha o primeiro prémio com um palito ao canto da boca.

Temos então o nosso Romeu, homem feito, dezasseis aninhos de guelra e muito peito, pronto a esclarecer como é que se faz, verdadeiro mestre na arte de bem engatatar, não é gaffe, é o verbo adequado, como adequada é a Julieta, essa miúda de pernas grossas mas esguias, de saias que mostram o suficiente sem serem escabrosas, de peitos salientes na camisola de lã e cabelo apanhado a completar uma cara onde o ligeiro toque de baton finaliza, de forma magistral toda a sua figura.

Temos pois aqui os nossos heróis. E Romeu merece sem dúvida esse epíteto: É simpático, um grande jogador de bola, verdadeira emoção no ginásio quando a Setôra Helena manda pôr a cama elástica e o mesmo se aplica a Julieta; Quantas apostas já correram na turma para saber qual o sortudo que mais se tinha aproximado de ver os seus mamilos? Um carinho dela é a conquista da Normândia, um beijo uma Hiroshima incontrolável.

Claro que todos apostavam no romance, que aguardava apenas uma oportunidade. E diga-se que o código era claro: O Romeu e a Julieta.

Apareceu então aquele bendito passeio a Tomar, com a malta toda na camioneta, a fazer barulho, com o rádio do Mário aos berros, o Carlos a enrolar umas ganzas e o Romeu e a Julieta, sentados lado a lado, a brincarem um com o outro, já a prepararem o terreno para a conclusão mais óbvia.

Tudo correu às mil maravilhas: a setôra Lurdes bebeu que se fartou, fumou uns cigarros e limitava-se a olhar com olhos meio embevecidos meio goraz pescado há três dias, o Romeu convidou a Julieta a dar uma voltinha de barco e no fundo a malta, na margem aplaudiu quando ele largou os remos e se mandou a ela, aplaudiu.

Quando voltámos de Tomar a coisa prometia....o Romeu pôs a mão onde a parte masculina da turma gostava de pôr e a Julieta correspondeu com os devidos fonemas.

Estava pois concretizada a relação preferida, determinada.

O Romeu continuou a jogar à bola, autêntico Maradona dos juniores, a Julieta continuou a dar-lhe um beijo depois dos jogos e aguardava-se apenas que, terminado o 12º ano ele assumisse o seu papel de noivo e de sócio-gerente na loja do pai. Ela, claro, continuaria a estudar, iria tirar um curso superior.

A primeira vez, foi de facto um bocado embaraçosa. Foram ambos para a viagem de finalistas em Marbella e acabou por acontecer, depois de algumas Cubas Libres. Entre suores e espasmos, aconteceu.

Claro que Romeu, jovem coqueluche e sócio-gerente da firma do pai não deixou de participar activamente nas idas ao Sampaio, bares de engate e saídas com destino certo num determinado prédio da Columbano Bordalo Pinheiro.

O ritual repetia-se todos os sábados com o beijo apaixonado dado ás 00.15 a Julieta e a entrada imediata no GTi de meia tigela que estivesse à mão.

Por sua vez, Julieta continuava a frequentar o curso superior de Línguas e Literaturas Românicas. Sempre na expectativa de algo mais que as relações de Sexta à noite no carro, e diga-se à espera que o Rui, seu colega, deixasse Kant a um lado.

O Rui devia estar mesmo apaixonado por Kant, ou então muito distraído. E acabado o curso, colocada numa escola de putos barulhentos e inacessíveis, Julieta estava pronta para casar. O mesmo se diga de Romeu, pois entretanto tinham comprado um T2 perto e nada parecia faltar.

Diga-se que o casamento foi lindo. Aliás, todos os casamentos são lindos. O Romeu de preto, alto, atlético, pantera coxa e ressacada, de pestanas coladas, a Julieta, modelo enfrascado em passos côncavos, e depois o copo de água, com o tio Luís completamente bêbedo a arrastar a tia Rosa e as maquilhagens e perfumes dos convidados a desfazerem-se sucessivamente nas bochechas dos dois, enquanto os envelopes se aninhavam no colo dos dois.

A lua-de-mel é sempre sempre um filme de Walt Disney que se compra com o Rambo IV.

O estranho vem depois, quando se chega a uma cama que teimam em afirmar que é nossa quando nunca lá dormimos. Vem depois com as dúvidas nos passos a tomar quando a casa está às escuras. Quando à mesa não estão as pessoas habituais.

Julieta era, foi e será sempre uma aprendiz exemplar. Mas nunca será uma cozinheira. O que desagradou profundamente a Romeu. Bom, bom era vir do treino e comer o franguinho da mãe Emília, com as batatinhas fritas.

E Romeu, diga-se, nunca será um corredor de fundo. É antes um velocista que percorridos os 100 metros, arfa e extenuado, quer descansar.

Vem depois aquele momento de carinho, em que posta a loiça na máquina, se sentam em frente ao televisor, enroscados quais gatos com o cio, beijinhos nos ombros e no queixo e eis que começa a telenovela, eis que Romeu se levanta e vai ter com a malta ao café, beber a bica e um whisky, fazer um snooker.

Ao fim de semana a coisa melhora, porque tendo a Sport TV, não há jogo que a malta perca em casa do Romeu. Assa-se umas febras, umas entremeadas, abre-se um garrafão que o pai do Toni trouxe da terra e está feito. Se o Benfica ganhar, a malta ainda bebe um Cardhu e depois vai até ao café, para fazer uma cartada.

E assim vão o herói e a miúda mais boa da turma.

Claro que falta aqui um elemento essencial, que é o rebento. Entre tantas corridas de 100 metros, alguma teria que dar um record. Perdão, um recuerdo.

A Julieta ficou então grávida, entre vivas e cumprimentos.

Se a caloria tinha sido nos últimos meses uma companheira, uma camarada das horas más, com a gravidez tornou-se uma espécie de ursinho de peluche que se leva até para a casa de banho e se coloca sentado no bidé.

Romeu por outro lado, carente dos meetings toca e foge voltou às suas amigas eslavas, altas e rosadas, da Columbano, tendo até direito a uma praxe do tipo o bom filho à casa retorna.

Nasceu pois a Cátia Vanessa, espécie de camaleão parecido com todos os familiares que invadiram o T2, beberam o melhor Cardhu das noites de bola e fizeram desaparecer as 3 dúzias de bolos sortidos da pastelaria do Sr. Manel, que a Maria do Carmo, Carminho, mãe da Julieta e sogra do Romeu encomendara, entre conversas sobre carros e conselhos avulsos e absurdos sobre puericultura.

A romaria continuou com o Sr. Guilherme, cliente da loja há mais de 10 anos, respectiva esposa-autotanque e filhos irritantes, o Nesga, o Palitos e o Zeca, amigos das suecadas e das putas, a tia Ondina, que no casamento se lembrou de ter afrontamentos, e até o Rui, colega da Julieta na Faculdade e por acaso, professor na mesma escola.

Depois é que foi o bom e o bonito. Segundo o Romeu, a Cátia Vanessa sai à mãe, chorona; a Julieta achava que saía ao pai, sempre descontente. Vamos a um consenso: a miúda passava as noites a berrar.

Nos primeiros meses Romeu sentiu-se constrangido e mal punha os pés fora de casa. Olhava embevecido a sua filha e incomodado o hipopótamo em que a Julieta se tinha transformado. Bebericava noites fora whisky enquanto trincava amendoins e esporadicamente perguntava como é que tinha corrido o dia às suas duas meninas.

No verão, foram passar 15 dias a casa da tia Margarida, no Algarve, entre fraldas fedorentas e fatos de banho que teimavam em não segurar as mamas de Julieta, onde as provas de 100 metros se transformaram em corridinhas de 50.

Na loja as coisas corriam às mil maravilhas: não havia mulher, nova, recauchutada ou velha que não perguntasse pela Cátia Vanessa e que não felicitasse o pai e que perante um elemento comprovadamente fértil se inibisse de o cumprimentar efusivamente.

Julieta voltou à escola, aos miúdos maioritariamente broncos e ao Rui, essa coisa peganhenta que teimava em apaparicá-la, com a elegância de um morcego em pleno dia na Flórida.

Voltava ao fim da tarde a casa, ia buscar a Cátia Vanessa ao infantário, olhando a cozinha, já arrumada pela empregada, entretendo-se a mudar copos e tupperwares enquanto Romeu não chegava, a tresandar a cerveja e usando o vernáculo como muleta retórica.

Jantavam quais ruminantes em silêncio, excepto a Cátia Vanessa, que teimava em espalhar tudo pela mesa, para grande descontentamento de Romeu, que queria ver o telejornal em paz e olhava fulminante Julieta, sempre que a trajectória dos alimentos projectados pela sua filha coincidiam com o seu espaço aéreo.

Levantava-se, acabado o repasto, exibindo a sua crescente volumetria e feita a higiene dentária manifestava-se com um “estou satisfeito”, aerofagicamente falando, claro, dirigindo-se então para o café, onde eminente, cortava um Ás de Copas com um Duque de Paus.

As já distantes corridas de 100 metros tinham-se transformado em lançamento de peso: O Romeu lançava-se para o lado direito da cama e a Julieta, caía, graciosa, com os seus 77kg, no lado esquerdo da cama. Grande Ernesto, pai de Romeu, homem prevenido que lhes tinha oferecido uma cama robusta.

Se Romeu se contentava com as Irinas e as Natachas da Columbano, nas primeiras sextas do mês contabilístico, Julieta ficava a ver navios, tipo Brad Pitt ou Keanu Reeves, em filmes sucessivamente alugados, refugiada em molotoff’s e sortidos de hipermercado.

Aos domingos iam almoçar a casa dos pais, ou dos sogros, conforme a perspectiva, com uma programação de fazer inveja. Romeu mostrava, orgulhoso, o cartão de sócia do seu clube, desde a nascença, da sua filha, enquanto Julieta abanava os ombros e fazia esgares às inquirições de sua mãe.

Foi então que Julieta, um dia por acaso, num intervalo entre duas aulas, olhou para o Rui e achou que afinal ele não parecia um morcego, quanto muito um marsupial. Foi então que finalmente almoçou com ele fora do refeitório da escola, e que no caminho de volta resolveu masturbá-lo, enquanto o mesmo estrebuchava, suava, o seu cabelo oleoso pingava e quase hirto, teve um orgasmo.

Voltou ao fim da tarde para casa, viu o rinoceronte a entrar, a comer, a manifestar-se ruidosamente e a sair para o café, e deitou-se com um sorriso sereno mas vivo.

No outro dia, saída do banho, conseguiu limpar-se sem voltar costas ao espelho e olhou-se de frente, olhou os pneus e os socalcos que povoavam o seu corpo e lembrou-se dos seus seios outrora rijos e proeminentes.

Limpou-se, vestiu-se, perfumou-se, passou um perlimpimpim pela cara e foi para a escola, sentindo em uníssono o roncar do motor e o seu ronronar.



7/28/2003

O SÍNDROMA DA NOVA ZELÂNDIA

Reflecti bastante antes de me decidir pelo título desta crónica. Não quero criar qualquer clima de pânico entre os meus concidadãos. Este síndroma nada tem a ver com esse fumador inveterado que noite e dia expele baforadas do lado de baixo da linha do caminho de ferro. Advirto no entanto que este síndroma é contagioso. Segundo estudos publicados recentemente por reputadas revistas de cariz científico é provável que este contágio se dê por mimetismo, por uma reacção psicossomática.

Pela manhã, os pacientes dirigem-se freneticamente ao transporte que os leva ao seu local de trabalho, invariavelmente de cabeça baixa e ritmo sincopado, percorrendo sempre as mesmas artérias, de forma automática, sem qualquer recurso aos sentidos. Aparentemente não falam, não ouvem, não cheiram, não degustam nem sentem.

Voltam à noite, ainda mais prostrados e insensíveis, procurando compulsivamente os seus casulos de onde só saem para a recolha de víveres, numa corrida envergonhada ao posto de abastecimento mais próximo, e graças às maravilhas da tecnologia moderna, só necessitam de olhar de soslaio o mostrador que em tons de verde huxley anuncia ?3,87?, obrigado? e esticar o cartão de consumo. Voltam apressados aos seus casulos, quais coelhinhos da Alice no País das Maravilhas. No estádio mais avançado é possível nem sair dos casulos e encomendar os víveres pelo telefone ?Se pretende uma pizza simples, carregue no 1; se pretende uma pizza com queijo e chouriço, carregue no 2; se pretende uma pizza paquistanesa, carregue no 3?. Quase de imediato, um rabanete zumbidor e motorizado faz a entrega. Metidos nos seus casulos, os pacientes enroscam-se confortavelmente em frente ao seu televisor. Talvez por isso e em situações de crises agudas da doença ficam confundidos quando abrem as janelas e por momentos não sabem se o que vêem é um filme ou a realidade, similar aos momentos em que acordamos no meio de um sonho. Por profilaxia muitos deixaram pura e simplesmente de abrir as janelas.
nova zelândia
Apesar da gravidade, alguns investigadores admitem a possibilidade de cura. Acham que o autismo é apenas aparente. Que no fundo, bem no fundo, os pacientes falam, ouvem, cheiram, degustam e sentem.

Também tenho essa convicção ou se quiserem e dado que não sou cientista nem investigador, essa fé.
Fungágá da Bicharada

A minha crónica de hoje é dedicada aos mais novos. A memória das histórias que me contaram na infância ainda hoje me prega um largo sorriso.

Era uma vez um leão num reino em que os animais falavam. O rei da selva, preocupado com o estado deplorável e subdesenvolvido do seu reino e convencido ainda da responsabilidade sobre os restantes bichos que o seu estatuto de soberano lhe exigia, sentou-se na clareira e pôs-se a pensar sobre o que poderia ser feito para melhorar aquela selva decrépita, de modo a que diversas espécies de animais não a abandonassem. Resolveu, então, pedir conselho ao animal mais sábio de toda a floresta - o mocho. Ora, a sapiência do mocho só era comparável à sua gula, aliás inversamente proporcional ao seu espírito predador. Assim, o mocho aconselhou o leão a entabular conversações com o castor. O castor, animal de aspecto gorduroso e desgrenhado, era, por aqueles sítios, o bicho mais empreendedor, tendo criado com outros castores de selvas limítrofes um acordo relativo à construção de diques, controlando, deste modo, o curso do grande rio. Atento e informado, sempre que algum animal, vítima incauta do seu predador ficava incapacitado nas artes de caça ou da pesca, oferecia-se para ficar com o seu território por truta e meia. Propôs pois ao Rei Leão que este o deixasse construir canais para esses vastos territórios que havia adquirido, de modo a que os bichos em debandada tivessem acesso aos benefícios do rio, comprometendo-se, em troca, a construir ninhos e tocas. Aceitou o leão de bom grado, regozijando-se, discretamente é certo, o anafado mocho, que a seu lado lhe conferia autoridade.
Logo se iniciaram naquela selva pacata, obras para criar os inúmeros canais, ninhos e tocas. Animais de todas as espécies e feitios acorreram àquele lugar, querendo reservar uma toca, um ninho, ou uma simples liana. Começou o castor por pedir dez trutas por cada ninho ou toca, mas vendo a turba que entretanto se tinha aproximado, foi pedindo sucessivamente mais trutas por cada ninho e cada toca, aconselhando os bichos interessados a dirigirem-se ao seu amigo hipopótamo. O amigo hipopótamo era, em toda a selva, o único animal apetrechado para armazenar trutas, pois não só a sua enorme boca lhe permitia apanhar de uma só vez mais trutas que a da maioria dos animais, como também, graças às excelentes relações de amizade que mantinha com o castor, podia escolher as melhores zonas de pescaria no rio.
Faziam filas intermináveis os animais, esperando que o hipopótamo lhes cedesse algumas centenas de trutas, comprometendo-se a devolver-lhe periodicamente um número considerável de trutas, até perfazer o cedido mais umas centenas de trutas. E assim corria, prazenteira, a vida naquela selva. O leão, a princípio contente por ver a sua selva cheia de vida e bulício, tendo-se inclusivamente cercado de uma roda de conselheiros que incluía outros bichos para além do mocho ainda que igualmente indolentes e matreiros, começou a ficar preocupado com as frequentes disputas entre os animais e com a diferença entre os canais acordados e os efectivamente construídos. Consultou então o castor, tendo-lhe este respondido que a lama com que fazia os canais custava cada vez mais trutas, rápido de espírito, propôs de imediato ao leão a feitura de mais cinquenta tocas e cinquenta ninhos, pagando-lhe com algumas dezenas de trutas. Começou o leão por recusar, estabelecendo o limite de vinte e cinco tocas e vinte e cinco ninhos, mais um canal. Respondeu o castor que não, que assim não podia ser e o leão, convencido pelo seu faminto conselho e pressionado pelos animais residentes a construir ele próprio os canais prometidos, aceitou que o castor fizesse quarenta tocas e quarenta ninhos e um pequeno canal. Bem intencionado, o castor prometeu ainda dar uma palavra de abono junto do seu amigo hipopótamo, para que este cedesse ao leão as trutas necessárias para alimentar o seu concelho e construir os canais que o castor, alegadamente não podia fazer.
E assim vivia aquela selva. O castor laborioso continuava a construir e a pedir milhares de trutas por cada abrigo, trutas que os animais não tinham, mas que o hipopótamo cedia a troco de mais trutas ainda, em pagamentos faseados e com o juro de três trutas por cada dez cedidas. O leão, incapaz de controlar a situação, pedia também ele cada vez mais trutas ao hipopótamo, até que, por desígnio da lei natural, morreu.
Em diversas selvas daquele reino, leões chegaram ao trono e em alguns reinos até mesmo leoas, por vezes cheios de ânimo e de vontade em mudar o curso das coisas, mas invariavelmente acabando por se sentar à mesma mesa do rei anterior. Do outro lado da mesa os hipopótamos, os castores e alguns mochos continuavam a ser os mesmos. Cada vez mais anafados, claro!
FESTIM DE CANIBAIS

Meus caros leitores

Estou irreversivelmente fora de moda. Enquanto que a maioria de vós se interessa por ciências e actuais, como a informática, eu, espírito empedernido, tenho-me dedicado a assuntos impregnados de bolor e teias de aranha. Mergulho ávido na investigação arqueológica e como não tenho recursos financeiros para me deslocar à Polinésia, faço do meu quintal um pequeno laboratório. Tenho escavado metodicamente, qual condenado que aproveita todos os momentos para abrir o túnel que o conduzirá à liberdade e aguardo ansioso o primeiro vestígio de antigas civilizações, como o prisioneiro aguarda o cheiro do esgoto que o levará à liberdade.
Está pois o meu quintal transformado numa rede de túneis e buracos, o que tem agradado de sobremaneira aos cães da vizinhança, que voluntariamente me vêm ajudar na empresa, transformando-o numa espécie de Colombo da bicharada. Os meus vizinhos, mesmo desconfiando da minha excentricidade, estão-me agradecidos, pois podem ocupar o seu tempo com coisas mais importantes que passear os seus cães. E eu fico contente e num exercício que roça a esquizofrenia, imagino que aqueles caniches e perdigueiros são jovens e barbudos investigadores que fazem parte da minha imaginária equipa.
À força de tanto escavar e esgravatar, descobri vestígios de uma civilização que faz de Viriato um primo que faleceu ontem. Determinei chamar-se essa civilização Asnónia. e curiosamente apurei também que ocupava o extremo da Península Ibérica.
Eram os asnónios um povo peculiar. Indolentes e acabrunhados, tinham, com o decorrer dos tempos esquecido as artes de amanhar os campos. Como em qualquer sociedade, um grupo restrito de asnónios detinha o poder de executar as deliberações de toda a comunidade, mas a indolência de todos levou a que passassem não só a executar, como a deliberar. A cada vez maior escassez de recursos levou à instituição do canibalismo como a única solução para a sobrevivência da espécie, legitimando esta escolha com o argumento da eugenia da raça, já que os menos aptos, os mais obesos e trôpegos seriam os primeiros a serem devorados.
E assim sucedeu. Organizaram-se caçadas com pompa e circunstância, onde os mais rápidos trucidavam os mais lentos, para entregaram a sua carne aos mais sábios que assistiam, quase cândidos, do alto de promontórios. À medida que a caça se intensificava, novas técnicas foram desenvolvidas, permitindo a morte das presas com o mínimo dano para a sua suculenta carne. Chegou o momento em que pela ausência de presas os caçadores se caçaram a eles mesmos.
Apenas restavam os sábios. E aplicando o mesmo princípio, os mais aptos foram ludibriando os menos aptos, sobrando finalmente apenas um, espécie de iluminado, de criatura reunindo todos os requisitos da perfeição. Tinha apenas um defeito. Estava vivo e consequentemente precisava de se alimentar. Posto perante este dilema decidiu Eugénio (era esse o seu nome) comer-se a si mesmo, empregando toda a sua sabedoria na realização desse objectivo. Preparou cuidadosamente unguentos que lhe permitissem sarar as feridas decorrentes da auto-mutilação. Começou então por comer os dedos dos seus próprios pés, os seus olhos, pois nada no mundo ao seu redor lhe interessava ver e o tacto bastava para se consumir. Comeu as suas pernas, pois não precisava de se deslocar neste estado de auto-suficiência e assim foi avançando, até ser apenas uma língua, um esófago e um estômago em cima de uma cama feita com os seus ossos e morreu no momento em que engoliu o seu próprio coração. Assim terminou a civilização dos asnónios.
Confesso que estas descobertas me deixaram meio angustiado e apenas a inocente certeza de que nós, actuais habitantes do mesmo espaço geográfico, nada temos em comum com os asnónios, me devolveu o ânimo e a confiança.

UM GRANDE FURO

Meus caros leitores, tenho uma confissão a fazer: sou agnóstico. Para ser absolutamente preciso, não acredito em nenhuma das divindades que até agora me foram apresentadas, mas não fecho a porta a posteriores revisões nesta matéria, até porque esta minha incipiente tentativa de jornalismo tem sido até agora bafejada, pela sorte. Tal sorte propiciou-me o objecto desta crónica. Estava eu em alegre passeata por esse magnífico exemplar do arrojo urbanístico, da “avant-garde” em conceptualismo paisagista chamado Jardim Municipal da Quinta da Piedade, quando reencontrei um velho amigo de infância. Depois das efusivas celebrações, explicou-me que tinha emigrado para América (apaziguando de vez o remorso que eu senti durante mais de 20 anos, pois julgava-o ainda de castigo, depois de ter entrado em grande velocidade pelo posto do leite, em cima de um carrinho de rolamentos especialmente preparado por mim, provocando grandes estragos) onde conseguira especializar-se em informática. Trabalha actualmente na Microsoft e trata o Bill Gates por tu. Disse-me então que estava de volta à sua terra de origem para se inspirar na feitura de um novo jogo de computador. Senti-me orgulhoso, quase pairando de tanto ar inspirado. A minha terra objecto de um jogo de computador!
Passados alguns meses recebi pelo correio o cd com o jogo, que gentileza a sua. E é mesmo desse jogo, que promete dar ainda muito pano para mangas, de que vos gostava de falar. O jogo chama-se Póvoa Wreck I. Que excitação! Rasguei o invólucro e enfiei o cd na drive. Abriu-se-me então um vasto leque de opções.
Em primeiro lugar, era necessário escolher o tipo de veículo. A opção era entre um pequeno automóvel, de vidros fumados e escape gigantesco, com um relâmpago desenhado no capot e um enorme jeep de tracção às quatro rodas. Se escolhêssemos o primeiro, o nosso alter ego virtual seria Hillbilly Joe, que traduzo livremente por Zé Parolo. Se a nossa escolha recaísse sobre o segundo, encontraríamos como condutor um tipo anafado, de meia-idade, chamado Supposed Yuppie, isto é, julgo eu, o Executivo da Tanga.
Cabe-nos depois a selecção do circuito. Temos várias hipóteses. A primeira é a Vicente Valent’s Circus e corresponde à avenida circular da Quinta da Piedade. Temos também a National Road, correspondente à EN10. Mas o melhor mesmo é o Up and down in the town, isto é andar às voltas.
Vamos então começar...com um arranque barulhento. Aqui vou eu a acelerar, avenida acima.
Instruções (botão F1):
Acertar num cão, 10 pontos.
Acertar num peão, 20 pontos.
Acertar num peão em cima de uma passadeira, 50 pontos.
Ena, grande pinta!
Pedem-nos, neste momento, que seleccionemos a música de fundo. Bem alta, claro!
Vou dar uma voltinha a uma das pracetas. Estaciono o carro bem no meio da praceta e carrego no botão fire in the house. Um prédio está a arder e aí vêm os bombeiros. Deixa-me cá estacionar bem o carro senão os bombeiros ainda conseguem entrar na praceta. Já está! Que grande confusão! Os bombeiros bem tentam mas não conseguem entrar. Vou-me embora ou ainda se lança mais alguém pela janela
Entro na Estrada Nacional e aqui sim, dá para carregar no pedal a valer! Já marca 100 km/h! ADRENALINA!!!!! Mais um cheirinho e conseguia apanhar o velhote. Fica para a próxima. Afinal é a primeira vez que estou a jogar.
Vou até perto da estação de comboios. Aqui é que é giro! O autocarro da rodoviária cheio de pessoal e eu estacionado mesmo no meio da rua. Este jogo está mesmo bem concebido! Até dá para ver a cara pesarosa dos utilizadores do autocarro! Vamos seguir. Aí vai um pacóvio de bicicleta...só um susto, para o abanar e aprender que a rua é para os carros. Já está! Prego a fundo avenida acima, na esperança que algum transeunte apareça por detrás dos inúmeros camiões estacionados. Nada. Ora bolas!
Vou até ao café beber umas imperiais. Paro a máquina à porta do café e meto o som no máximo. ‘Tá-se bem... Só preciso chamar um amigo para jogarmos na versão Two Players, quer dizer, ao despique. Aí é que vai ser mesmo louco, a ver quem comete mais infracções e quem consegue assustar mais pessoas. Um traumatismo craniano vale 100 pontos!
O jogo está de facto magnífico, embora pouco realista, já que é por demais conhecido o bom senso dos portugueses ao volante. Ninguém podia ser tão obtuso, mas, sabem como é, para vender é preciso dourar a pílula. É óptimo para descontrair, depois de um dia a trabalhar e de horas perdidas no trânsito.
Se quiserem experimentar o jogo é só enviarem o vosso pedido para tiagomascarenhas@vizzavi.pt, e eu envio-vos o sítio onde podem fazer o download da demo em versão shareware, claro.

O MECENAS

Meus caros leitores, venho hoje revelar-vos que, além de funcionário público, sou estudante de Direito. Na prática, sou um M&M amargo. Já não me bastava ser Mandrião, como ainda me candidato a Malandro. O curso de Direito é em grande parte constituído por cadeiras onde os alunos procuram resolver casos práticos, isto é, ficções que pretendem retratar o mais fielmente possível a realidade. É um desses casos práticos que trago hoje ao vosso conhecimento.

António, jovem empresário da construção civil, resolve doar 500 contos a uma instituição particular de solidariedade social, ao abrigo da lei do mecenato, por acaso dirigida por Bento, seu amigo de longa data. Na realidade António não doou nada, pois Bento é dono de uma empresa de importação, e passou uma factura que refere que a venda foi constituída por vários milhares de fraldas, produto descartável, como convém. António fica com 250 contos, Bento com igual montante. Aproveitando uma singela homenagem ao benfeitor António, pela sua doação filantrópica, Bento reclama da autarquia local a construção de um novo equipamento para a IPSS que abnegadamente dirige. David, presidente da autarquia acede na construção e sendo um homem moderno e de vistas largas, candidata esse projecto a fundos comunitários. António ganha evidentemente a empreitada e compromete-se a construir o equipamento por 100.000 contos. Aliás António ganhou nos últimos tempos várias empreitadas na região. Consegue assim reduzir os custos unitários e constrói o equipamento por 60.000 contos, mas em nome do rigor das finanças públicas apresenta uma conta final de 100.000, o valor orçamentado. Acrescenta apenas 10.000 contos porque a empresa que projectou a obra (por acaso pertencente a um cunhado seu) não avaliou devidamente os custos e porque sempre gostou de números redondos e assim lucra 50.000 contos. Feitas as contas, António teve um lucro de 250.000 contos, pois tinha mais 4 obras na zona. Sabe entretanto de um terreno pertencente a uma família com falta de liquidez e apresenta o projecto a David, falando com o gerente do banco local, pedindo um financiamento para a construção de uma urbanização, aproveitando também para abrir uma conta nas ilhas Caimão, onde coloca os 250.000 contos que ganhou anteriormente. Posto perante algumas vozes discordantes do seu projecto, António rapidamente chegou à conclusão que se ele, homem simples e terra-a-terra, achava o empreendimento interessante, mais o achariam os cultos e esclarecidos que o contestavam, pois podiam observá-lo à luz da estética e da sua qualidade arquitectónica. Descobriu que esses homens iluminados, que passavam horas a projectar o mundo, quando regressavam ao mundo dos vivos, vinham desejosos de materialidade, por assim dizer. Nada que uns belos T5 na cobertura das mais altas torres não saciassem. Erigia-se assim a Urbanização. António factura 5 milhões de contos e não querendo deixar os seus créditos por mãos alheias, cria um conjunto de empresas para prestarem os serviços urbanos (recolha de lixo, jardinagem etc.) na sua urbanização. Por especial atenção ao seu amigo Presidente David faz um preço ?em conta? e aproveita os funcionários a contrato que David foi obrigado a despedir em nome da contenção de despesas. Todos lucram: lucra David que diminui as despesas com pessoal, sendo por isso elogiado até pela oposição e lucra António que aproveita o conhecimento que os trabalhadores adquiriram, até porque como ele bem sabe, pois também possui uma empresa especializada em formação profissional, dirigida pela sua mulher, a formação, além de cara é, na maior parte das vezes uma fraude. Bem, na verdade as despesas com pessoal diminuíram 50.000 contos no orçamento da autarquia e só o contrato de concessão que António assinou com David custa aos cofres públicos 250.000 notas por ano. Mas são um investimento, claro. António, católico por formação, jura a si mesmo que assim que não estiver atarefado a constituir uma nova empresa de prestação de serviços ou a projectar uma moderna urbanização, vai visitar as ilhas Caimão.

O BOM SAMARITANO




A vida moderna tem destas coisas: metem-nos em caixotes e obrigam-nos a falar com os vizinhos. Criou-se essa figura sinistra conhecida por assembleia de condóminos.

Encontro-me em conflito com um vizinho, um tipo execrável, o Rashid, que bate na mulher. Pior ainda, fui eu que apresentei o tipo à mulher, pois pareceu-me, na altura, o indivíduo certo e antes que um outro vizinho se insinuasse, resolvi propiciar o romance. A Munira (é esse o nome da ofendida) tem uma bela vinha e com o casamento juntei o útil ao agradável: tinha um tipo de confiança para controlá-la e bebia o vinho à borla. Esta prática é aliás corrente no prédio. O Pierre, por exemplo, vizinho do 4ª esquerdo, de vez em quando expulsa o marido da jovem negra que assegura a higiene do prédio, aproveitando para passar lá umas noites e deliciar-se com os acepipes que ela tem no frigorífico. Um ?bom vivant?!. Já o John, vizinho do 5º direito, incapaz de se manter amantizado com metade do prédio, resolveu recolher ao seu apartamento e passa o tempo a cravar-me vinho, azeite e senhas de gasolina.

Propus na assembleia de condóminos que o Rashid fosse expulso, alegando a inadmissibilidade da violência doméstica nos tempos que correm. Na verdade pouco me importa se a Munira é agredida ou não. Sou um fervoroso defensor do principio ?entre marido e mulher, não metas a colher?. Estou é farto de acompanhar as minhas refeições com coca-cola. Quero o vinho! Além do mais estou convencido que mais vale um marido que saiba manter o respeito que outro que permita que a sua mulher faça o que bem entender. E nesta perspectiva mantenho com alguns maridos truculentos uma boa relação de vizinhança. Podem bater na mulher, mas só na medida do necessário e mediante uma pequena comparticipação em géneros para a minha dispensa, para que eu possa verificar se os fins justificam os meios.

Já avisei os restantes condóminos: qualquer dia farto-me de beber coca-cola e entro pela casa a dentro da Munira, dou uma carga de porrada no Rashid, corro com ele, coloco no seu lugar o Mohamed, um empregado meu de confiança, mas o vinho fica só para mim!

O BISNAU




Tenho a certeza que mesmo os meus leitores menos atentos já ouviram falar daquele género de criaturas que, nunca se conhecendo verdadeiramente a sua natureza, nem existindo provas cientificamente irrefutáveis da sua existência, se suspeita serem tão reais como nós. Enquadram-se nessa categoria o Abominável Homem das Neves ou o Monstro do Loch Ness.
Pois bem, sei de fonte segura que as autoridades locais suspeitam da existência de um tal ser aqui, no nosso burgo. Embora de forma cautelosa e sem nunca o admitirem, peritos andam já no terreno, procurando pistas que levem à identificação de tal alimária.
Essa task-force baptizou, provisoriamente, o animal como Bisnau e já identificou o seu modus operandi: pela calada da noite, esgueira-se por entre os automóveis estacionados e presume-se que trepa os prédios. E digo presume-se porque nunca ninguém viu tal acção, mas diversos relatos apontam para a identificação do bisnau refugiado por detrás das janelas que os incautos deixam abertas, perpetrando o acto que levou à suspeita da sua existência: o lançamento de sacos do lixo e de objectos na via pública. Está assim explicado, pelo menos em parte, o quadro matinal com que somos brindados, feito de sacos de lixo obesos e outras coisas que a linguagem vernácula tão bem caracteriza, esparramados nos jardins fronteiros aos prédios, quais turistas suecos aguardando imóveis as escassas horas de Sol num qualquer relvado de Gotemburgo. Os testemunhos afirmam que o estranho ser é antropomórfico e provavelmente humanóide, sendo possível vislumbrar os seus membros superiores que num movimento rápido, lançam, por vezes a distâncias consideráveis, caroços de fruta, embalagens de iogurte, pacotes de leite, enfim, um sem número de objectos que nós, humanos, arrumamos sumariamente na categoria de lixo. Alguns bisnaus parecem dispor de um dispositivo natural que emite uma intermitente luz vermelha, mais ou menos no sítio onde nós temos a boca. Os investigadores aventam a hipótese de se tratar de um rudimentar sistema de comunicação, pois por vezes lançam essas pequenas luzes em conjunto com os detritos. Chegou-se entretanto a um impasse: ou o animal é muito rápido ou reproduz-se muito. Como as quantidades de lixo deixadas no meio da rua continuam a aumentar, alguns cientistas defendem que se trata de um só animal, que à medida que se vai adaptando ao meio ambiente, vai ficando mais rápido, entrando em cada vez mais janelas abertas. Um outro grupo justifica tal aumento com o crescente número de bisnaus. Matéria que suscita maior consenso é a da necessidade de cautelosamente se alertar a população da existência destas criaturas noctívagas. Brevemente será tornado público um comunicado onde se solicita à população que feche bem as janelas no período nocturno e que não deixe o seu lixo indevidamente acondicionado.
Como em tudo na vida, também entre estes reputados cientistas existe um grupo, minoritário, claro, de cépticos, que refuta a existência do Bisnau. Segundo a sua perspectiva, incongruente aliás, os sacos do lixo e outros detritos, são lançados nas ruas e nas zonas verdes pelos próprios moradores, ao abrigo da noite. Esta teoria não tem qualquer fundamentação e esfuma-se no postulado da racionalidade humana. Parece-me claro que este tipo de acção é característica de seres irracionais, de bestas, não sendo possível, portanto, numa sociedade humana.
Estou certo que mais cedo ou mais tarde as autoridades vão capturar um bisnau vivo ou morto e acabar de vez com a sua acção malévola.
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